Aos 80 anos, Tia Surica celebra o centenário do compositor Manacéa em álbum com a nobreza do samba


Pastora da Velha Guarda da Portela reúne 12 músicas do autor de ‘Quantas lágrimas’ no disco ‘Conforme eu sou’, produzido por Paulão Sete Cordas. Capa do álbum ‘Conforme eu sou’, de Tia Surica
Acervo pessoal de Tia Surica
Resenha de álbum
Título: Conforme eu sou
Artista: Tia Surica
Edição: Edição independente da artista
Cotação: * * * * 1/2
♪ Assim como a própria vida de Iranette Ferreira Barcellos, cidadã carioca que veio ao mundo em 17 de novembro de 1940, o álbum Conforme eu sou é declaração do amor da artista à Portela, uma das mais tradicionais escolas de samba do Carnaval do Rio de Janeiro.
Nem poderia ser diferente, porque, para quem não liga o nome à pessoa, Iranette é a popular Tia Surica, a pastora do grupo Velha Guarda da Portela, famosa no mundo do samba pelas iguarias musicais e gastronômicas.
Aos 80 anos, a artista dá continuidade com o álbum Conforme eu sou à espaçada discografia solo, iniciada tardiamente em 2003 com a edição do álbum intitulado Surica e continuada, uma década depois, com o registro de show Tia Surica ao vivo na Portela (2013).
Gravado em estúdio, entre fevereiro e março, com direção musical e arranjos do produtor e violonista Paulão Sete Cordas, o álbum Conforme eu sou exalta a Portela através da nobreza lírica do cancioneiro do compositor Manacéa José de Andrade (26 de agosto de 1921 – 10 de novembro de 2021), cujo centenário de nascimento é festejado neste ano de 2021.
Compositor desde os 18 anos, Manacéa criou sambas-enredo para a Portela a partir da segunda metade da década de 1940 e, em 1957, teve o primeiro samba registrado em disco, Minha querida, parceria com Francisco Santana (1911 – 1988), bamba portelense conhecido como Chico Santana. Desde então, Manacéa pavimentou obra que ganhou projeção, além dos redutos do samba, a partir dos anos 1970. Obra honrada por Surica no álbum Conforme eu sou.
Sábio, o produtor musical do disco, Paulão Sete Cordas, arregimentou músicos que dominam a linguagem do samba – virtuoses do naipe de Rogério Caetano (violão de sete cordas), Paulino Dias (percussão), Luis Barcelos (bandolim e cavaco), Rodrigo Reis (percussão), Léo Rodrigues (pandeiro) e Waltis Zacarias (surdo e cuíca), além do próprio Paulão nos violões de seis e sete cordas – para armar cama confortável para Surica dar voz a 12 músicas de autoria de Manacéa, compositor que levou a pastora para a Velha Guarda da Portela.
Aberto com a gravação de Conselho de mamãe, samba escolhido para primeiro single do álbum e já abordado por Cristina Buraque em disco editado em 2007, o tributo de Surica a Manácea lustra joias do alto quilate de Sempre teu amor (1963), Manhã brasileira (1977) e A natureza (1983), exemplos grandiosos da sintonia entre as melodias e letras do cancioneiro do compositor.
Guardiã das tradições desse samba mais nobre, em especial do baú portelense, Cristina Buarque sola Inesquecível amor (1991) em participação natural e justificada pelo fato de ter sido, com gravação de 1974, a principal propagadora do samba mais conhecido da obra de Manacéa, Quantas lágrimas (1970), música obviamente incluída no repertório do disco de Surica.
Tia Surica no estúdio com Paulão Sete Cordas, produtor musical do álbum ‘Conforme eu sou’
Divulgação
Na seleção do álbum Conforme eu sou, Manacéa assina sozinho 11 dos 12 sambas. A exceção é Volta, meu amor, parceria do compositor com a filha Áurea Maria, fruto da união de Manacéa com Dona Neném (1925 – 2020), figura ilustre da família portelense a quem Surica dedica o disco.
Samba apresentado em disco na voz da cantora Sônia Lemos, em single de 1977, Volta, meu amor ganhou projeção em 2003 quando reapareceu em álbum da Velha Guarda da Portela, Tudo azul, em gravação feita pelo grupo com Marisa Monte, produtora do disco, de cujo repertório Surica também revive Nascer e florescer (2000).
No álbum de Surica, há outro samba menos imponente de temática similar, Volta, já cantado em shows por Monarco com a mesma Marisa Monte.
Com a voz maturada pelos 80 anos de vida, Surica jamais atravessa o samba. A pastora canta Manacéa com a sabedoria de quem traz no D.N.A. portelense a vocação natural para interpretar composições como o samba-canção Quando quiseres (1977), outra música lançada em disco na voz de Sônia Lemos, mas também já abordada pela recorrente Cristina Buarque.
Perto do fim do disco, Flor do interior (1986) desabrocha em gravação que une Surica à Velha Guarda da Portela, intérprete original desse samba que chora a precoce saída de cena de Clara Nunes (1942 – 1983), cantora mineira que se tornou, a partir dos anos 1970, uma das vozes e símbolos mais perenes da Portela.
Na faixa seguinte, no encerramento do disco, os bambas veteranos da agremiação azul e branca reaparecem para puxar Carro de boi (1977), samba assentado em terreiro rural e apresentado em disco em 1977 pela atenta cantora mangueirense Beth Carvalho (1946 – 2019).
Terceiro título da discografia solo de Surica, o álbum Conforme eu sou faz crer que, após período sombrio, a manhã brasileira há de resplandecer com o brilho de bambas nacionais como Manacéa e a cidadã Iranette Ferreira Barcellos, a querida Tia Surica.