‘Bipolar’: Segredo do funk nº 1 do Brasil foi unir beat de TikTok e letra da ‘quebrada’


Música de MC Davi e DJ 900 é inspirada em funk de Brasília e Belo Horizonte. PODCAST e VÍDEO mostram passo a passo como foi criada uma das músicas mais ouvidas de 2021. Mc Davi e DJ 900 explicam ‘Bipolar’
A música mais tocada do Brasil por dois meses é um funk de São Paulo feito para parecer música que toca em BH. “Bipolar” nasceu da união improvável de um DJ ex-crente do Espírito Santo e um MC paulistano fã de Racionais, e foi feita em duas horas. Ouça abaixo o podcast G1 Ouviu, com o passo a passo da criação do hit.
O DJ 900 e O MC Davi são praticamente vizinhos, além de parceiros de empresa. Os dois estavam viajando no som do funk de Brasília e Belo Horizonte, que eles “não sabem explicar com palavras”, mas souberam transformar em fenômeno digital:
A música passou 43 dias como a número 1 do Spotify Brasil;
O clipe teve mais de 125 milhões de visualizações;
Campeã de desafios no TikTok com uma coreografia fácil de pegar.
“Eu falei pro Davi: você já viu aquelas músicas de BH que estão estourando muito? Lá não tinha um artista gigante nacionalmente, e eu pensei: imagina se a gente fizer um no ritmo de lá? Em São Paulo, o ritmo é um 120, 130 mais trabalhado. O funk de BH mistura um monte de beat pra fazer um beat só, fica aquele pontinho na cabeça”, explica 900.
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No estúdio do Batidão Stronda, eles tinham ouvido “Vai no chão, doidona”, do brasiliense Vittin PV, e curtiram a música.
Os beats já estavam produzidos e gravados pelo 900 em um estúdio improvisado e apertado na zona norte – o dele está em reforma. Com três garrafas de cachaça na cabeça, ele gravou as bases de guitarra e teclado de “Bipolar”.
“O beat é feito numa guitarra. No início da música, tem tipo um pianinho. De instrumento tem isso e tem um assovio também no meio só. E as vozes eu vou gravando. A gente faz tudo na hora, pega o microfone, grita pah, grita tum e eu vou tratando até parecer um beat”, explica.
A música feita por 2 virou de 4 por causa do modelo de produção do funk paulistano: os MCs moram perto um do outro e estão sempre na empresa. É fácil dar de cara com a gravação um do outro. Foi assim que Don Juan entrou na parada: “Três dias depois da música pronta, estávamos no estúdio gravando, o Don Juan abriu a porta e falou: ‘eu quero entrar nessa música também'”, conta 900.
MCs Davi, Don Juan e Pedrinho cantam a música ‘Bipolar’
Divulgação
Já a entrada de Pedrinho foi um pedido do dono da empresa. “Temos a coletividade de chamar um o outro, porque aqui a gente um dia está ajudando um e no outro a gente pode ser ajudado. O Pedrinho, que tem um nome muito forte, muito bom, a gente queria vê-lo no funk de novo. E como ele estava voltando para a nossa empresa, foi o momento que o Rodrigo falou: pô, tem um música aí? E eu falei da ‘Bipolar'”, conta Davi.
Quem não briga com o mozão?
A letra de Mc Davi é uma mistura de “gratiluz” e “sem tempo, irmão”. No dia que compôs, estava brigado com a esposa. Faz parte do método de criação.
Quando ouviu o beat do 900, abaixou a cabeça e começou a escrever. Levantou com a letra praticamente pronta 20 minutos depois. Juntos, eles trabalharam mais 40 minutos na melodia e gravaram os gritos.
“Eu sou casado, né. E todo casamento tem briga. Então gosto de ir para o estúdio quando estou tretado. O 900 me permitiu acender meu narguilezinho, a gente deixa a luz bem baixa, entra naquele clima, numa situação de tristeza, sofrimento. E aí ficou mais fácil pra fazer a ‘Bipolar'”, conta Davi.
Já o combustível do 900 é o álcool. “Eu estava muito bêbado, bebo muito para fazer música. O Davi estava com o narga dele e eu estava com a minha cachaça, então sai rápido.”
Música de boy e de quebrada
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Para Davi, o segredo de “Bipolar” foi ouvir e entender a quebrada e, ainda assim, ter um beat mais “limpo” para agradar “playboy”.
Assim, beat e letra andaram em caminhos opostos. O 900 compôs a melodia pensando no Tiktok, capaz de transformar lançamento em hit no meio da pandemia.
“Eu já maldei o tiktok desde o início, já tinha falado para o Davi. Se você olhar os vídeos do Davi da época, quando dei o primeiro play na música pronta, eu já estava em pé dançando e fazendo TikTok da música Eu já tinha maldado isso no beat, era só pegar um pontinho, uma guitarrinha fazendo. Aí eu falei, Davi, quando entrar o refrão, canta o baixinho e você oitava a voz, vai dar mais peso na música.”
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Já Davi fez a letra pensando na comunidade. Ele diz que os caminhos para vencer por lá são falar de superação, corres do dia a dia e “putaria”. A ostentação ficou para trás porque “ninguém anda de jatinho da quebrada”.
Foi pensando na quebrada que ele enfiou o tênis 12 molas na letra, “muito popular na comunidade” e perfeito para a métrica do refrão. Segundo ele, mirar no público de origem é uma boa estratégia.
“Tem funk que agrada o pessoal que tem dinheiro e tem funk que agrada só a comunidade. O que é mais nítido é você ver funk de comunidade agradando boyzão do que funk de boyzão agradando a comunidade. E a gente sempre vai mirar nosso público da comunidade que foi quem sempre nos recebeu e deu força. E, automaticamente, os boys vão ter que escutar, querendo ou não.”
‘Bipolar’ é polêmica?
A letra é chiclete, é sucesso, mas causou polêmica. Nas redes sociais, até hoje tem comentário falando que a letra pode soar ofensiva e machista. Eles não concordam muito com as críticas.
“É a arte. Tem mulher que ainda manda no meu direct ‘essa música é engraçada’, ‘aconteceu comigo e com meu marido’. Manda foto com o marido dando risada [e diz] ‘nossa, a gente briga direto, mas a gente se ama'”, diz Davi.
900 diz que não se trata do transtorno de bipolaridade. “Na música, é um marido falando pra mulher que ela rasga a roupa dele e depois quer beijar, xinga e depois fala que ama. É essa a bipolaridade, não de doença, no caso.”
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