Beto Villares transita com mais fluência pelas trilhas instrumentais do segundo álbum


Produtor musical apresenta oito inéditas composições autorais em disco, ‘Aqui Deus andou’, que cresce quando prescinde do canto opaco do artista. Capa do álbum ‘Aqui Deus andou’, de Beto Villares
Mari Queiroz / Divulgação
Resenha de álbum
Título: Aqui Deus andou
Artista: Beto Villares
Gravadora: Ambulante Discos / Orb (distribuição digital)
Cotação: * * *
♪ Notabilizado como produtor musical de álbuns de cantoras como Anelis Assumpção e sobretudo Céu, Beto Villares pavimenta lenta carreira como cantor e compositor, impulsionada há quase duas décadas com o lançamento do primeiro álbum, Excelentes lugares bonitos (2003).
Aqui Deus andou – segundo álbum do artista paulistano – aterrissa neste mês de março, em edição digital e (em breve) em CD, 17 anos após o antecessor. São somente oito inéditas músicas autorais – o suficiente para caracterizar Aqui Deus andou como álbum, e não como fugaz EP tão ao gosto atual do mercado.
Por ter tido a descritiva letra escrita em viagem de barco pelo Rio Negro após visita à casa de ribeirinho, em 2013, a canção Casa de caboclo poderia figurar no álbum anterior Excelentes lugares bonitos.
Iluminada na medida permitida pela opacidade do canto de Villares, Abre a casa descortina rara canção sobressalente em repertório valorizado pelo entrosamento dos músicos Gabriel Millet (sax barítono), Gil Duarte (trombone e voz), Maurício Badé (percussão), Mestre Nico (percussão) Samuel Fraga (bateria), Thiago Liguori (guitarra) e Zé Nigro (baixo e voz), coprodutor do álbum, além do próprio Villares (na guitarra, no violão, no piano e/ou no sintetizador).
Zoom pelo zona urbana da cidade de São Paulo (SP), Aqui tudo demora se calca no groove da banda aclimatada na atmosfera do disco. A cidade deserta de emoções é retratada na paisagem solitária que molda Ninguém do lado de lá, faixa que reitera que, na balança do álbum, arranjos e produção musical pesam mais do que as composições em si.
Beto Villares toca violão, guitarra e piano no segundo álbum, ‘Aqui Deus andou’
Mari Queiroz / Divulgação
Único tema inteiramente instrumental do disco, Festa baile cai em aliciante suingue com a adesão de Manoel Cordeiro no manuseio do piano e do sintetizador, evidenciando que o álbum Aqui Deus andou cresce quando prescinde do canto. Com instrumental quebrado somente pelo vocalizado ÔÔÔ do título, ÔÔÔ também se impõe ao misturar reggae e surf music com ecos de ritmos do Norte do Brasil.
Na sequência, valorizada por lancinante solo de guitarra, a canção Minha lua retoma o clima introspectivo do início de disco que se propõe a fazer viagem pelo interior da alma do artista.
Introduzida pelo largo toque do baixo de Zé Nigro, Vagalume ilumina flashes de viagem pelo Pantanal na letra imagética que também poderia figurar no disco anterior Excelentes lugares bonitos. É o fim da rota em tese existencial seguida por Villares no segundo álbum, gravado entre 2015 e 2018, tendo sido mixado e masterizado em 2019.
A excelência da produção musical do álbum Aqui Deus andou confirma o talento notável de Beto Villares na função que lhe deu prestígio no universo pop brasileiro.