Aos 80 anos, Ney Matogrosso prova ainda ser um senhor cantor em EP que sintetiza a ideologia do artista


Registro em espanhol da balada cubana ‘Unicornio’ sobressai no lote de gravações do disco ‘Nu com a minha música’. Capa do EP ‘Nu com a minha música’, de Ney Matogrosso
Leo Aversa
Resenha de EP
Título: Nu com a minha música
Artista: Ney Matogrosso
Edição: Sony Music
Cotação: * * * *
♪ ESPECIAL NEY MATOGROSSO 80 ANOS – Sim, aos 80 anos, a lâmina vocal de Ney Matogrosso pode até soar (um pouco) menos afiada e luminosa do que em épocas e discos passados, pelo desgaste natural do tempo. Nem por isso Ney de Souza Pereira deixa de se provar novamente um senhor cantor no EP Nu com a minha música, disco lançado neste domingo, 1º de agosto de 2021, dia do 80º aniversário desse singular artista nascido em 1941 em Bela Vista (MS).
O EP adianta quatro das 12 faixas do álbum também intitulado Nu com a minha música e previsto para ser lançado em novembro pela gravadora Sony Music. As quatro gravações sintetizam as intenções e a ideologia do artista ao longo de trajetória iniciada nos anos 1970.
Canção estradeira de autoria de Caetano Veloso, lançada há 40 anos, a música-título Nu com a minha música (1981) segue por trilhas nacionais com verso otimista que soa como alento para o país em 2021 – “Vejo uma trilha clara pro meu Brasil, apesar da dor” – e com o suingue e o sangue latino de Ney Matogrosso.
O suingue jorra na faixa pelas cordas do bouzouki (instrumento de origem turca, muito popular no universo folk) tocado por Marc Kakon e sobretudo pela percussão bem marcada por Joca Perpignan no arranjo criado pelo violonista (de sete cordas) Marcello Gonçalves.
Também em trilha latina, mas em outra latitude, a gravação da balada Unicornio (1982) destila lirismo em versos com alusões cifradas a um amor entre homens. Um dos símbolos do imaginário gay, o unicórnio teria servido de inspiração para o cantor compositor cubano Silvio Rodríguez versar sobre amor e erotismo masculino, assunto proibido no país comandado com mão de ferro por Fidel Castro (1926 – 1986) em 1982, ano em que Silvio Rodríguez apresentou a balada em álbum também intitulado Unicornio.
No belo registro de Ney, que conheceu a canção em show feito por Rodríguez com o conterrâneo Pablo Milanés no Brasil em meados dos anos 1980, Unicornio ressurge em arranjo de piano e violoncelo criado pelo tecladista Sacha Ambach para a música cantada em espanhol em interpretação que se afina com o fato de Ney Matogrosso ter se tornado – ainda que a contragosto – um ícone de resistência do universo gay brasileiro.
Na sequência do EP Nu com a minha música, a gravação de Se não for amor, eu cegue (Lenine e Lula Queiroga, 2011) tinge a música com as cores vivas do canto de Ney em arranjo criado por Ricardo Silveira com os toques do baixo de Liminha, da percussão de Zero, da bateria de Claudio Infante e do piano de Renato Neto. O canto valoriza a música e reitera a impetuosidade do intérprete, sempre atento aos sinais de cada canção.
No fecho do EP Nu com a minha música, Gita (Raul Seixas e Paulo Coelho, 1974) se revela a faixa menos brilhante do lote do disco porque, apesar da exuberância do arranjo de cordas e sopros orquestrados pelo pianista Leandro Braga, Ney nada acrescenta a uma música já tão batida e já merecedora de registro intenso de Maria Bethânia (em 1975), além da épica gravação original de Raul Seixas (1945 – 1989).
Mesmo quando nada faz por uma música (caso raro, diga-se), Ney Matogrosso é um senhor cantor que pulsa no EP Nu com a minha música com vitalidade que desmente os 80 anos completados hoje.