Blubell ilumina tempos sombrios com a verve que pauta o sexto álbum da artista


Cantora e compositora paulistana transita com graça por jazz, blues, pop e samba-canção em safra autoral que inclui parceria com Zélia Duncan. Capa do álbum ‘Música solar para tempos sombrios’, de Blubell
Laís Aranha / Divulgação
Resenha de álbum
Título: Música solar para tempos sombrios
Artista: Blubell
Edição: YB Music
Cotação: * * * *
♪ Em Música americana, terceira das nove composições autorais dispostas no sexto álbum de Blubell, Música solar para tempos sombrios, a cantora e compositora paulistana versa espirituosamente sobre a predileção pelo blues, pelo jazz e pela canção norte-americana, concluindo que a linguagem dos sons é universal.
O sopro do clarinete de Lucas Raele sublinha a verve entranhada nessa faixa que termina em jam e que exemplifica a graça que pauta a música de Blubell. “Quem vai ouvir? Não sei / Quem vai gostar? Sei lá / Machuco minha arte / Se eu me preocupar / Com o que os outros vão pensar”, reflete a artista nesse blues.
A graça da música de Blubell salta especialmente aos ouvidos neste álbum gravado em janeiro de 2020 entre os estúdios paulistas Gargolândia e YB Music – sob direção musical orquestrada pela artista com o já mencionado clarinetista Lucas Raele – e lançado quase dois anos depois nesta quinta-feira, 7 de outubro.
Quando o disco foi gravado, com repertório inédito composto pela artista entre 2018 e 2019, a pandemia ainda não havia chegado ao Brasil, tornando os tempos ainda mais sombrios.
Ao ser lançado, enfim, o álbum chega ao mundo com o clima ainda pesado no país – o que somente valoriza o bom humor desse disco em que Blubell versa sobre a linha nada linear do tempo na pegada de blues que conduz O futuro, música que abre o álbum.
“No universo, sou a elite da elite”, brinca em verso de A nata sou eu, canção abolerada em que Blubell ecoa a sintaxe espirituosa de Rita Lee em gravação aberta com a voz em off de Suzana Salles, também integrante do coro da faixa ao lado de Ná Ozzetti.
Com exceção do lânguido Blues do pijama (inicialmente intitulado Bonjour), cuja letra é assinada por Zélia Duncan, convidada dessa faixa de sensual clima noir potencializado pelo toque largo do baixo de Igor Pimenta, todas as músicas são criações solitárias de Blubell.
Capa do livro ‘Música solar para tempos sombrios’, de Blubell
Ilustração de Juliana Russo com arte gráfica de Daniel Banin
A verve do álbum Música solar para tempos sombrios extrapola os clichês do alto astral, do som good vibes. Faixa climática, mais interiorizada, No banco de atrás se insinua sensual entre a balada e o samba-canção.
Com os toques dos músicos Danilo Penteado (piano e guitarra) e Richard Ribeiro (bateria e percussão), além dos já citados Igor Pimenta (baixo elétrico e baixo acústico) e Lucas Raele (clarinete), e da própria Blubell na guitarra, o álbum foi bem mixado e masterizado por Pedro Vinci.
Com músicas como Empatia (faixa de arranjo que embute dissonâncias em sintonia com a letra que valoriza o erro que leva ao acerto), Frágil (elogio da vulnerabilidade humana diante da paixão em música que alterna andamentos e tira sarro da sofrência) e O sol (música de luz mais opaca), o disco chega ao mundo simultaneamente com livro também intitulado Música solar para tempos sombrios e editado com arte gráfica de Daniel Banin.
Além de reproduzir as letras das nove músicas do disco, o livro traz ilustrações da artista Juliana Russo e crônicas escritas por Blubell sobre cada uma das músicas desse álbum que perde (um pouco do) poder de sedução a partir da sexta faixa.
Encerrado com The bright side of the moon, balada-blues composta e cantada em inglês, o álbum Música solar para tempos sombrios mantém o alto nível de discografia que inclui os álbuns Slow motion ballet (2006), Eu sou do tempo em que a gente se telefonava (2011), Blubell & Black Tie (2012), Diva é a mãe (2013) e Confissões de camarim (2016).
Blubell faz bem em se despreocupar com o aval alheio, mas muita gente vai gostar de Música solar para tempos sombrios…