‘Bela vingança’ é conto de terror divertido e catártico feito sob medida para a era do ‘Me too’; G1 já viu


Primeiro filme de Emerald Fennell concorre a quatro Globos de Ouro neste domingo (28). Atuação de Carey Mulligan e história atual tornam filme irresistível. Assista ao trailer de “Bela Vingança”
“Bela vingança” é um conto de terror moderno, divertido e hipnotizante e o filme que melhor resume a era do “Me too”. Daqueles que você vai gastar algumas horas pensando sobre – e provavelmente até sonhar com ele. É a aposta ambiciosa da roteirista e diretora Emerald Fennell para seu primeiro longa, que acerta e erra justamente por essa ambição.
Em resumo, sua premissa é uma vingança feminista. Cassie (Carey Mulligan) sai algumas noites disposta a dar uma lição em homens que se acham bonzinhos demais, mas não perdem a oportunidade de tentar se aproveitar de mulheres bêbadas e inconscientes.
Eles aparecem, um atrás do outro, com rostos conhecidos e inofensivos, de Adam Brody (da série “O.C”) a Christopher Mintz-Plasse (“Superbad”).
Carey Mulligan em ‘Bela Vingança’
Divulgação
E essa primeira parte do filme é uma delícia: provoca uma catarse prazerosa na qual você torce para a personagem pegar todos os cretinos nas baladas – e para que exista alguém fazendo exatamente a mesma coisa na sua cidade.
Mas a história perde um pouco da dinâmica no segundo ato, quando as pequenas vinganças noturnas e mundanas da personagem dão lugar a um grande acerto de contas pessoal com o passado.
Essa instabilidade no tom atrapalha, mas não apaga suas qualidades: humor ácido e inteligente, alfinetadas de cinismo sobre uma sociedade hipócrita e um suspense não apelativo.
Carey Mulligan é, sem dúvida, a grande estrela que faz tudo acontecer tão bem. É entrega uma personagem acidamente engraçada, esperta e instável. Também é ela quem segura tudo funcionando quando a história dá indícios de patinar.
A atriz de 35 anos começou a carreira em 2005 e se destacou com personagens secundários, chegando ao auge com seu papel em “Vida Selvagem” (2018). Mas neste filme, ela explode e merece vencer as premiações a que for indicada.
Mulligan funciona muito bem com a maioria dos personagens, principalmente com a chefe interpretada por Laverne Cox, e o insistente par romântico feito por Bo Burnham, cujas origens do stand-up criam um sujeito cativante e desastrado na medida que o filme pede.
Carey Mulligan e Bo Burnham em ‘Bela Vingança’
Divulgação/Focus Feature
O filme conseguiu quatro indicações ao Globo de Ouro 2021: Melhor filme de drama, melhor atriz de drama, melhor direção e roteiro. Veja a lista completa. Com estas, ele soma 132 indicações em festivais e premiações e 58 vitórias.
É o primeiro longa de Emerald Fennell. Até então, ela só havia dirigido um curta, mas é roteirista da excelente “Killing Eve”, além da série “Drifters”. Ela também escreveu três livros.
Emerald Fennell, em foto de janeiro de 2020
Rich Polk/Getty Images North America/Getty Images via AFP/Arquivo
A diretora faz opções colantes e pops com tom de cinismo, como as cores doces e meigas demais que rodeiam a personagem sombria. E músicas pop grudam na cabeça feito chiclete, com versões originais, remixes animados e até arranjos dark de sucessos de Britney Spears, Spice girls, Paris Hilton e Charli XCX.
É um filme muito contemporâneo e ligado aos debates que dominaram o noticiário “feminista” nos Estados Unidos nos últimos anos, rodado, pensado e possível para a era em que as mulheres não apenas exigem seus direitos, mas também justiça e reparação.
E é, enfim, um acerto de contas fictício contra a impunidade que continua a assombrar a sociedade, não importa quantos holofotes estejam sobre ela.
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