BaianaSystem se ilumina sob a latinidade de ‘América do sol’ ao fim da viagem do álbum ‘OxeAxeExu’


Banda reúne nomes como o rapper Rapadura e o repentista Bule-Bule na terceira e última parte do disco produzido com Daniel Ganjaman. Capa do disco ‘América do sol’, da BaianaSystem
Arte de Cartaxo
Resenha de álbum – Ato 3
Título do álbum: OxeAxeExu
Título do terceiro disco: América do Sol
Artista: BaianaSystem
Edição: Máquina de Louco
Cotação: * * * *
♪ A banda BaianaSystem chega ao fim da viagem intercontinental do álbum OxeAxeExu, produzido pelo grupo com Daniel Ganjaman. Pautada pela ancestralidade africana que reverbera na Bahia de todos os santos e ritmos, a rota de OxeAxeExu – iniciada com Navio pirata e continuada com Recital instrumental – culmina na iluminada latinidade de América do sol, último dos três discos que compõem o repertório do quarto álbum de estúdio do grupo soteropolitano.
Com oito faixas que ecoam células rítmicas de salsa, samba-reggae e ijexá, entre outros gêneros musicais latino-americanos, o terceiro disco – ou ato, como caracteriza a banda – está disponível desde ontem, 31 de março, pelo selo Máquina de Louco.
A viagem afro-latina de América do sol se inicia na cadência cubana da guajira, mote de Corneteiro Luís (Russo Passapusso, Seko Bass, Ubiratan Marques e Felipe Brito), música que celebra a valentia de Luís Lopes, corneteiro cujo apito heroico contribuiu decisivamente para a vitória soteropolitana na guerra pela independência da Bahia, travada em novembro de 1822 e conhecida como a Batalha de Pirajá. Bafejada pelos sopros arranjados pelo maestro Ubiratan Marques, Corneteiro Luís traz o músico chileno Pablo Reyes no toque do tres, instrumento cubano de percussão.
Na sequência do disco, Dança de Airumã (Ubiratan Marques, Russo Passapusso, Roberto Barreto e Seko Bass) evolui no passo do ijexá com introdução de sample com o canto dos índios Suruís de Rondônia, extraído do disco Paiter Merewá (1984), da cantora Marlui Miranda.
Faixa produzida pela BaianaSystem com Dudu Marote, A vida é curta para viver depois (Russo Passapusso) é samba-reggae gravado com a adesão vocal de Carolaine, cantora e poeta de Salvador (BA).
Na sequência da rota, Pachamama (Roberto Barreto, Seko Bass e Claudia Manzo) ilumina outros cantos da ensolarada América Latina. Trata-se de tema quase inteiramente instrumental, cortado pela voz da artista chilena Claudia Manzo. Além de tocar cuatro, instrumento tradicional na cultura musical de países como Colômbia e Venezuela, Manzo recita os versos que dão título à faixa, compostos por ela.
A voz de Claudia Manzo também apresenta os versos de Capucha (Seko Bass, Claudia Manzo, Roberto Barreto e Russo Passapusso), faixa em que a BaianaSystem marcha para a revolução com a leveza instrumental que norteia a banda na viagem feita em América do sol. A propósito, Capucha é música batizada com o nome em espanhol do capuz usado por revolucionários da América Latina nas lutas contra a opressão.
Faixa que traz a banda de volta às fronteiras brasileiras, adentrando veredas do grande sertão nacional, Oxe (Russo Passapusso, Roberto Barreto, Bule-Bule e Rapadura) reforça a trincheira baiana com os versos do rapper cearense Rapadura. Repentista e cordelista de atuais 73 anos, guardião das tradições sertanejas da Bahia, Mestre Bule-Bule também figura nessa faixa que mantém a BaianaSystem focada na ancestralidade afro-latina, mote da viagem musical do álbum OxeAxeExu.
Roberto Barreto sobressai no disco com o toque do bandolim e da guitarra baiana na gravação de músicas como ‘Vixe’ e ‘Reza frevo’
Cartaxo
A voz de Bule-Bule permanece no disco em Vixe, parceria do artista com Roberto Barreto. Vixe é repente cuja letra cita heróis da nação nordestina como o guerreiro alagoano Zumbi dos Palmares (1655 – 1695), o sacerdote cearense Cícero Romão Batista (1844 – 1934) – o popular Padim Ciço, na sintaxe popular do devoto povo da região – e o educador pernambucano Paulo Freire (1921 – 1997).
“Tem que ser bom sertanejo / Para entender de sertão / Quem não ama a sua terra / Não pode ser cidadão”, sentencia Bule-Bule na gravação dessa música que cai no suingue da guitarra baiana de Roberto Barreto.
Essa guitarra é amplificada no passo elétrico de Reza frevo (Russo Passpusso, Seko Bass e BNegão), faixa de clima meio espacial – sugerido pelos efeitos criados por Seko Bass para a faixa – que encerra a viagem da BaianaSystem em clima de alegria.
Turbinada com o arsenal de sopros de Thiago França, Reza frevo dialoga com Reza forte (Russo Passapusso, Seko Bass e BNegão), primeira música do primeiro disco do álbum OxeAxeExu, como a se banda reafirmasse que, no fim, está de volta ao começo, à terra-base, à matriz.
Com a coragem de se reinventar neste quarto álbum, como já havia feito no álbum anterior O futuro não demora (2019), a BaianaSystem expande território e – sem fugir à luta cotidiana nas duas cidades que dividem Salvador (BA) – se ilumina sob a latinidade de América do Sol.