Álbum londrino de Gilberto Gil conserva frescor, após 50 anos, pela energia da ‘máquina de ritmo’ do artista


Disco de 1971 é calcado no violão tocado pelo músico baiano, então exilado na capital da Inglaterra. ♪ MEMÓRIA – É impossível dissociar o álbum londrino de Gilberto Gil do disco gravado por Caetano Veloso na mesma Inglaterra, no mesmo ano de 1971 e com o mesmo produtor musical britânico, Ralph Mace.
Executivo da indústria fonográfica que havia deixado recentemente a Philips, gravadora da qual os artistas brasileiros eram contratados, Mace orquestrou a gravação do álbum Gilberto Gil no início de 1971 no Chappell’s Studios, em Londres.
Orquestrar, no caso, foi permitir que Gil desse o devido protagonismo ao próprio violão, elétrica máquina de ritmo que se mostrou em perfeito estado na gravação do quarto álbum de estúdio da discografia do cantor, compositor e músico baiano.
Não por acaso, na foto da capa do LP, clicada por Johnny Clamp, Gil apareceu com o violão em primeiro plano.
Ainda que o álbum tenha o toque do baixo de Chris Bonnet e a percussão do próprio Gil, o violão foi o fio condutor dos arranjos das oito músicas em inglês a que Gil deu voz no álbum lançado originalmente na Inglaterra pelo selo britânico Famous / GW, de Ralph Mace, e editado no Brasil via Philips naquele mesmo ano de 1971.
Seis músicas eram inéditas e de autoria do compositor baiano, sendo que três – Babylon, Crazy pop rock e The three mushrooms – tinham sido feitas em parceria com Jorge Mautner, multimídia artista carioca que começara relação musical com Gil e com Caetano Veloso em Londres, no alvorecer da década de 1970.
As duas regravações do álbum Gilberto Gil eram Volkswagen blues – música do próprio Gil, apresentada pelo autor em disco de 1969 e rebobinada no LP londrino com arranjo mais minimalista, calcado no recorrente violão – e Can’t find my way home (1969), música de Stevie Winwood lançada dois anos antes pelo supergrupo britânico Blind Faith.
A safra autoral de Gil foi valorizada pela arquitetura dos arranjos. Se Mamma soou como balada cheia de ternura, a maioria das oito faixas do álbum Gilberto Gil expôs a eletricidade que saía tanto do toque do violão do (grande) músico quanto do canto do artista.
A forte corrente de eletricidade ficou evidenciada sobretudo no hendrixiano Crazy pop rock e no samba-rock-blues Nega (Photograph blues), as duas músicas mais conhecidas de repertório em que Gil explicitou influências do rock e do blues que absorveu no exílio em Londres.
Essa energia faz com que o álbum Gilberto Gil soe interessante e cheio de frescor 50 anos após o lançamento.
Se o álbum londrino de Caetano Veloso soou melancólico, em sintonia com o estado d’alma do artista na época, o disco em inglês de Gil se revelou mais expansivo, psicodélico, impregnado da eletricidade das ruas de Londres – um dos epicentros do universo pop – sem ecoar explicitamente a estética da Tropicália, movimento do qual Gil tinha sido o principal arquiteto na área musical ao lado de Caetano.
Em essência, o álbum Gilberto Gil foi o resultado da interação do artista baiano com músicos ingleses e reverberou na discografia posterior do cantor.
One o’clock last morning, 20th april 1970 tinha a célula rítmica do samba-rock e toque jam que refletiu a efervescência de Londres no início da década de 1970. Faixa de cinco minutos e meio, The three mushrooms se insinuou como balada, mas caiu na pisada do baião à medida que evoluiu com certa aura psicodélica.
Grande faixa do disco, Crazy pop rock se escorou na energia da guitarra elétrica, instrumento que os tropicalistas haviam incorporado à música brasileira em 1967. Só que nada soou retrô no disco de 1971. Com o álbum Gilberto Gil, o cantor ergueu a cabeça e encarou o futuro.
E o futuro chegaria em 1972, quando, já de volta ao Brasil, Gil pôs em circulação o Expresso 2222, álbum em que deglutiu a brasilidade matricial com as informações apreendidas no exílio londrino, do qual o disco de 1971 se conserva, 50 anos depois da edição original, um retrato bem acabado pela energia da elétrica máquina de ritmo do artista.