A receita de ‘Tipo gin’: o que o hit de Kevin o Chris revela sobre as estratégias do pop atual


Parcerias no TikTok, funk acessível sem ser artificial e virada digital na pandemia foram cruciais, conta empresária. Kevin conversa com Rosalía e Post Malone, mas foco ainda é nacional. Kevin O Chris
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“Tipo gin” subiu rápido para a cabeça dos brasileiros. O funk de Kevin o Chris, do refrão “ela tá, tá movimentando”, saiu em abril e logo se encaixou entre as dez músicas mais tocadas em streaming, de onde não saiu. A empresária Kamilla Fialho falou com o G1 sobre as estratégias por trás do hit:
Foco no TikTok – Kamilla fechou parceria com um grupo de criadores de dancinhas, a Nice House. Kevin já escreveu a música de olho no TikTok e eles fizeram os movimentos do “tá movimentando”. Todo mundo dançou, de Boninho a Larissa Manoela.
Comercial sem descolar da ‘quebrada’ – A empresária combinou que o cantor continua a lançar funks sem censura, ligados no som da rua, mas entrega também faixas mais acessíveis para o público “de 8 a 80 anos”, sem letras pesadas. “Tipo gin” é dessa leva.
Virada digital na pandemia – A K2L, empresa de Kamilla, se movimentou muito após o apagão de shows. Eles não acreditaram em quem dizia que a pandemia passaria rápido, seguiram lançando músicas e viraram todo o investimento para o mercado digital.
E o pós-gin?
A empresária carioca que cuidou do início da carreira de Anitta e faz o trabalho de Kevin evoluir há três anos discute o futuro. Kevin já subiu no palco de Post Malone e teve uma música relançada em parceria com Drake. Quais são as perspectivas internacionais do funkeiro?
Ele continua em contato com Post Malone até hoje, dois anos após o show no Lollapalooza.
O interesse dos gringos é pelo seu som “raiz”. Ela conta que Drake recusou uma versão “limpinha” e remasterizada de “Ela é do tipo”, e quis trabalhar com a versão caseira mesmo.
Rosalía é outra que conversa com Kevin sobre parcerias. Kamilla diz que eles chegaram a enviar “Ela é do tipo” para a cantora catalã, mas as agendas não bateram. Eles seguem conversando…
Kevin o Chris e sua empresária, Kamilla Fialho
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Leia a entrevista abaixo:
G1 – “Tipo gin” subiu rápido. Como isso aconteceu num cenário difícil para a música como hoje?
Kamilla Fialho – Ela foi milimetricamente pensada. Em outubro o Kevin entregou a música e achamos incrível. A gente gravou o DVD em novembro, quando teve uma baixa nos casos e liberaram eventos. Mas seguramos o lançamento, porque eu achei que tinha que vir mais próximo da vacina, com um cenário mais favorável.
A gente fez com até mais cuidado do que as normas da época, com pessoas em quadradinhos. Foi extremamente desafiador e caro, mas entendemos que tinha que sair alguma coisa. Nem no histórico dele de vários sucessos teve um retorno tão rápido. Em um mês já tinha números que a gente não tinha alcançado.
G1 – Como ele te entrega as músicas? Você acompanha a composição?
Kamilla Fialho – O Kevin é produtor musical antes de qualquer coisa. Começou como DJ, colocou a voz numa música para mandar para outra pessoa, e ficou tão legal que o empresário dele na época lançou. E andou muito rápido. As pessoas não conheciam a imagem do Kevin. Quando o empresário trouxe para mim, em janeiro de 2019, era para trabalhar a imagem daquelas músicas que já iam bem.
Era claro para mim que ele que consegue cantar para o povo de 8 a 80 anos, de todas as classes. Ele circula em todos os lugares e, mesmo do tamanho que está, ainda é tocado na comunidade. Normalmente quando o artista migra para o “mainstream” a comunidade não se interessa mais.
A empresária Kamilla Fialho
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A gente sempre teve um acordo em que eu falo para ele: ‘Eu preciso de músicas ‘mainstream’, que sejam radiofônicas, que toque na TV, que crianças e adultos cantem. E você pode me entregar o que você acredita que a comunidade curte, e o funk consciente que ele também gosta de fazer.
Se vai lançar 50 músicas por ano, eu preciso que 10 sejam dessas que atinjam a todos os públicos, como “Tipo gin”. E ele faz isso desde “Ela é do tipo”. “Romance proibido”, com o Ferrugem, ele me entregou sabendo disso. Ele sabe qual é a música que tem capacidade de atingir o maior número de pessoas e aquelas que são segmentados – e que ainda assim são importantes.
G1 – A música foi muito bem no TikTok. Existe algum trabalho ativo feito lá, ou é só lançar e torcer para colar?
Quando o Kevin entregou “Tipo gin” ele já falou que era perfeita para o TikTok. Só que ele achava que a parte da música que ia bater no Tik Tok era “dois passinos pra lá e pra cá”. E a gente na K2L tem um setor só para cuidar do TikTok, para pensar e pesquisar pessoas que viralizam em “challenges”.
No TikTok, uma coisa é a pessoa que consome o outra é a que cria. Os que criam as danças não são famosos, conhecidos na mídia, então a gente tem que pesquisar. A gente fez parceria com uma empresa de “TikTokers” chamada Nice House. E isso mudou muito para a gente.
Eles também estão querendo ser cantores, e a gente trocou experiências. Damos uma consultoria para eles a respeito de música, sobre como lançar as faixas, e em troca eles fazem um criativo dos nossos lançamentos. Então eu tenho que dar o mérito. Eles são incríveis, todos muitos jovens. O mais velho deve ter 19 anos. São organizados, empreendedores e conseguiram achar esse modelo de casa,
Então essa parte criativa é da Nice House, mas dentro do planejamento nosso de dar um destaque a essa música no TikTok.
Kevin O Chris
Facebook / Kevin O Chris
G1 – E como trabalhar uma música comercial assim sem shows?
Kamilla Fialho – Não sei, acho que a gente fechou o olho e foi. Se eu parasse para ouvir todo mundo, as pessoas que disseram “fica tranquila, daqui a um mês já volta os shows”, como ouvi várias vezes, estaria esperando até hoje. O que a gente se propôs foi continuar lançando músicas, criando projetos, aproveitando as brechas e se reinventando dentro das normas de bom senso.
Depois do terceiro mês da pandemia eu falei: quero planejamentos. Infelizmente vão ser mais caros, a gente vai ter mais dificuldade de executar, mas vamos continuar. Eu lancei o álbum do 3030 (grupo de rap também empresariado por ela), que antes também dependia muito de show.
Foi muito, muito voltado para o online. O investimento que a gente fazia antes de uma festa de lançamento, de press kit, de show promocional para rádio, eu voltei para alcançar o maior número de pessoas no digital.
Teve um monte de gente que foi top 1 no Spotify e a gente nem sabe o rosto, mas graças a Deus os artistas que estavam comigo já eram reconhecidos.
Eu acho que a fórmula para isso ter acontecido nesse período foi não ter parado. Muita gente parou e esperou para ver o que ia acontecer. Não lançava uma música, os ouvintes iam caindo. Acho que continuar fazendo foi o segredo do sucesso, mesmo com dificuldade.
Kevin O Chris canta no show de Post Malone no Lollapalooza 2019
Reprodução
G1 – O Kevin já subiu no palco do Post Malone e teve múscia lançada com o Drake. Você vê um caminho internacional para ele?
Kamilla Fialho – Até vejo, mas desde o “boom” de 2019, a gente tinha muita coisa para fazer, então não conseguiu pegar todas as oportunidades que surgiram. Tipo a Rosalía. “Tipo gin”, inclusive, foi uma música que a gente enviou para ela. Eles já estavam se falando para fazer uma música juntos e a gente mandou, mas não rolou porque a agenda dela não batia. A gente tinha isso de esperar a vacina, que achávamos que ia demorar, ela tinha outras coisas, e acabou não acontecendo.
O Kevin tem uma ligação muito grande lá fora. A gente tem oportunidades semanais de artistas gringos com muitos ouvintes mensais que querem gravar com ele. Mas eu acho que ele tem que se firmar ainda mais no Brasil.
G1 – Mas a Rosalía mantém o contato com vocês?
Kamilla Fialho – Sim. A gente tem contato com um monte de gente. O Post (Malone) fala com o Kevin até hoje. A internet é maravilhosa, cortou todos esses espaços, acabou com os empresários que inviabilizavam as coisas. Agora só manda um “direct”, o cara vê quem é, dá uma pesquisada e responde.
Quando veio ‘Evoluiu’ e ‘Ela é do tipo’, veio todo mundo ao mesmo tempo, ele fez o Lollapalooza com o Post e eles entenderam a sonoridade do Kevin.
Post Malone e Kevin O Chris se encontram nos bastidores antes de show no Lollapalooza
Para você ter uma noção, ele produziu ‘Ela é do tipo’ no estúdio antigo dele, sem muita tecnologia. Quando ele gravou o DVD, tinha outra estrutura. Quando o Drake pediu essa música, mandamos a do DVD, que estava na mixada e masterizada, tudo direitinho. O Drake recusou e falou que queria a outra.
Tem uma coisa que as pessoas enxergam no som do Kevin que realmente só ele faz. Nunca vi, em 18 anos de funk, o fenômeno que é com ele. A procura de artistas gringos por ele é quase um sonho.
A empresária Kamilla Fialho
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