Alceu Valença expõe as cores vivas da paixão nos tons outonais do álbum ‘Sem pensar no amanhã’


O primeiro disco do artista no formato de voz e violão tem surpreendente unidade pela costura do antigo repertório autoral. Capa do álbum ‘Sem pensar no amanhã’, de Alceu Valença
Leo Aversa
Resenha de álbum
Título: Sem pensar no amanhã
Artista: Alceu Valença
Edição: Deck
Cotação: * * * *
♪ A voz de Alceu Valença soa macia como uma tarde de domingo azul no registro de La belle de jour (1992) que abre o primeiro álbum do cantor no formato de voz e violão.
Disco gravado com produção musical de Rafael Ramos, Sem pensar no amanhã desembarca nos players digitais na sexta-feira, 12 de março, bem antes da edição em CD prevista no contrato do artista com a gravadora Deck.
É o primeiro álbum de trilogia feita em formato em tese inadequado a um artista que parece sempre plugado em tomada de alta voltagem. Contudo, o cancioneiro do compositor resiste à diluição da eletricidade pela beleza das melodias e das imagens poéticas das letras.
A brandura dos tons jamais tira a vivacidade das cores usadas pelo artista no quadro romântico pintado em Estação da luz (1985), por exemplo, em gravação que combina com os tons da Ciranda da rosa vermelha (1997).
O colorido do romantismo psicodélico de Mensageira dos anjos (1974) também brilha nesse álbum acústico gravado – juntamente com os outros dois discos da trilogia – de novembro a janeiro no estúdio Tambor, no Rio de Janeiro (RJ), cidade onde reside o artista de origem e alma pernambucanas.
É da paisagem carioca que o cantor apaixonado puxa da memória um amor de Carnaval vivido entre as ladeiras de Olinda (PE) e retratado no inédito samba que dá nome ao disco, Sem pensar no amanhã.
Única música inédita do repertório do álbum Sem pensar no amanhã, o enamorado samba folião dialoga harmoniosamente com o frevo-canção Beija-flor apaixonado (2014).
Alceu Valença exalta as mulheres e a cidade de Olinda no cancioneiro do álbum ‘Sem pensar no amanhã’
Leo Aversa / Divulgação
A propósito, a costura inteligente do cancioneiro antigo – apresentado originalmente em discos lançados em período de 40 anos que vai 1974 a 2014 – valoriza o álbum Sem pensar no amanhã e o impede de cair na vala comum dos projetos acústicos banais e burocráticos.
As afinidades rítmicas e/ou poéticas entre músicas como o frevo Chego já (1982) e Pirata José (2002) resultam naturais, como se as onze composições tivessem sido pensadas para disco conceitual. No caso, um álbum centrado na exaltação lírica da paixão pelas mulheres e também pela cidade de Olinda (PE), epicentro do mapa romântico do artista.
Em essência, Alceu Valença canta as cores do amor em músicas com Íris (1987) e – já perto dos 75 anos, a serem festejados em 1º de julho – se ambienta bem nos tons outonais da voz que soa mais amena em Marim dos Caetés (1983).
Até quando pega mais uma vez Táxi lunar (Alceu Valença, Geraldo Azevedo e Zé Ramalho, 1977) – em corrida que acelera no fim, evidenciando o domínio do músico no toque do violão – nada é do jeito que já foi um dia. Mas tudo soa novo de novo, entre os graves e os quase sussurros do canto do artista na faixa.
O álbum Sem pensar no amanhã escapa da sina de ser mero disco de covers para ganhar tempo e dinheiro porque há surpreendente unidade no mosaico de canções feitas por Alceu Valença com as cores vivas da paixão, ora expostas com a maciez da tarde de um domingo azul.