Álbum marcante de Gal Costa, ‘Fa-Tal’ ainda soa preciso em 2021, 50 anos após a edição do LP duplo de 1971


♪ MEMÓRIA – Título mais marcante da discografia de Gal Costa, o originalmente duplo álbum Fa-Tal – Gal a todo vapor é o registro sem filtros de show carioca de 1971 que consolidou a cantora baiana como a voz da contracultura brasileira, a musa de verão engajado e de público que cultuava o desbunde enquanto respirava pelas frestas de ditadura que asfixiava as liberdades de expressão por meio do Ato Institucional nº 5, decretado em 13 de dezembro de 1968.
Lançado três anos depois do AI-5, em dezembro de 1971, em formato de LP duplo com capa que se abria para a exposição de poemas e palavras de ordem de Waly Salomão (1943 – 2003), o álbum Fa-Tal – Gal a todo vapor foi facho de luz na escuridão do Brasil de 1971 e, por isso, ainda faz sentido e soa preciso em 2021, 50 anos após o lançamento.
Poeta, compositor e agitador cultural, o efervescente Waly foi o diretor do show estreado em 8 de outubro de 1971 no Teatro Tereza Raquel, point badalado da zona sul da cidade do Rio de Janeiro (RJ), e captado no meio da cultuada temporada – que se estenderia, com pequenos intervalos, até fevereiro de 1972 – pela gravadora Philips sob a batuta de Roberto Menescal.
Então diretor artístico da companhia fonográfica que concentrava as maiores estrelas da MPB no alvorecer dos anos 1970, Menescal percebeu a dimensão política do show e bancou a edição do LP duplo, formato então ainda raro na discografia brasileira.
Intitulado Gal a todo vapor (o Fa-Tal foi incorporado ao nome do disco, sendo título de um dos poemas incluídos no então ainda inédito livro Me segura q’eu vou dar um troço, editado por Waly em 1972), o show foi consequência natural da transformação da cantora na porta-voz dos anseios da turma tropicalista que se sentiu sem liderança com a partida de Caetano Veloso e Gilberto Gil para exílio forçado na Europa a partir de janeiro de 1969.
Sem os dois amigos por perto, Gal se aproximou de Jards Macalé e do guitarrista Lanny Gordin em relação profissional estreitada em 1970, ano do álbum Legal – gravado com arranjos de Lanny e Macalé – e de shows incisivos feitos sob a direção musical de Macalé, com destaque para Deixa sangrar (1970), show produzido na época em que a cantora tinha como empresário Paulinho Lima, creditado como assistente de produção na ficha técnica original do álbum Fa-Tal.
No show Gal todo a vapor, a direção musical ficou a cargo de Lanny Gordin, que ocupou a função que, nos shows anteriores de Gal, vinha sendo assumida até então por Macalé. Lanny também era o guitarrista da banda formada para o show de 1971 com Jorginho Gomes na bateria e Novelli no baixo, além de Gal no toque do violão encarado pela artista na acústica primeira parte do roteiro.
Irmão de Jorginho, o novo baiano Pepeu Gomes substituiu Lanny no meio da temporada do show. A propósito, a gravação ao vivo perpetuada no disco teve o toque da guitarra de Pepeu em cinco das 17 músicas do repertório costurado com engenhosidade no roteiro que, no registro fonográfico, totalizou precisos coesos 67 minutos e 45 segundos.
Com arte gráfica que expunha na capa externa e nas capas internas a alta carga erótica e política do show no design criado por Luciano Figueiredo e Oscar Ramos a partir de fotos de Edison Santos e do cineasta Ivan Cardoso, o LP duplo seguiu a ordem do roteiro do show. E, para que se compreenda toda a dimensão sócio-política do show e do disco, o ideal é seguir o roteiro tal como ele foi estruturado por Waly.
“Eu sou a chuva que móia / Que refresca bem / Eu sou o balanço do trem / Carreira de Tróia”, se perfilou Gal através dos versos de Fruta gogoia, tema do folclore baiano entoado a capella pela cantora na abertura do show – tema, aliás, repetido no meio do disco para demarcar o início da parte eletrificada do roteiro com direito a um ruído que provocou risos na plateia e comentário resignado de Gal (“Acontece…”), ambos preservados no disco, editado em retoques.
Embora tivesse enfatizado, após entoar o refrão de Charles Anjo 45 (Jorge Ben Jor, 1969), que tudo ia mal, ao cantar Como 2 e 2 (1971), música de Caetano Veloso apresentada por Gal no show dois meses antes de o Brasil conhecer a composição na gravação de Roberto Carlos para álbum editado em dezembro daquele ano, a cantora ainda reverberou no início de Fa-Tal a doce Gracinha devota de João Gilberto (1931 – 2019) desde os tempos da Bahia e eternizada no álbum Domingo (1967), gravado com Caetano Veloso há então breves quatro anos.
Diz a lenda, aliás, que João teria assistido ao show Gal a todo vapor algumas vezes, da coxia. Se isso de fato aconteceu, João deve ter reconhecido a influência decisiva dele nas interpretações da canção Coração vagabundo (Caetano Veloso, 1967), do samba Falsa baiana (Geraldo Pereira, 1944) – em cujo suingue Gal caía com aliciante suavidade – e até mesmo no canto solidário do samba-canção Antonico (Ismael Silva, 1950).
Mesmo em tom ameno, o canto da balada Sua estupidez (Roberto Carlos e Erasmo Carlos, 1969) – feito com tristeza interiorizada que embutia lamento pungente – soou como transição para a segunda metade do show.
A partir de Vapor barato (Jards Macalé e Waly Salomão, 1971), hino geracional que Gal havia apresentado em single editado sem repercussão no primeiro semestre daquele ano de 1971, a temperatura esquentou e o show soou como grito literal de liberdade e resiliência que se espalhou pelo ar abafado do Teatro Teresa Raquel (consta que a plateia suava não somente pelo calor da voz cristalina da cantora…).
À medida que a banda entrava em cena ao longo de Vapor barato, Gal fazia reverberar a cantora roqueira, blueseira, janisjopliana, que havia irrompido em festival de 1968 e reverberado em discos de 1969.
Dê um rolê (Moraes Moreira e Luiz Galvão, 1971) e Pérola negra (1971) – diamante verdadeiro que apresentou ao Brasil a obra do então desconhecido compositor carioca Luiz Melodia (1951 – 2017) – deram sequência a esse clímax roqueiro, apoteótico, do espetáculo.
Tanto que Vapor barato, Dê um rolê e Pérola negra formaram o tripé fundamental de músicas a partir de então para sempre associadas ao show e disco Fa-Tal – Gal a todo vapor.
Música então inédita de Jards Macalé e Waly Salomão, Mal secreto (1971) deixou claro que Gal se recusava a ficar calada, parada e quieta diante do que acontecia nos porões fétidos da ditadura.
Munida do lirismo, da indignação e da atitude desse repertório incisivo, que herdava Hotel das estrelas (Jards Macalé e Duda Machado, 1970) do disco anterior Legal, a cantora usou a voz como arma de efeito potencializado pelas guitarras pontiagudas de Lanny e do discípulo Pepeu. Não por acaso, a arte da contracapa trazia as palavras “Boca. Microfone. Mão. Violão” grafadas ao alto.
Os tempos eram de guerra. Tudo em volta podia ser somente beleza, se a visão fosse superficial e cômoda, mas Gal, não vendo a luz, cantou a dor de Assum preto (Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira, 1950) e voltou a Como 2 e 2 para enfatizar que tudo ia mal, mandou o recado do exilado Caetano em Maria Bethânia (1971), recorreu novamente ao folclore baiano no balanço tropical de Bota a mão nas cadeiras – “Bota a mão nas cadeiras, menina / Faça o favor de mexer” – e desbundou ao seguir com vigor o bloco da marcha-frevo Chuva, suor e cerveja (Caetano Veloso, 1971).
“Quero ver de novo a luz do sol”, bradou Gal, imperativa, no pulso roqueiro de Luz do sol (Carlos Pinto e Waly Salomão, 1971), reforçando, no arremate do roteiro, a mensagem política desse show emblemático filmado pelo cineasta Leon Hirszman (1937 – 1987), mas nunca documentado em VHS ou DVD.
Felizmente, há o álbum Fa-Tal – Gal a todo vapor, retrato luminoso da arte do Brasil na idade das trevas. Decorridos 50 anos do lançamento do disco, a luz de Fa-Tal ainda ofusca o obscurantismo que, insidioso, tenta em vão se impor em 2021.