Ayrton Montarroyos acentua, em EP, mais as sombras do que as luzes da obra de Cartola


Capa do EP ‘Live – Cartola, do samba ao samba-canção’
Divulgação
Resenha de EP
Título: Live – Cartola, do samba ao samba-canção
Artista: Ayrton Montarroyos – com Edmilson Capelupi ao violão
Gravadora: Kuarup
Cotação: * * * *
♪ Abordar o cancioneiro refinado do compositor carioca Angenor de Oliveira (11 de outubro de 1908 – 30 de novembro de 1980), o Cartola, é tarefa desempenhada com capricho por Ayrton Montarroyos no segundo dos dois EPs lançados pelo cantor com compilações de números musicais da série de lives temáticas que vem sendo feitas pelo artista pernambucano desde 19 de maio, sempre na companhia de virtuoso instrumentista.
Músico ainda não devidamente (re)conhecido na medida do grande talento, o violonista Edmilson Capelupi é o músico que divide com Ayrton a interpretação das oito músicas que compõem o repertório do EP Live – Cartola, do samba ao samba-canção.
Tal como no EP em que o cantor dá voz ao repertório de João Gilberto (1931 – 2019), a sintonia entre intérprete e violonista é total – o que valoriza sobretudo o registro de Cordas de aço (1976), ode ao violão companheiro de todas as horas.
Sob o prisma técnico do rigor estilístico, nenhum reparo pode ser feito no disco. Com a voz grave, de timbre aveludado que chega a soar cavernoso no verso final de O mundo é um moinho (1976), Ayrton incursiona com segurança pelo universo melódico e poético de compositor que realmente foi do samba ao samba-canção, gênero das músicas mais aclamadas de Cartola.
Munido dessa voz extremamente afinada, o cantor faz Sala de recepção (1976), sublinha as sombras que enchem Peito vazio (Cartola e Elton Medeiros, 1976) de mágoas e deixa entrever a claridade que ilumina Alvorada (Cartola, Carlos Cachaça e Hermínio Bello de Carvalho, 1968).
O classudo toque seresteiro do violão de Edmilson Capeluli aclimata corretamente o samba-canção O inverno do meu tempo (Cartola e Roberto Nascimento, 1979), samba-canção de tons outonais. Na sequência do disco, o registro de Senões (Cartola e Nuno Veloso, 1979) corrobora a supremacia do samba-canção neste recorte da obra do compositor.
E, no fim, Ayrton não consegue que se “faça a alegria” de Corra e olhe o céu (Cartola e Dalmo Castello, 1974) por ser intérprete mais vocacionado para temas invernais.
Mesmo sem apresentar sequer uma centelha de novidade na abordagem de obra já tão cantada em discos e shows, Ayrton Montarroyos se afina com o tempo de Cartola em EP que acentua mais as sombras do que as luzes do cancioneiro do compositor.