Autora de ‘Pessoas Normais’, irlandesa Sally Rooney recusa lançar novo livro com tradução em hebraico


‘Belo Mundo, Onde Você Está’ não terá, por enquanto, tradução na língua oficial de Israel. Rooney citou ‘apartheid’ e violações de direitos humanos em Israel como motivo. A escritora irlandesa Sally Rooney anunciou, nesta terça-feira (12), que, por enquanto, seu novo livro (no Brasil, “Belo Mundo, Onde Você Está”, Companhia das Letras) não terá tradução em hebraico, a língua oficial de Israel.
Para justificar a decisão, a autora citou, em um comunicado (veja íntegra mais abaixo), relatórios de organizações de direitos humanos que apontam violações de direitos e um “apartheid” no país – semelhante ao sistema de segregação racial que vigorou na África do Sul de 1948 a 1991.
“O movimento Boicote, Desinvestimentos e Sanções (BDS) é uma campanha de base, não violenta e antirracista liderada por palestinos, pedindo um boicote econômico e cultural de empresas e instituições israelenses cúmplices, em resposta ao sistema de apartheid e outras violações graves de direitos humanos. É modelada no boicote econômico e cultural que ajudou a acabar com o apartheid na África do Sul”, afirmou Rooney no texto.
A autora recusou uma proposta de tradução da editora de seus dois livros anteriores em Israel, a Modan. Ela disse que não venderia os direitos para uma editora israelense.
‘Belo Mundo, Onde Você Está’ não terá, por enquanto, tradução em hebraico
Reprodução/Twitter Companhia das Letras
Em um comunicado, ela afirmou que “não sinto que seria certo para mim, sob as atuais circunstâncias, aceitar um novo contrato com uma empresa israelense que não se distancia publicamente do apartheid e apoia os direitos do povo palestino estipulados pelas Nações Unidas”.
A autora disse que “ficou “muito orgulhosa” de ver seus dois primeiros livros publicados em hebraico e que “seria uma honra” ver o mesmo acontecer com o terceiro.
Os direitos de tradução de “Belo Mundo, Onde Você Está” para o hebraico ainda estão à venda. Rooney afirmou que, se puder encontrar ” uma forma de vender esses direitos que seja compatível com as diretrizes institucionais de boicote do BDS, eu ficarei muito satisfeita e orgulhosa de fazer isso”.
Boicote
Em maio, a escritora assinou “Uma Carta Contra o Apartheid”, que pedia “uma cessação imediata e incondicional da violência israelense contra os palestinos”, e pediu a governos que “cortassem as relações comerciais, econômicas e culturais” com Israel.
A irlandesa também é autora de “Conversas Entre Amigos” e “Pessoas Normais”, ambos lançados no Brasil pela Companhia das Letras. “Pessoas Normais” já foi traduzido para 46 idiomas.
Rooney não é a primeira a recusar uma tradução para o hebraico por motivos políticos. Alice Walker, autora de “A Cor Púrpura”, vencedor do Pulitzer em 1983, recusou-se a autorizar uma tradução para o hebraico de seu romance, em 2012, por causa do que chamou de “estado de apartheid de Israel”.
Veja a íntegra do comunicado da autora:
“Primeiramente, eu fiquei muito orgulhosa de ver meus primeiros dois livros traduzidos para o hebraico por Katyah Benovits. Gostaria de agradecer a todos envolvidos na publicação desses livros por apoiar o meu trabalho. Da mesma forma, seria uma honra para mim ter meu último romance traduzido para o hebraico e disponível para leitores da língua hebraica. Mas, por enquanto, eu escolhi não vender esses direitos de tradução para uma editora sediada em Israel.
Mais cedo este ano, o grupo de campanha internacional Human Rights Watch publicou um relatório chamado ‘Um limiar ultrapassado: autoridades israelenses e os crimes de apartheid e perseguição’. Esse relatório, que veio logo depois de um relatório condenatório de forma semelhante da organização de direitos humanos mais proeminente de Israel, B’Tselem, confirmou o que grupos de direitos humanos palestinos vêm dizendo há muito tempo: o sistema de Israel de dominação racial e de segregação contra palestinos atende a definição de apartheid sob lei internacional.
O movimento Boicote, Desinvestimentos e Sanções (BDS) [“Boycott, Divestment and Sanctions” em inglês] é uma campanha de base, não violenta e antirracista liderada por palestinos, pedindo um boicote econômico e cultural de empresas e instituições israelenses cúmplices, em resposta ao sistema de apartheid e outras violações graves de direitos humanos. É modelada no boicote econômico e cultural que ajudou a acabar com o apartheid na África do Sul.
Claro que muitos Estados além de Israel são culpados de abusos graves de direitos humanos. Isso também foi verdade sobre a África do Sul durante a campanha contra o apartheid lá. Neste caso em particular [de Israel], eu estou respondendo a um chamado da sociedade civil palestina, incluindo todos os maiores sindicatos de comércio e escritores palestinos.
Eu entendo que nem todo mundo vai concordar com a minha decisão, mas eu simplesmente não sinto que seria certo para mim, sob as atuais circunstâncias, aceitar um novo contrato com uma empresa israelense que não se distancia publicamente do apartheid e apoia os direitos do povo palestino estipulados pelas Nações Unidas.
Os direitos de tradução do meu novo livro para o hebraico ainda estão disponíveis, e se eu puder achar uma forma de vender esses direitos que seja compatível com as diretrizes institucionais de boicote do BDS, eu ficarei muito satisfeita e orgulhosa de fazer isso. Nesse meio-tempo, eu gostaria de expressar, mais uma vez, minha solidariedade com o povo palestino em sua luta por liberdade, justiça e igualdade. Obrigada.“