Álbum de Natal de Simone, ’25 de dezembro’ faz 25 anos com méritos ofuscados por memes


Cantora festeja 71 anos com live em que revive músicas desse disco ainda alvo de antipatia, originada da agressiva ação de marketing orquestrada em 1995. Capa do álbum ’25 de dezembro’, de Simone
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♪ ANÁLISE – Cantora nascida em 25 de dezembro de 1949, Simone festeja 71 anos de vida no Natal de 2020, com imagem suavizada pela série de lives dominicais feitas desde 12 de abril.
Por conta do 71º aniversário, a artista altera excepcionalmente o calendário e programa live especial para as 20h desta sexta-feira, 25 de dezembro, com transmissão pelo canal oficial de Simone no YouTube e pelo canal de TV Arte 1.
É óbvio que o roteiro dessa live natalina incluirá músicas do controvertido álbum 25 de dezembro, lançado por Simone em 1995.
O álbum 25 de dezembro é caso à parte na discografia de Simone por completar 25 anos em 2020 ainda envolto em preconceitos e memes que ofuscam os méritos do álbum produzido por Max Pierre com Moogie Canazio a partir de ideia do executivo Marcos Maynard.
Sim, há méritos no álbum. Muito da fúria direcionada a 25 de dezembro é resultante menos do disco em si e mais do massivo esquema de markerting orquestrado por Maynard para promover o álbum em 1995.
Com esse álbum de Natal, gênero até então inexplorado no mercado fonográfico brasileiro, Simone ingressou na gravadora então denominada PolyGram após 14 anos na CBS / Sony Music, companhia na qual permanecera de 1981 a 1995, ano em que lançou o álbum Simone Bittencourt de Oliveira antes do disco de Natal.
Decidido a investir alto em Simone, Maynard queria ostentar resultados igualmente superlativos e, para tal, massificou a faixa Então é Natal, versão em português de Cláudio Rabello para Happy Xmas (War is over), pacifista canção natalina composta, gravada e lançada em 1971 por John Lennon (1940 – 1980) e Yoko Ono.
Foi difícil escapar da sina de ouvir Então é Natal nas rádios e nas lojas naquele mês de dezembro de 1995, o que gerou ojeriza direcionada ao disco de Simone. Toda a antipatia relacionada ao álbum foi originada dessa agressiva ação de marketing de Maynard.
Entre erros como reapresentar a tristonha canção Boas festas (Assis Valente, 1933) com o baticum do grupo baiano Timbalada, em tom expansivo que contrariava a natureza melancólica do versos da música revivida por Caetano Veloso na live de Natal recém-apresentada pelo cantor em 19 de dezembro, Simone acertou ao reavivar então esquecida canção de Roberto Carlos e Erasmo Carlos, Pensamentos (1982), que se afinava com o espírito de Natal.
Clássico da dupla de compositores sempre presente nos shows de Roberto, o spiritual Jesus Cristo (1970) também ressurgiu no disco natalino de Simone com coro de apropriado tom gospel.
Com produção musical orquestral que sinalizou pompa e ostentação, o disco 25 de dezembro rebobinou standards natalinos como Sino de Belém / Jingle bells (James Pierpont, 1857, em versão em português de Evaldo Ruy, 1941), Natal das crianças (Blecaute, 1955), O velhinho (Otávio Babo Filho, 1954) – cantado por Simone com a devida delicadeza – e Noite feliz (1912), versão em português – escrita pelo frade Pedro Sinzig (1876 – 1952) – da canção austríaca Stille nacht (Franz Gruber e Joseph Mohr, 1818), conhecida em inglês como Silent night.
Versão em português de White Christmas (Irving Berlin, 1942) – Natal branco (1956), escrita pelo compositor fluminense Marino Pinto (1916 – 1965) e gravada por Simone com arranjo que evoca a era das big bands do jazz – também integra o repertório de 25 de dezembro, disco que, com todo o preconceito, teria vendido mais de dois milhões ao longo desses 25 anos.
Enfim, com boa fé e boa vontade, qualquer cristão há de reconhecer que, mesmo que o disco peque por eventuais excessos, 25 de dezembro é álbum que merece ser ressignificado na obra de Simone.