Adriana Calcanhotto fecha ciclo de 30 anos com fim da turnê do show ‘Margem’


Projetada em 1990, artista concilia vanguarda e apelo popular na obra de traço modernista. ♪ MEMÓRIA – Adriana Calcanhotto não encerrou somente uma trilogia de espetáculos e discos marítimos ao sair do palco do Circo Voador, na cidade do Rio de Janeiro (RJ), já na madrugada deste domingo, 9 de fevereiro, ao fim da 50ª e última apresentação do show Margem no Brasil.
O arremate da turnê nacional do show Margem também simboliza o fim de um ciclo de 30 anos. A cantora, compositora e violonista gaúcha está em cena desde meados dos anos 1980, década em que apresentou em Porto Alegre (RS) shows de repercussão local. Mas foi em 1990, há 30 anos, que Calcanhotto ganhou visibilidade nacional com a edição do primeiro álbum, Enguiço.
Único título equivocado da discografia construída pela artista nesses 30 anos, Enguiço foi álbum de estética impessoal arquitetada pelo produtor musical Marco Mazzola com o aval da gravadora CBS. Marisa Monte havia estourado em 1989 e, por conta do retumbante sucesso nacional da intérprete carioca, toda gravadora quis ter no elenco uma cantora que seguisse a linha heterogênea do repertório do primeiro álbum de Marisa.
Foi a era das “cantoras ecléticas”. Calcanhotto foi a eleita da CBS e fez um disco frio, pautado por regravações de sucessos de Lupicínio Rodrigues (1914 – 1974), Roberto Carlos e Titãs, entre outros nomes. As duas únicas composições de autoria de Calcanhotto, Mortaes e a música-título Enguiço, foram incapazes de delinear a assinatura pessoal dessa compositora guiada por influências modernistas.
Adriana Calcanhotto tem obra influenciada pela antropofagia tropicalista
Leo Aversa / Divulgação
Essa assinatura ganhou relevo somente a partir do definidor segundo álbum da artista, Senhas, editado em 1992 com produção assinada pela própria Calcanhotto com Ricardo Rente. Já com ecos da antropofagia tropicalista que ressoa na obra da artista, às vezes de forma explícita como no recente show A mulher do Pau-Brasil (2018), Senhas foi o disco que revelou as canções Mentiras e Esquadros, até hoje entre as mais pedidas do cancioneiro autoral da artista.
No terceiro álbum, A fábrica do poema – lançado em 1994 com os sucessos Cariocas, Inverno (parceria de Calcanhotto com o poeta Antonio Cicero) e Metade – a cantora e compositora sofisticou o traço modernista dessa obra e, desde então, vem transitando pelo terreno da experimentação sem perder o elo com a canção de molde radiofônico, elo ampliado com a gravação de Devolva-me (Renato Barros e Lilian Knapp, 1966), mote do fenomenal sucesso comercial do disco ao vivo Público (2000).
Dois anos antes da explosão de Público, o álbum e show Maritmo abriram em 1998 – impulsionados pela boa receptividade da canção Vambora – trilogia marinha que teve continuidade dez anos depois com o disco e show Maré (1998), tendo sido concluída no ano passado com o álbum e show Margem (2019).
Mesmo sem ter gerado um grande hit radiofônico (apesar da tentativa de emplacar a canção Pelo ares), Cantada (2002) – álbum lançado no meio da corrente marinha – promoveu a sedução da vanguarda, conectando a obra da cantora com o som cool da então emergente geração de músicos da cena carioca liderada por Alexandre Kassin, Domenico Lancellotti e Moreno Veloso. Cantada ajudou a dar o tom da música brasileira dos anos 2000.
Adriana Calcanhotto tem somente um disco equivocado, ‘Enguiço’, na discografia de 30 anos
Murilo Alvesso / Divulgação
A maré nem sempre esteve cheia para Calcanhotto nos últimos 15 anos. O segundo e o terceiro disco de Adriana Partimpim, heterônimo infantil da artista, surtiram em 2009 e 2012 pouco efeito entre as crianças de todas as idades que se deliciaram o hit do primeiro álbum de Partimpim, alavancado em 2004 pela empatia de Fico assim sem você (Cacá Morais e Abdullah, 2002), apropriação sagaz de música do repertório da dupla de funk melody Claudinho & Buchecha.
Discos e shows como O micróbio do samba (2011) – nos quais Calcanhotto caiu no samba com finura (com maior poder de sedução no palco do que no estúdio) – geraram afluência de público bem menor do que a concorrida turnê do show A mulher do Pau-Brasil, banquete antropofágico que marcou a volta da artista à música e ao Brasil após período em Portugal como professora de letras de faculdade da cidade de Coimbra.
Novamente em terra firme após o fim da turnê do show Margem, estreada em agosto na imediata sequência do contundente espetáculo anterior da artista, Adriana Calcanhotto parte novamente para Coimbra como mestra das letras que tão bem usa na obra que construiu com referências poéticas e literárias.
A viagem parece simbolizar mais do que o fim de mais uma turnê. Fecha-se um ciclo de 30 anos. Abrem-se novas possibilidades e caminhos para uma artista que, desde 1990, vem se impondo em cena com uma das assinaturas mais originais e modernistas da música brasileira.