‘Aceitamos usar niqab se Talibã nos deixar estudar’, diz afegã que promovia educação feminina até retirada dos EUA


Até 2001, governo Talebã proibia mulheres e meninas de estudar ou trabalhar. Agora, o movimento insurgente apresenta uma versão menos radical de si mesmo diante dos olhos incrédulos das afegãs. Amina visita alunas de uma escola na província de Herat
Arquivo pessoal/BBC
“Todos os dias são horríveis. E a única certeza que tenho é de que ontem foi melhor do que hoje.”
Essa é a descrição da jovem afegã Amina* sobre suas últimas semanas, desde que os EUA completaram a retirada das tropas de seu país, após 20 anos de ocupação. Ela dedica os dias a monitorar a situação de seus parentes e amigos, a maioria deles em grandes cidades do Afeganistão.
Amina vive há menos de um ano em Washington D.C., capital americana, para alívio de sua mãe, que segue em território afegão. Ela obteve um dos poucos milhares de vistos oferecidos pelos EUA a afegãos que tenham trabalhado pelo país ou por organismos internacionais durante a ocupação americana.
No caso de Amina, o visto veio após ela sofrer ameaças de morte por seu trabalho, em um processo que expõem a deterioração da segurança no país muito antes que as cenas dos Talibãs sentados no gabinete presidencial corressem o mundo.
Especialista em políticas de educação por uma renomada universidade americana, ela passou os últimos anos tentando levar para a sala de aula ao menos parte dos cerca de 4 milhões de crianças e adolescentes afegãos que estavam fora da escola no período pré-pandemia.
Como funcionária de diferentes organizações internacionais, entre elas o Unicef, Amina trabalhava em diferentes províncias e com frequência nas áreas mais pobres e dominadas por lideranças Talibã.
“São lugares em que, nesses últimos 20 anos, as pessoas nunca viram um playground, nunca provaram um sorvete, nunca viram uma rua movimentada, nunca tiveram eletricidade. Seguem vivendo como há 100 anos. E são essas pessoas que agora controlam o país”, diz Amina.
Ali, sua função era conseguir interlocução com os líderes do grupo para levar educação para as crianças. E inspirar os menores de idade a não desistirem de estudar.
“Eu dizia para essas meninas e meninos que eles tinham que dedicar suas vidas ao estudo, a ser alguém. E agora? Nossos sonhos foram destruídos e me sinto culpada por tê-los feito acreditar que era possível”, contou, em lágrimas, à BBC News Brasil.
O temor de Amina é que, de volta ao poder, o Talibã proíba de novo a educação de meninas, retire as mulheres do mercado de trabalho e as obrigue a uma vida quase exclusivamente doméstica, dedicadas apenas ao marido e aos filhos.
Era assim até 2001, quando os EUA entraram no país para desalojar os fundamentalistas islâmicos do poder, acusando-os de dar guarida ao grupo Al-Qaeda, de Osama Bin Laden, mentor dos ataques do 11 de setembro.
‘Americanos feitos de bobos’
Os EUA se retirariam do país apenas em julho de 2021, 20 anos e US$ 2 trilhões depois, acreditando que levaria ao menos seis meses para que o Talibã desafiasse o controle político de Cabul. Na semana passada, a inteligência americana revisara o prazo para algo entre 30 e 90 dias de sobrevida do governo afegão.
Cinco dias depois, no último fim de semana, o Talibã chegou à capital do país depois de dominar todas as demais grandes cidades afegãs. No domingo, o presidente afegão Ashraf Ghani fugiu do país e o grupo fundamentalista islâmico assumiu o controle do palácio presidencial.
Militantes do Talibã desfilam agora o recém obtido poderio militar – antes de partir, os EUA gastaram mais de US$ 80 bilhões para treinar e equipar o exército afegão com armas que os insurgentes tomaram e agora expõem.
“Os americanos foram feitos de bobos. Nós sabemos que não existe uma solução militar na região, mas sair do Afeganistão dessa maneira, em troco de nada e sem qualquer controle sobre o Talibã, isso é loucura, é um erro e é um fiasco”, afirma Amina.
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Para ela, “mesmo pessoas com conhecimentos rudimentares sobre o Afeganistão poderiam ter saído com uma solução mais positiva do que fez o governo americano”.
A decisão de Biden de retirar as tropas americanas era popular com seu público doméstico. Quase 60% dos americanos queriam o fim da ocupação americana no Afeganistão – entre os eleitores democratas, a cifra chegava em 72% – segundo uma pesquisa do instituto YouGov divulgada em julho.
A ação, no entanto, está se transformando em um de seus piores reveses desde o início do governo, em janeiro. As cenas da retirada às pressas de diplomatas americanos da embaixada em Cabul relembraram os americanos de sua derrota em Saigon, no Vietnã.
E as imagens de afegãos agarrados à fuselagem de um avião militar dos EUA que partia do Cabul os relembrou das dezenas de milhares de aliados – afegãos que trabalham pelos americanos e cuja vida está em risco agora – que deixaram pra trás em sua saída.
A Casa Branca tem adotado uma postura defensiva diante do problema e argumenta que as bases da retirada foram determinadas pelo ex-presidente Donald Trump, que abriu negociação direta com o Talibã em 2018.
“O governo afegão tinha muitos problemas, mas os americanos não deveriam ter aceitado negociar com o Talibã. Isso deu poder ao grupo e esvaziou ainda mais o governo afegão, que já era frágil”, diz Amina. Trump havia determinado o mês de maio de 2021 como a data de saída das tropas dos EUA.
Para o conselheiro de segurança nacional de Biden, Jake Sullivan, a negociação do republicano deixou a Biden apenas duas opções: seguir com a partida do país ou ficar e arriscar confronto aberto com o Talibã.
Nesta segunda, em seu primeiro discurso após a tomada de Cabul pelo Talibã, Biden não reconheceu nenhum erro estratégico americano e culpou os próprios afegãos pelos desdobramentos vistos no país.
“Líderes políticos afegãos desistiram e fugiram. Os militares afegãos desistiram, algumas vezes sem tentar lutar. Isso comprovou que não devemos estar lá. Não devemos lutar e morrer em uma guerra que os próprios afegãos não querem lutar”, disse Biden, que interrompeu as férias para fazer o pronunciamento e tentar estancar a crise política.
Para Somaye, a resposta de Biden é um “insulto”. “Somente no Exército afegão, perdemos 65 mil soldados durante a guerra, sem contar os civis. O presidente americano age como se suas únicas opções fossem sair como saiu ou aplicar ainda mais força contra o país. Na verdade haveria muitas outras opções, como chamar à mesa potências regionais como China e Índia para tentar negociar essa saída. Nós, afegãos, não questionamos a retirada, mas o modo como ela foi feita”, diz Amina, apontando para um aspecto delicado da atual geopolítica global.
No último fim de semana, a prefeitura de Washington D.C. autorizou que afegãos na capital americana se manifestassem em frente à Casa Branca. Cerca de 500 pessoas se reuniram ali com cartazes que acusavam os americanos de “traição” e pediam sanções ao Paquistão, considerado o principal defensor e financiador das forças do Talibã.
“A verdade é que ali em frente à Casa Branca eu já não sabia o que reivindicar. Há duas semanas, queria mostrar que apoiava o Exército afegão e pedir apoio aos EUA. Há uma semana, queria as Nações Unidas mandassem suas tropas de paz. Agora não sei o que nos resta, além de esperar que o Talibã tenha piedade de nós”, afirmou Amina.
Uma versão menos radical do Talibã
Pelo celular, as notícias que chegam são confusas, às vezes conflitantes. Mas o quadro que se desenha até agora é de um Talibã em versão menos radical do que aquele que comandou o país entre 1996 e 2001.
“Eles querem ser respeitados internacionalmente, então é aí que pode estar nossa chance de negociar”, diz Amina. Em entrevistas à rede CNN de televisão, combatentes do Talibã dão entrevistas com sorriso no rosto e armamento pesado em punho. Dizem que “mulheres e meninas serão respeitadas” ao mesmo tempo em que bradam “morte ao EUA” diante da repórter americana.
Parentes e amigos de Amina contam que o Talibã tem oferecido uma espécie de “anistia” a quem tenha lutado contra eles ou trabalhado para o governo afegão. Bastaria que as pessoas se apresentassem à autoridade Talibã local para pegar um salvo-conduto que impediria prisões futuras.
Há, no entanto, certa descrença já que o grupo fundamentalista islâmico não é conhecido por cumprir acordos que firma. E há também muito boato. Amina afirma que o caos visto no aeroporto de Cabul se deve a isso: as pessoas receberam informações falsas de que conseguiriam embarcar mesmo sem visto ou passaporte.
Em termos educacionais, as primeiras informações são de que as lideranças estariam dispostas a ceder e permitir a educação de meninas e mulheres, desde que as escolas e universidades fossem segregadas por gênero, apenas mulheres dessem aulas a meninas e homens para meninos (a partir de uma certa idade) e que a vestimenta adequada fosse observada.
Os Talibã disseram que vão exigir que as mulheres vistam niqab, um traje que cobre o corpo e o rosto, deixando apenas a faixa dos olhos à mostra.
“Tenho conversado com muitas mulheres e eu diria que sim, que estamos dispostas a usar niqab se nos deixarem ir à escola, à universidade e trabalhar. Dada a situação, agora começamos a negociar com coisas que há dois ou três dias tomaríamos como inaceitáveis. Então aceitamos o fim da televisão, podemos vestir o que querem, podem limitar nossa liberdade de expressão, desde que não nos tirem escola e trabalho”, afirma Amina.
É na expectativa de que um acordo seja possível que reside a esperança de Amina. Embora tenha visto pra viver nos EUA, esse nunca foi seu desejo. Ela sempre viu a estadia em território americano como algo temporário, após uma saída quase que forçada do Afeganistão. Em 2019, depois de denunciar malfeitos da gestão afegão, ela começou a receber ameaças.
Com a difícil missão de negociar com líderes talibã, que controlavam certos distritos afegãos, a ida de meninas e meninos à escola, passou a ouvir de funcionários do governo que circulavam rumores de que ela não seria “muçulmana o suficiente”.
“Esse tipo de boato leva as mulheres à morte no Afeganistão”, afirmou Amina, citando casos como o de Farkhunda Malikzada que, em 2015, foi morta a pauladas depois de boatos de que ela queimara um exemplar do Alcorão, o livro sagrado dos muçulmanos. Malikzada jamais cometeu tal ato.
Ao mesmo tempo em que Amina, que é muçulmana da minoria xiita, tinha sua religiosidade questionada, o marido dela foi sequestrado.
“Eles passaram quase um dia com ele, o espancaram, quebraram dois de seus dentes”, relata Amina. As circunstâncias do ataque nunca foram completamente esclarecidas e a família de Amina acredita que pode ter sido um crime comum, já que a violência passou a ser um problema frequente no país pobre e de poucas oportunidades.
Há dez meses nos EUA, e apesar de ter diploma de uma das mais respeitadas universidades do país, Amina não conseguiu ainda um emprego. Ela tem buscado postos como educadora ou professora. As negativas a tem forçado a consumir as economias que fez para a aposentadoria. Agora divide seu tempo entre acompanhar a ruína do próprio país e cogitar a inscrição em vagas de emprego na varejista Amazon ou em redes de fast-food americanas para sobreviver.
*O nome da entrevistada foi alterado para proteger sua identidade
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