A relação entre o uso do tempo e a disseminação da cultura inútil

Por Cid Vianna

Circula nas redes sociais um pequeno vídeo de origem incerta, mas de um conteúdo profundamente assertivo.  Nele, um senhor discorre a respeito da enorme quantidade de informação que temos disponíveis a um “touch” de qualquer dispositivo e de como isso vem nos transformando em grandes especialistas em cultura inútil.  Menciona que muitas pessoas, por exemplo, desconhecem o nome da capital do próprio país, entretanto sabem o nome de todos os personagens de um seriado de televisão.

Fazendo uma pequena reflexão sobre o assunto, podemos facilmente perceber de como a grande quantidade e a facilidade para obtenção de conteúdo nos faz perder o foco do que realmente nos é importante.  Quem nunca pegou o celular para responder a uma mensagem ou fazer uma ligação e momentos depois se pega vendo alguma coisa que nada tinha a ver com o objetivo inicial. Muitas vezes nem sequer lembramos o porquê havíamos pegado o celular realmente.

Ainda dentro da mesma reflexão anterior, o conteúdo que nos roubou o foco agrega algo a nossas vidas ou responde a algum questionamento realmente importante? Ou é simplesmente interessante? Indo um pouco além, e para nosso total desespero, quase tudo que nos é disponibilizado é interessante.

Mas isso que obtemos de forma tão fácil pode ser chamado de informação? E vamos combinar que ter interesse por alguma coisa não obrigatoriamente transforma este tema em informação. É cultura inútil!

Não quero e não posso entrar no âmbito do que é conteúdo fútil, negativo, racista, imoral, ilegal ou que engorda, mesmo porque descambaríamos no abismo dos julgamentos controversos e das discussões intermináveis, onde normalmente não se chega a lugar algum.

Quero considerar somente no que de alguma forma possa ser visto como matérias e artigos com algum teor mínimo de cultura intrínseca. Seja ela qual for.

Enfim, voltando à nossa reflexão, quanto tempo desperdiçamos com conteúdos interessantes, mas que pelo simples fato de serem interessantes não nos agregam nada.  Por que a menos que você seja um crítico de cinema ou algo equivalente, qual a importância para você saber o nome de todos os personagens de uma série da TV?

Alguns estudos apontam que nos próximos quarenta anos, de acordo com o andar da carruagem, passaremos seis anos vendo televisão, oito anos na internet e 10 anos olhando para algum tipo de monitor ou tela sem especificamente um propósito.

Paradoxalmente, a associação mundial de desenvolvimento de softwares nos informa que dispomos atualmente de aproximadamente sessenta mil tipos diferentes de aplicativos voltados a otimização do nosso tempo e que nos próximos quarenta anos este número deve triplicar, impulsionados principalmente pelas tecnologias emergentes.

Paralelo a tudo isso, temos números alarmantes a respeito do que os especialistas chamam de “apagão de profissionais”. Uma enorme falta de profissionais qualificados em quase todos os setores do mercado, que nos próximos quarenta anos deve se tornar algo catastrófico se não tomarmos ações corretivas agora.

Sem mais delongas, a tecnologia nos proporciona ferramentas e recursos para termos mais tempo disponível, utilizamos este tempo de forma equivocada ou inadequada e, em consequência, deixamos de nos preparar para o que realmente nos será exigido no futuro.

Se você concorda com este breve raciocínio e sente a mesma coisa, está na hora de repensar os critérios de tempo livre e sua utilização.

Afinal, o mundo não precisa de especialistas em cultura inútil.

 

Cid Vianna assina a Coluna Quarta Ponto Zero, no Inova360, parceiro do portal R7. É diretor de novos negócios do Grupo T2I e apresentador do quadro Quarta Ponto Zero no programa de TV Inova360, na Record News.

cid@fatorconsult.com.br

https://www.linkedin.com/in/cid-vianna-64613510/