A imigrante venezuelana que cantava debaixo de ponte na Espanha e foi descoberta por programa de TV


Rosa María Martínez é uma enfermeira de 30 anos que participou de audição de competição musical na Espanha e conquistou o público e os jurados. Rosa María Martínez veio da Venezuela para a Espanha
Cortesia: Rosa María Martínez via BBC
“Você representa tudo o que temos que nos orgulhar”, disse o apresentador Risto Mejide à imigrante venezuelana Rosa María Martínez, após a apresentação dela no programa musical espanhol “Got Talent España” no mês passado.
Ao classificar a apresentação como perfeita, Mejide e os outros dois jurados agradeceram Rosa por também ter ajudado o país no combate à pandemia de covid-19. Ela é enfermeira e esteve na linha de frente contra o novo coronavírus.
Segundo os jurados, ela representa os idosos (de quem ela cuida como enfermeira), os profissionais de saúde e também o talento dos artistas. Na disputa, Rosa cantou a música “Adiós Nonino”, de Astor Piazzolla.
Após os diversos elogios, os jurados tomaram uma medida pouco comum na disputa: apertaram o botão dourado. Isso significa que após essa primeira audição ela foi direto para a semifinal da competição.
A participação da cantora, exibida em 17 de setembro, foi um episódio emocionante no concurso, especialmente quando um grupo de idosos, seus “heróis” — como ela chama —, subiram ao palco para acompanhá-la antes da decisão dos jurados.
Rosa gostava de cantar para os idosos que tratava no hospital. Para preparar as canções de seu repertório, ela costumava ensaiar em baixo de uma ponte, onde havia boa acústica. Acabou sendo descoberta por acaso por um jornalista, que fez uma reportagem que despertou o interesse dos produtores do Got Talent España.
Essa é a história da enfermeira de 30 anos, mãe solo, que nasceu em Maracay, na Venezuela, e cuja voz cativou muitas pessoas na Espanha e em outros países.
Artista vestida para apresentação na Venezuela
Cortesia: Rosa María Martínez via BBC
“Um vínculo muito forte”
“Quando criança, era muito doente e asmática. Eu admirava muito a minha tia Miriam, que era enfermeira. Queria ser como ela e como as enfermeiras que cuidavam de mim. Também queria usar o uniforme branco”, conta a artista à BBC News Mundo (serviço em espanhol da BBC).
Ela começou a estudar música aos 12 anos e aos 17 passou a se especializar em canto lírico.
Anos mais tarde, realizou o sonho de se formar em enfermagem. “Trabalhei em uma área muito dura no setor de saúde na Venezuela, a oncológica”.
“Os pacientes com câncer são muito afetados pelas dificuldades do país”, especialmente, explica Rosa, pela falta de remédios específicos, que são importados.
“Quando uma pessoa passa por uma quimioterapia, precisa de um conjunto de medicamentos e se falta algum, a finalidade dos outros medicamentos é afetada. Por isso, tive de enfrentar com frequência as mortes dos meus pacientes”, desabafa.
“Tive que ajudar muitos deles que não tinham recursos. Por exemplo: ou comiam ou iam para a quimioterapia. Então, eu dizia: invista o seu dinheiro em vir para a quimioterapia, eu me encarrego de trazer comida para você”, diz Rosa.
“Os pais dos adolescentes que tinham algum tipo de câncer, desses que acometem as crianças, não tinham recursos”, conta Rosa.
“Esses pais chegavam e me diziam: ‘Enfermeira, preciso de passagem para levar essa amostra, o único dinheiro que tenho é para pagar o laboratório, mas também preciso de dinheiro para o transporte’. Eu acabava ajudando alguns a complementar o que faltava”, relata.
“Por quê? Bem, no fim das contas é estabelecida muita conexão com o paciente, mesmo que não queira, e a ruptura desse vínculo é muito forte.”
Rosa conta que quando o marido ligava para ela, na época ele morava em Caracas (capital da Venezuela), sempre a encontrava chorando porque algum paciente havia morrido.
Ela conta que a situação começou a afetar profundamente. “É muito sofrimento”, lamenta. E Rosa sentiu que era necessário parar e fazer algo diferente por um tempo, “talvez para clarear a mente e me afastar um pouco daquela situação que tem a ver com doença e com morte”.
Rosa junto com colegas que trabalhavam com ela em setor de oncologia na Venezuela
Cortesia: Rosa María Martínez via BBC
A mudança
Ela foi trabalhar com música em Caracas. Como soprano, integrou o Coro de Ópera do Teatro Teresa Carreño, o principal da região.
A artista começou como cantora solo e, após várias apresentações, em 2018 se apresentou junto com a Orquestra Filarmônica da Venezuela.
Rosa se tornou prestigiada como cantora, mas uma decisão se tornou inevitável. “Como muitos venezuelanos, deixei o país em busca de mais estabilidade”.
“A coisa mais dolorosa foi ter que deixar a minha filha, que tem 10 anos”, conta.
“A Giselle é a minha maior inspiração, o meu principal motor”, afirma. “Ela, a minha mãe e a minha irmã dependem completamente de mim. Todos os gastos da minha filha são por minha conta”, diz.
Ela conta que criou a garota sozinha, após se separar do pai da criança.
Rosa chegou à Espanha em 2019, fez mestrado em Música Espanhola e Hispano-Americana na Universidade Complutense, fez estágio no departamento de Música da Biblioteca Nacional da Espanha e algumas poucas apresentações.
Mas a chegada do novo coronavírus virou tudo de cabeça para baixo.
O golpe da pandemia
“Como aconteceu em todo o mundo, na Espanha também apareceu a necessidade de recrutar enfermeiros que pudessem trabalhar em meio à crise sanitária”, afirma Rosa.
“E para mim foi um dever moral, ético e profissional oferecer os meus serviços como enfermeira, tendo em vista que eu tenho formação e experiência no meu país, por isso atendi ao chamado e comecei a trabalhar em asilos”.
Ela conta que trabalhou em um abrigo para idosos que foi muito afetado pela pandemia. “Houve vários (que morreram), um, dois, três ou quatro no mesmo dia. A situação era difícil porque no início tínhamos que atendê-los sem os recursos necessários”, desabafa.
Mas depois do início da pandemia, período em que a Espanha foi um dos países mais atingidos pela covid-19, a situação mudou e as coisas melhoraram.
“Hoje vejo o processo da morte de forma diferente”, revela Rosa.
“A minha experiência com pacientes com câncer me preparou um pouco e o trabalho com esses idosos e a morte terminou de me mostrar um outro lado desse processo da vida, que é o fim”, diz.
‘Cante o que quiser’
“Em um dos corredores de um dos primeiros asilos em que trabalhei, um grupo de idosos se reuniu para fazer o rosário”.
Ela perguntou se poderia cantar para eles. “Como são muito simpáticos, me disseram: ‘Claro, filha, cante o que quiser’ e eu cantei Ave Maria”.
“Eles ficaram tão emocionados que aquilo se tornou em um ritual para mim e todas as 17h30 passei a cantar. Se eu não aparecia, porque estava muito ocupada, mandavam me chamar”, diz.
Para se apresentar para idosos, ela sempre seguiu um protocolo sanitário rígido. “Comecei a cantar com todo o traje de proteção (contra a covid), com óculos especiais, luvas, máscara dupla e uma tela. Tudo para protegê-los”, detalha.
Depois dos meses mais difíceis da pandemia, os espaços para receber idosos durante o dia começaram a reabrir na Espanha e Rosa conseguiu emprego em um deles.
No novo emprego, ela não apenas cuidava da saúde dos idosos. Ela também participava de atividades de estimulação neurológica para eles.
Nesse período, sua paixão pela música ganhou uma nova dimensão e ela se especializou em musicoterapia.
“Eu havia cantado na festa de despedida de uma enfermeira e, desde então, os idosos decidiram que eu cantaria para eles nos aniversários e em todas as comemorações que surgissem”.
E, aos poucos, ela foi passando a fazer apresentações no lugar, no qual os idosos iam vestidos com roupas de gala.
“Na Ponte de Toledo, onde conheci o jornalista”, diz Rosa
Cortesia: Rosa María Martínez via BBC
Debaixo da ponte
Rosa diz que não tinha lugar para ensaiar para essas apresentações. Ela não podia fazer isso em casa porque, segundo a artista, isso não é comum na região em que mora.
Então, junto com o seu pianista, que é seu companheiro que migrou com ela, buscou um lugar.
“Caminhando no parque Madrid Río, passei embaixo da Ponte de Toledo e, por acaso, me dei conta de que os arcos do local tinham uma acústica muito boa”, diz.
“Quis experimentar com a voz e me pareceu um lugar extraordinário para ensaiar”.
Assim, ela encontrou o lugar que precisava. “Um dos ensaios foi ouvido por um jornalista que, como muitos dos que foram ao parque, ficou até o fim do ensaio”, relembra Rosa.
Ele se aproximou, a parabenizou e perguntou se ela queria ser entrevistada.
Fizeram uma reportagem para a televisão no dia em que ela faria uma apresentação para os idosos.
A reportagem foi vista por um dos produtores do Got Talent España, que entrou em contato com Rosa e perguntou se ela queria participar da competição musical.
Não esperava
Rosa seguiu todos os passos para participar da atração e foi convidada para cantar em frente aos três jurados e ao público, que assistiria à audição dela na plateia do programa.
“No último minuto, a equipe de produção teve a ideia de que eu poderia levar alguns dos idosos. Então, escolhemos os mais ativos, os mais artísticos, os mais participativos e os levamos com uma equipe de cuidadores”, conta.
“Eu podia vê-los sentados no teatro e disse algumas palavras a eles quando estava no palco”, diz.
“Mas o que eu não esperava era que eles fossem subir e que os jurados apertassem o botão dourado enquanto eu estava com os meus idosos lá em cima”, diz a artista, muito animada.
“Fiquei em uma espécie de choque, especialmente quando falaram para os avós subirem, porque ali deixei de ser artista e voltei a ser enfermeira e falei: ‘os meus avós vão cair, tenho que buscá-los’ e calculei cada passo que eles davam. Me desliguei um pouco nesse momento, para ficar atenta a eles, que são uma responsabilidade muito grande”, relata.
Ela afirma que não esperava ouvir palavras tão bonitas dos jurados, que ela avalia que também se estenderam para os profissionais de saúde, para os idosos que ela cuida e “para todos os venezuelanos que estão espalhados por muitos países para sustentar suas famílias na Venezuela”.
“Foi um reconhecimento muito bom. Para mim, na verdade, foi um grande prêmio”, diz.
Os antigos pacientes
Rosa diz que se sente muito orgulhosa dos venezuelanos, da solidariedade deles e da capacidade que têm de “se unir e celebrar as conquistas de outros”.
Ela sabe que o “enorme sacrifício” que passa por estar separada da filha também se repete em muitas histórias de seus compatriotas.
“É algo que os pais não querem fazer, mas que os filhos têm que saber que vamos buscá-los e daremos tudo o que merecem, principalmente o amor que temos contido”, diz.
Ela afirma que fica feliz que sua filha a acompanhou, ainda que a distância, nessa experiência na competição musical. “O que mais quero é que ela veja em mim uma pessoa exemplar, que queira ser como eu”.
Diante da grande repercussão que a audição gerou nas redes sociais, muitas pessoas entraram em contato com ela.
“No momento, estou recebendo mensagens dos pacientes com câncer”, diz.
“Eu me perguntava o que teria acontecido com eles, talvez tivessem morrido e eu não fiquei sabendo. Mas não. Eles estão vivos!”, comemora.
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“Por exemplo, a família de um dos meus pacientes com leucemia conseguiu levá-lo para a Itália para um transplante de medula e ele me escreveu: ‘lembra de mim? Você me colocou em muitas quimioterapias. Continuo na Itália.’ Comecei a chorar de alegria”.
“Admiro os pacientes com câncer. Eles são uma inspiração, porque não existe pessoa mais próxima da morte do que um paciente com câncer, mas não há pessoa que ame mais a vida do que um paciente com câncer. Ele a ama mais do que uma pessoa que está saudável,e tem muita esperança e vontade de viver”.
“Para eles, o meu respeito e o meu agradecimento por terem me ensinado a apreciar e a amar a vida e por terem me ensinado que existem milagres”.
Enquanto espera a semifinal da competição, Rosa continua em seus trabalhos com idosos. Ela sonha em seguir para a final da disputa e procura uma forma de reencontrar a filha.
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