Ayrton Montarroyos canta o repertório de João Gilberto com outra bossa em EP gerado em live


Cantor dá voz a sete sambas em interação com o toque do violão de Edmilson Capelupi. Capa do EP ‘Live – João Gilberto e a revolução da bossa nova’, de Ayrton Montarroyos com Edmilson Capelupi
Reprodução
Resenha de EP
Título: Live – João Gilberto e a revolução da Bossa Nova
Artista: Ayrton Montarroyos – com Edmilson Capelupi ao violão
Gravadora: Kuarup
Cotação: * * * *
♪ Ayrton Montarroyos é cantor que, pelo rigor estilístico, sempre sobressai nos heterogêneos elencos dos tributos a ídolos do passado da música brasileira, reverenciados em shows idealizados pelo produtor Thiago Marque Luiz e geralmente transformados em álbuns ao vivo.
Primeiro título de série de discos que compilam números das lives temáticas feitas desde 19 de maio por esse intérprete pernambucano residente na cidade de São Paulo (SP), o EP Live – João Gilberto e a revolução da Bossa Nova é mais uma amostra da perfeição técnica do canto de Ayrton Montarroyos.
Com o toque igualmente preciso do violão de Edmilson Capelupi, o intérprete dá voz a sete sambas gravados por João Gilberto (1931 – 2019), cantor e músico baiano que formalizou a revolução da bossa nova ao sintetizar e depurar no violão a batida do samba.
A seleção do EP de Ayrton Montarroyos reforça a tese, defendida por alguns adeptos da revolução musical de 1958, de que Bossa Nova nada é mais do que samba. No caso, um samba mais cool, reinventado com paradoxal respeito às tradições, com a tal influência do jazz – que nem foi tanta assim, como se supõe… – e com a inovação do canto do soberano João, cuja voz se integrava ao arranjo, gerando um todo harmônico, sustentado pela leveza de ser belo.
Ayrton Montarroyos – evidentemente – jamais reproduz a revolução de João no disco, até porque é intérprete de alma antiga, mais identificado com a aura da música brasileira pré-Bossa Nova e com o legado da posterior MPB do que com a estética do movimento de 1958.
No disco, Ayrton é fiel a si próprio ao cantar com requinte sete sambas, todos interpretados com a mesma temperatura vocal – e, nessa uniformidade interpretativa, reside o único porém desse cantor dono do dom de entender o sentido dos versos a que dá voz.
Em fina sintonia com o toque do violão de Capelupi, de ginga sobressalente já no registro do samba-canção Pra machucar meu coração (Ary Barroso, 1943), o canto de Ayrton consegue imprimir surpreendente leveza no samba-exaltação Bahia com H (Denis Brean, 1947), ode ao estado que também inspirou, em outros sentidos poéticos, Curare (Bororó, 1940) e Eu vim da Bahia (Gilberto Gil, 1965) – outros dois sambas da live selecionados para o repertório do EP.
Por mais virtuosos que sejam, o canto do intérprete e o toque do músico, a “misturação banzeira e inzoneira” das tradições do Brasil – para parafrasear versos dengosos de Curare, samba lançado em disco por Orlando Silva (1915 – 1978), cantor referencial para João Gilberto – nem sempre ganha toda a cor e veneno no disco. Porque é preciso ser João Gilberto para sintetizar somente na voz e no violão todos os tons e cores da aquarela do Brasil.
Natural na revisitação de repertório já tão bem gravado e lapidado, a limitação da palheta de cores na evocação da aquarela de João em nada desmerece Ayrton Montarroyos e Edmilson Capelupi. A sofisticada interação entre cantor e violonista saltam aos ouvidos em Rosa Morena (Dorival Caymmi, 1942) – samba lançado em disco pelo grupo Anjos do Inferno, outra influência que ajudou João a fazer a revolução – e Você esteve com meu bem (João Gilberto e Russo do Pandeiro, 1953).
Esse samba é a boa surpresa do repertório, pois, embora não conste da discografia oficial de João Gilberto, representa no EP a incursão do baiano bossa nova pela arte da composição.
No fim do disco, o registro de Chega de saudade (Antonio Carlos Jobim e Vinicius de Moraes, 1958) soa necessário porque foi com o lançamento da gravação desse samba por João Gilberto, em single editado em agosto de 1958, que a revolução se concretizou para valer, ainda que grandes vozes da era do rádio e mesmo da posterior MPB tenham atravessado gerações sem aderir à revolução celebrada com outra bossa por Ayrton Montarroyos com Edmilson Capelupi neste disco ao vivo.