‘A pior prisão é a autocensura’, diz membro da Pussy Riot no Brasil


Banda punk feminista foi atração do festival Verão Sem Censura nesta quinta-feira (30) em SP. Maria Alyokhina, do grupo punk Pussy Riot, canta durante o Festival Verão Sem Censura nesta quinta-feira (30)
Miguel Schincariol/AFP
Maria ‘Masha’ Alyokhina, uma das integrantes da banda punk Pussy Riot, que passou dois anos presa na Rússia após uma performance crítica, aconselha os artistas brasileiros a não se deixarem abalar pelo conservadorismo do atual governo.
“A pior prisão é a autocensura. Você pode passar alguns anos dentro de um presídio, mas na autocensura você pode permanecer preso a vida inteira”, disse a artista russa, de 31 anos, antes de se apresentar em São Paulo na última quinta-feira (30) à noite.
Vestida toda de preto, com exceção do característico capuz amarelo que usava na cabeça, Alyokhina subiu ao palco durante o festival Verão Sem Censura, organizado pela prefeitura paulistana com a proposta de exibir espetáculos que foram alvo de censura em 2019, no primeiro ano do governo Bolsonaro.
À frente da performance, a jovem usou o espaço para apresentar a causa que defende, além de mostrar a trajetória da Pussy Riot desde o conhecido protesto contra o presidente Vladimir Putin, em 2012, em uma igreja ortodoxa de Moscou.
Banda punk Pussy Riot se apresentou no Festival Verão Sem Censura em SP
Miguel Schincariol/AFP
“Acreditamos na história que nos contaram, mas, onde está a revolução?”, cantou Alyokhina e as outras três integrantes do grupo no show em São Paulo, cujo cartaz era uma ilustração no qual desenhos de lixo e resíduos tóxicos formam o rosto de Bolsonaro.
“Tenho certeza de que o Estado, o governo, não deveria dizer aos artistas o que devem ou não fazer, porque isso não tem a ver com eles. E é por isso que estamos em um festival contra a censura”, ressaltou Alyokhina.
A artista lamenta as recentes tentativas de censura contra artistas brasileiros, mas considera que “o mais difícil foi saber do assassinato de Marielle”, disse.
A agenda de Alyokhina, que segue viagem pelo país com seu filho adolescente, terá passagens por Recife e pelo Rio de Janeiro, onde lançará a edição brasileira do seu livro “Riot Days” (Título sem tradução para o português). A obra traz reflexões pessoais e apresenta a sua experiência durante o tempo em que esteve na prisão.
Monica Benicio entregou às Pussy Riot camisa com o nome de Marielle Franco no palco do Abril pro Rock, no Recife
Pei Fon/Rock Meeting/Divulgação
“A cultura e a arte representam perigo porque são (voltadas) para as pessoas. Por isso os ditadores têm tanto medo da arte. Mas isso não é motivo para pararmos (de agir) porque temos a responsabilidade de continuar”, argumenta a ativista, que se mostra otimista ao notar sinais de maior resistência em seu país.
“Na Rússia está cada vez pior. O que há de positivo é que começamos a nos reunir e a protestar. Somos diferentes, temos visões políticas que às vezes são distintas, mas todos estamos em consenso quanto a liberdade de expressão e de imprensa. Não apenas os cidadãos comuns, mas também os artistas famosos se arriscam à prisão ao protestar. Mas ninguém deixa de fazê-lo”, acrescenta.
Ao dividir o palco com a cantora Linn da Quebrada, Alyokhina gritou: “Sei que no inferno serei uma personalidade emérita”.