‘4 x 100 – Correndo por um sonho’ une Thalita Carauta e Fernanda de Freitas em drama comovente sobre esporte feminino


Longa de Tomás Portella toca em feridas de atletas brasileiras, com discussões sobre racismo, desigualdade e falta de incentivo ao esporte. Atrizes contam ao G1 sobre preparação e dores. O esporte é imprevisível e, muitas vezes, injusto. Sua equipe pode ter sido a melhor de sua bateria e obtido tempo de classificação para as Olimpíadas, mas um pequeno deslize pode adiar o sonho e a grande chance de uma equipe inteira. Foi o que aconteceu com a equipe brasileira do revezamento 4×100 no início de maio e elas ficaram de fora das Olimpíadas de Tóquio.
Por uma infeliz coincidência, também é o tema do filme “4×100 – Correndo por um sonho”, gravado pelo diretor Tomás Portella em 2017, muito antes do infortúnio das atletas brasileiras. Ele estreou nos cinemas nesta quinta (24), menos de um mês após a desclassificação.
O longa mostra como se supera um incidente e uma desclassificação. E o impacto disso na vida de diferentes atletas. A equipe de protagonistas é formada por Rita (Roberta Alonso), Maria Lúcia (Fernanda de Freitas), Adriana (Thalita Carauta), Sofia (Priscila Steinman) e Jaciara (Cintia Rosa).
Cintia Rosa, Roberta Alonso, Augusto Madeira, Fernanda de Freitas, Priscila Steinman e Thalita Carauta no filme ‘4×100’
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Ele existe como uma ideia há mais de 10 anos, pensado por Roberta Alonso. Três anos depois, o diretor Tomás Portella entrou no projeto e a equipe de roteiro iniciou a pesquisa. Foram meses de entrevistas com atletas, ex-atletas e treinadores, anos de batalha por captação de recursos e quatro semanas e meia de filmagens.
“Fizemos milhões de entrevistas, cada história de superação, como essas pessoas no esporte têm que se virar para conseguir seguir na carreira, né. E a gente se apaixonou pelo 4×100. E junta aquele bando de Romário porque não tem meio de campo, todo mundo é atacante, corre o seu individual”, conta Portella ao G1.
As cinco personagens representam todas as mazelas de ser atleta e mulher no Brasil: a idade avançada e a queda no rendimento, doping, pressão pela maternidade e escolha de não ser mãe, pessoas que se lesionam e não recebem apoio do clube para a recuperação, a pressão do início da carreira; o racismo na busca por patrocínio; a culpa pela derrota da equipe.
Trailer de ‘4×100 – Correndo por um sonho’
A primeira barreira que une todas as mulheres no esporte é o machismo. “Eu acho que a coisa de ser mulher por si só. No filme tem um repórter até que vai perguntar para o nosso treinador qual é a diferença de treinar as equipes masculina e feminina e ele diz: ‘a diferença é que, quando eu treinava os homens, não precisava responder esse tipo de pergunta’. Que é aquela coisa do machismo inserido na nossa sociedade, como se tivesse alguma diferença, como se a equipe feminina fosse mais difícil ou pior de treinar. São questionamentos que a gente infelizmente ainda ouve”, diz Freitas.
A atriz sofre, na vida pessoal, o drama de outra personagem do filme: a cobrança por filhos. “Até hoje as pessoas perguntam ‘mas, e aí, você não vai ter filho?’. E eu falo ‘olha, nunca foi de fato um grande sonho’. É uma pergunta recorrente não só em entrevista, mas no meu dia a dia. E muita gente cobra isso, fala que não posso passar por essa vida sem ter essa experiência. Mas para ser mãe tem que ter muita vontade”, conta.
Já a personagem de Thalita Carauta enfrenta o racismo no esporte, outro drama com um paralelo real e recente muito forte: do ginasta Angelo Assumpção, sem clube há um ano e meio.
“É exatamente isso [que acontece]. Enquanto a Maria Lúcia, personagem da Fernanda, é uma mulher branca, loira e está ali tirando fotos, com muitos contratos, a Adriana, minha personagem, é uma atleta negra e que se ferrou, sequer teve um apoio e foi jogada para escanteio. Então que bom que o filme aborda isso né, que bom que o filme mostra as coisas como realmente são.”
Atrizes também treinam e choram de dor
Atrizes treinaram e se lesionaram para gravar filme ‘4×100 – Correndo por um sonho’
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Para correr 100m ou 200m, é preciso muita força. E para interpretar uma atleta de alto rendimento, um físico que convença sobre essa força.
As atrizes passaram por uma dieta de proteína e treinos intensos de musculação. Depois de dois meses de preparação, elas passaram um mês no NAR-SP (Núcleo de Alto Rendimento de São Paulo), onde atletas profissionais suam todos os dias.
A experiência deixou alguns hematomas de lembrança. “Como a gente gravava muitas cenas de corrida, a gente realmente corria muito. Então a gente precisava de uma assistência no set. A gente teve dublê, mas usou muito pouco, em momentos que estávamos realmente machucadas”, conta Carauta.
“Eu descobri o que é canelite em 2017, quando filmamos. É uma dor insuportável, às vezes eu não conseguia botar o pé no chão. Tivemos que recorrer a fisioterapia, acupuntura, banheira de gelo. Então, tudo que um atleta tem direito, a gente passou ali pelo no processo de preparação do filme”, diz Freitas.
Mas o laboratório foi fundamental para que as atrizes moldassem também as personalidades dessas mulheres reais.
“Junto com a gente, estavam as nossas dublês e as meninas que iriam correr nas raias com a gente. Elas são atletas de fato, possivelmente algumas podem estar até nessas Olimpíadas. E as histórias de vida delas foram muito inspiradoras para nós porque vimos por tudo que elas passam, a dificuldade do esporte, principalmente as mulheres, né? Tem muito pouco investimento para o atletismo em geral, mas o feminino sobretudo. E muitas vezes são atletas que vêm de famílias pobres, que precisam de muita garra para vencer na vida” conta Fernanda.
Esporte = esperança
Thalita Carauta, Fernanda de Freitas e Priscila Steinman no filme ‘4×100 – Correndo por um sonho’
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A jornada das atletas no longa é emocionante porque mostra a força individual e coletiva que o esporte mobiliza. E a esperança que ele é capaz carregar, também individual e coletiva. A equipe acredita que, mesmo em meio à pandemia, as Olimpíadas conseguirão unir e levar alegria aos brasileiros.
“No momento que a gente está vivendo, eu acho que qualquer coisa que as pessoas possam torcer pelo Brasil, qualquer coisa que a gente possa ver uma possibilidade do Brasil vencer… a gente está sedento por ver coisas que nos emocionem, que façam a gente acreditar, que façam a gente torcer.”
O atletismo, tanto masculino quanto o feminino, são promessas do Brasil nesses jogos olímpicos. Sobre as atletas desclassificadas do 4×100, o diretor Tomás Portella tem certeza que a vitória e a esperança virão. “É uma fatalidade, faz parte do esporte, espero que elas consigam força para superar. É muito duro, mas elas têm muito potencial. Essa medalha do 4×100 feminino vai sair, mesmo que daqui a 4 anos. Temos grandes atletas, que superaram muitas coisas.”
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