Aos 80 anos, Sergio Mendes tem história documentada em tom de louvação


Falado em inglês, o filme de John Scheinfield glorifica o pianista e arranjador fluminense que conquistou o mundo na década de 1960 ao traduzir a bossa do Brasil para os Estados Unidos Cartaz do filme ‘Sergio Mendes in the key of joy’
Reprodução
Resenha de documentário
Título: Sergio Mendes in the key of joy – Sergio Mendes no tom da alegria
Direção e roteiro: John Scheinfield
Produção: HBO
Cotação: * * * 1/2
♪ Filme disponível no Brasil na plataforma de streaming HBO GO
♪ Para tirar o máximo proveito do documentário Sergio Mendes no tom da alegria, disponível no Brasil na plataforma de streaming HBO GO desde sábado, 24 de abril, é preciso entender que o filme de John Scheinfield tem o aval desse pianista, arranjador e compositor fluminense que, nos anos 1960, conquistou os Estados Unidos – e, por consequência, todo o universo pop – ao traduzir a bossa do Brasil para o idioma musical norte-americano.
O diretor e roteirista John Scheinfield documenta a história de Mendes em tom de louvação. É o próprio Sergio Mendes quem conduz a narrativa com entrevistas intercaladas por imagens de arquivo e com depoimentos de personagens importantes nessa história contada primordialmente sob o prisma do artista.
Feita a ressalva, é justo ressaltar que, mesmo soando chapa branca, o filme documenta com eficiência a trajetória improvável de Mendes, que recorre várias vezes à palavra serendipidade ao rememorar os caminhos por vezes casuais que o conduziram a ascensão planetária aplaudida em coro no filme por admiradores do som do músico como Quincy Jones e John Legend.
“Ele é um tradutor. Ele traduziu o que estava acontecendo no Brasil e entregou ao mundo”, sintetiza will.i.am, rapper que se uniu a Mendes no álbum de 2006, Timeless, que repôs o pianista em evidência após anos de ostracismo fonográfico.
Entre elogios hiperbólicos e presumivelmente sinceros ao artista, o documentário Sergio Mendes no tom da alegria exibe, pelas frestas da louvação, imagens que valem mais do que as palavras-clichês. Os olhos marejados de Carlinhos Brown ao reencontrar Mendes – com quem colaborou em outro álbum decisivo da carreira do pianista, Brasileiro (1992) – dizem muito.
Fora do tom da louvação, a entrada em cena do ator norte-americano Harrison Ford é momento curioso por trazer à tona a história de que, no início da carreira, Ford se equilibrava entre o investimento nas artes dramáticas e o exercício pragmático do ofício de carpinteiro, o que fez o destino (acaso?) o levar a construir o estúdio erguido por Mendes na casa em que o pianista vivia em Los Angeles (EUA) e que foi destruída em terremoto em 1994.
Também soa curiosa a surpreendentemente harmoniosa tabelinha feita com Pelé em estúdio, para o filme, para reapresentar a música Meu mundo é uma bola (1977) com o ex-jogador de futebol e com a vocalista Gracinha Leporace – reminiscência da participação de Mendes como produtor musical e arranjador do álbum com a trilha sonora do documentário Pelé (1977).
Em que pesem essas cenas inusitadas, a trajetória profissional de Sergio Mendes é interessante o suficiente para sustentar documentário, mesmo autorizado, de uma hora e 40 minutos.
Sergio Mendes volta à cidade natal, Niterói (RJ), em cena do documentário
Katsunari Kawai / Divulgação
Aos 80 anos, o pianista – nascido em 11 de fevereiro de 1941, na cidade fluminense de Niterói (RJ) e residente há anos em Los Angeles (EUA) – talvez não tivesse se dedicado tanto ao estudo do instrumento que lhe deu fama mundial se não tivesse enfrentando na infância uma osteomielite nas pernas. Mendes se curou, mas, para evitar recaídas, foi obrigado a levar vida mais caseira em rotina pautada pelos estudos de piano.
A habilidade para tocar o instrumento lhe rendeu a primeira oportunidade profissional como pianista de banda atuante nos bailes de Niterói (RJ), cidade natal que o artista revisita no documentário falado em inglês e estreado em janeiro de 2020 nos Estados Unidos no rastro do lançamento, dois meses antes, do álbum também intitulado Sergio Mendes in the key of joy (2019).
De Niterói (RJ), Mendes pegou a barca que, no alvorecer dos anos 1960, o conduziu às boates cariocas do então efervescente bairro de Copacabana, um dos berços do samba-jazz derivado da bossa nova. Com ascensão meteórica, Mendes já integrou em 1962 o elenco do lendário show do Carnegie Hall que apresentou oficialmente a bossa nova aos Estados Unidos, a partir de Nova York (EUA).
Mendes foi aos EUA, voltou ao Brasil, mas depois retornou e ficou por lá a partir de 1964. Ao se apropriar da bossa brasileira para criar som agradável aos ouvidos norte-americanos, Mendes se consagrou em 1966 ano em que, contratado pela A&M Records, gravadora fundada por Herb Alpert (cujo depoimento é ouvido no filme), estourou com versão de Mas que nada (Jorge Ben Jor, 1962).
Foi o início do reinado de Mendes com o Brasil’ 66, conjunto que tinha na voz suave de Lani Hall uma das marcas. Aliás, a saída repentina da vocalista do conjunto por vontade própria – motivo de mágoa alardeada pela cantora no depoimento, mas minimizada por Mendes ao tocar no assunto – abriu espaço para entrada de Gracinha Leporace no grupo e no coração do pianista, com quem a cantora se casaria nos anos 1970 em união afetiva e musical que perdura até hoje.
Ainda com Lani Hall, mas já com Gracinha em uma das faixas, o álbum Fool on the hill estourou em 1968 e mostrou que Mendes já sabia imprimir a bossa do Brasil’ 66 em músicas criadas fora do Brasil – no caso de The fool on the hill, em canção lançada pelos Beatles em 1967.
Essa proeza, a rigor, já havia sido feita pelo artista com a gravação da então recente canção The look of love (Burt Bacharach e Hal David, 1967) no álbum Look around (1967).
Sergio Mendes atravessou os anos 1970 sem repetir o sucesso da década anterior, mas voltou a ficar sob os holofotes mundiais em 1983, ano em que, como conta no filme de John Scheinfield, já tinha finalizado álbum de acabamento mais pop, mas reabriu o disco para incluir aliciante balada, Never gonna let you go (Barry Mann e Cynthia Well), que lhe chegara aos ouvidos na voz de Joe Pizzulo, cantor norte-americano de ascendência italiana. Gravada pelo pianista com a voz de Pizzulo, a balada virtou hit planetário e alavancou o álbum Sergio Mendes (1983).
Mesmo que, a partir de 1983, Mendes tenha alcançado somente sucessos eventuais de relevo no mercado fonográfico, com os já mencionados álbuns Brasileiro (1992) e Timeless (2006), o artista continuou a correr o mundo com a bossa pop que criou nos anos 1960.
O documentário encerra a trajetória na apresentação do pianista no Rock in Rio de 2017, após ter carimbado a imagem profissional de Mendes com o rótulo de perfeccionista.
A alegria, no caso, parece residir tanto na música como na vida, também saboreada em mesas de restaurantes sofisticados entre taças de vinhos e pratos de frutos do mar. O mar que, a partir das águas fluminenses da Baía de Guanabara, levou a bossa de Sergio Mendes para o mundo.