A chave da cidade agora é de Momo, rei que transforma o balé urbano em folia expansiva


Rei Momo, Rainha e Princesas do carnaval do Rio 2020
Raoni Alves/G1
Eu, se fosse o Rei Momo, reclamaria ao receber as chaves da cidade do Rio de Janeiro. Anda uma desordem só. Primeiro, pelo número crescente de pessoas que não têm onde morar e se espalham pelo chão do Centro, o coração de toda cidade. Isto deixa à mostra a mazela mais profunda, o fosso entre pobres e ricos.
Mas não é só. A cidade tem poucas árvores. Muitas centenas se foram este ano por conta de tempestades, mas também porque delas não cuidam direito. E falta de árvores enfeia as ruas, aumenta o calor. Ah, tem também a água que se bebe, que ainda não se sabe se está boa ou ruim para o consumo. Como explicar isto aos turistas?
Mas é carnaval, tempo de deixar de lado os entraves e abrir coração para a alegria, certo? Não para quem não gosta de tanta agitação, de ver sua rua se transformar, o balé urbano se tornar um frenesi, pessoas vindas de outras partes cruzarem sua fronteira.
É com você, caro leitor não folião, que vou conversar agora. Se quer fugir da folia e não pode sair da cidade, a boa notícia é que vem chegando uma frente fria e vai baixar um pouco a canícula. Assim ficará mais fácil não sair de casa. Para o entretenimento, claro que sempre há a televisão. Mas os livros… ah, os livros. Esses são e serão companheiros de todas as horas, que não nos abandona mesmo num pique de luz (frequentes em temporais), desde que se tenha uma boa lanterna.
Para ficar no tema urbanidade, sugiro a leitura de “Morte e vida de grandes cidades” (Ed. Martins Fontes). Jane Jacobs, a autora, morreu aos 90 anos, em 2006, e esta é sua obra mais conhecida. Não é nem um pouco arrogante chamar de obra porque ele ainda hoje pode e é acessado até mesmo pelos jovens estudantes que querem conhecer os alicerces do planejamento urbano moderno.
Moradora do Greenwich Village, a tradicional área residencial de Nova York, Jacobs vai envolvendo o leitor a partir de suas próprias histórias, como espectadora e protagonista do que chama um “balé urbano”, expressão riquíssima e cheia de significados que adotei para dar título a este texto. Crítica ferrenha do processo de civilização que pode levar bairros à decadência, a autora relata em primeira pessoa sua experiência como moradora, traz para um patamar de debate analítico profundo questões enfrentadas por todos nós, citadinos às voltas com a necessidade de melhorar nossa qualidade de vida.
Jane Jacobs defende a diversidade, para ela o único meio capaz de manter a vitalidade urbana. Critica as cercas, os condomínios fechados, e sugere uma reflexão sobre este “normal” que se torna sonho de todos: uma casa protegida por cercas, um gramado artificial, uma arrumação que transporta para a assepsia. Mesmo que, no entorno, tudo esteja ruindo, a pessoa se sente, assim, única em seu mundo idealizado.
“Mantém-se o resto da cidade fora desses arrabaldes cegos? É difícil e desagradável. Convida-se o resto da cidade para o local? É difícil e inviável”, escreve Jacobs.
A autora fala em “ordem complexa” sob a aparente “desordem da cidade tradicional” e convida a refletir sobre o uso das calçadas, não em condomínios fechados, mas em bairros que possam viabilizar este ir e vir de pessoas. A cada hora, um grupo, um estilo. Os(as) trabalhadores(as) pela manhã, quer sejam em ternos ou uniformes, acompanhados por jovens estudantes que saem às pressas, geralmente comendo algo e vestindo a última peça enquanto caminham. As donas de casa, que saem no meio da manhã para as compras no mercado e, ás vezes, “param para uma conversa rápida cheia de risadas ou de indignação solidária, parece que nunca um meio termo”. As babás que aproveitam o sol para passear com os carrinhos. E, no fim da tarde, o grupo dos trabalhadores de volta, os estudantes do horário noturno, os jovens que saem para namorar, encontrar, zoar. Até que as calçadas vão ganhando o entorno da noite alta, quando tudo pode acontecer, e nada.
“O balé da boa calçada urbana nunca se repete em outro lugar, e em qualquer lugar está sempre repleto de novas improvisações”, escreve Jane Jacobs.
Com este espírito, que não dialoga em nada com a arquitetura limpa, saneada e organizada de Le Corbusier, arquiteto franco-suíço que viveu de 1887 a 1962 e influenciou bastante a arquitetura brasileira, Jane Jacobs vai costurando a possibilidade de se viver entre desiguais. Não há harmonia organizada como bônus. A resposta é vida.
Jane Jacobs escreve sobre um estudo feito em Pittsburgh, possivelmente nos idos de 50, quando ela escreveu sua obra, que chegou à “embaraçosa conclusão de que a delinquência era mais alta nos conjuntos habitacionais novos, onde havia melhorias’.
“Será que isso significa que moradias melhores aumentam a criminalidade? De modo algum. Significa, porém, que outras coisas podem ser mais importantes que a habitação, e também que não existe nenhuma relação direta e elementar entre boa moradia e bom comportamento, fato que toda a história da civilização ocidental deveria ter tornado evidente há muito tempo”, escreve ela.
Como os leitores podem conseguir perceber pelos pontos que ofereci aqui (o livro tem 499 páginas substanciais), é uma oportunidade muito rica para ampliar os pensamentos sobre o modo urbano que nos envolve. Assim, deixo com vocês uma chance de boas reflexões enquanto a folia nos ronda. Bom carnaval!