Zélia Duncan milita no álbum ‘Pelespírito’ com os olhos no mundo e os ouvidos no universo folk


Afinado com a alma ativista da artista, o delicado disco apresenta 15 músicas da compositora fluminense em parceria com o pernambucano Juliano Holanda. Capa do álbum ‘Pelespírito’, de Zélia Duncan
Desenho de Zélia Duncan com direção de arte de Flávia Pedras Soares e design de Pedro Colombo
Resenha de álbum
Título: Pelespírito
Artista: Zélia Duncan
Edição: Duncan Discos / Universal Music
Cotação: * * *
♪ “Tô em casa / Tô na causa / […] / Sem tirar os olhos do mundo”, avisa Zélia Duncan em versos da letra de Pelespírito, música-título do 14º álbum de estúdio da discografia dessa artista fluminense que entrou em cena em 1981 – ou 15º se posto na conta o coletivo álbum-manifesto Eu sou mulher, eu sou feliz (2019), orquestrado por Zélia com Ana Costa.
Sim, Zélia Duncan está na causa, em defesa de um Brasil com mais saúde e justiça social, e o álbum Pelespírito se afina com a alma ativista da artista.
Em rotação nos players digitais desde sexta-feira, 21 de maio, uma semana antes da data anunciada pela gravadora Universal Music, o disco apresenta 15 músicas criadas por Zélia com o compositor pernambucano Juliano Holanda, de quem a cantora já havia gravado a inspirada canção O que mereço (2019) no álbum Tudo é um (2019).
A propósito, há conexão entre os álbuns Pelespírito e Tudo é um porque, embora haja sutil diversidade rítmica na apresentação das 15 músicas (sendo 14 inéditas), o disco gravita basicamente em torno do universo pop folk, mote de álbuns anteriores da artista, como o definidor Zélia Duncan (1994), mola propulsora de carreira que totaliza 40 anos em 2021.
Ambientado em tempo de delicadeza que por vezes parece passar arrastado na segunda metade do álbum, Pelespírito está centrado no violão de Zelia, tendo sido formatado virtualmente entre as cidades de São Paulo (SP), Recife (PE), Curitiba (PR), Rio de Janeiro (RJ) e Londres, na Inglaterra.
É em Londres que reside atualmente Christiaan Oyens, parceiro fundamental de Zélia nos anos 1990. Em Pelespírito, Oyens é multi-instrumentista de várias faixas e arranjador de músicas como a suave canção Raio de neon – única composição feita antes do isolamento social que alavancou em 2020 a parceria de Zélia Duncan com Juliano Holanda – e a questionadora Viramos pó?, música aliciante cujo tom é puxado para o country-folk.
O repertório do álbum Pelespírito reflete impressões, indagações – O que se perdeu?, pergunta a cantora já no título de uma das 15 músicas – e indignações dos compositores na pandemia.
Canção que brinca na boca, como diz a letra, Onde é que isso vai dar? – previamente apresentada em single editado em 5 de maio – é a grande música do álbum produzido por Zélia Duncan com Juliano Holanda e com Webster Santos, cuja guitarra sobressai na primeira faixa do disco, a já mencionada canção-título Pelespírito.
A propósito, citando verso da letra dessa também inspirada canção, Zélia Duncan nada de braçada nas palavras escritas para as músicas de Juliano Holanda.
São palavras simples que mandam os recados de forma direta sem pretender forjar erudição. Palavras afinadas com o discurso de disco militante que, na canção Você rainha, encoraja mulheres na luta redobrada nestes tempos pandêmicos, em link afetuoso com o tom feminista do já mencionado álbum manifesto Eu sou mulher, eu sou feliz.
O afeto feminino também pauta Nossas coisinhas, canção-relicário dedicada por Zélia à companheira Flávia Soares, responsável pelo conceito artístico da parte gráfica do disco.
Zélia Duncan firma parceria com Juliano Holanda no álbum ‘Pelespírito’, lançado em 21 de maio
Denise Andrade / Divulgação
A questão – prejudicial ao conjunto da obra apresentada no álbum Pelespírito – é que o pulso poético por vezes abafa o pulso melódico, problema já detectado no álbum mais recente de Juliano Holanda, Por onde as casas andam em silêncio (2021), lançado em fevereiro, mês em que também chegou ao mercado o último álbum de Zélia, Minha voz fica (2021), tributo ao cancioneiro de Alzira E, compositora sul mato-grossense mais associada atualmente à cena musical paulistana.
Curiosamente, o sertão pantaneiro evocado pelo toque da viola de Webster Santos na gravação da canção Tudo por nada evoca parte da obra de Alzira Espíndola.
Música que segue o chamado do acordeom de Léo Brandão, Vou gritar seu nome destila o romantismo embebido em certa melancolia potencializada pela incerteza do futuro. Também perceptível no folk’n’roll Nas horas cruas, a inserção das relações amorosas em contexto sócio-político é uma das marcas do álbum Pelespírito em sintonia com o momento do mundo.
Relicário de sentimentos de Zélia Duncan, o disco persegue a pegada do blues, dentro da atmosfera do folk, em Sua cara – homenagem da letrista ao pai, morto em dezembro de 2020 – e se consola com a transitoriedade das coisas e das pessoas em Passam, 10ª faixa de álbum que às vezes soa longo, embora a leveza do canto e dos arranjos atenue essa sensação persistente a partir da sétima faixa.
Única música já pré-existente, tendo sido gravada por Elba Ramalho no ano passado como faixa-título do mais recente álbum da cantora paraibana, a fraterna canção Eu e vocês é daquelas baladas simples feitas “para suavizar a alma”, como diz a letra, e gerar coros em luaus e rodas de violão. Já Eu moro lá cai no suingue das cordas tocadas por Webster Santos sem deixar de soar dispensável no disco.
No fim, Vai melhorar – canção gravada com os toques do baixo e da percussão de Ézio Filho – fecha o álbum Pelespírito com sopro de esperança que reitera a habilidade de Zélia Duncan para estruturar um disco conceitual com começo, meio e fim.
Tá osso viver no Brasil em 2021, mas Zélia Duncan – com os olhos no mundo e os ouvidos no universo folk – faz a parte da artista com Pelespírito, álbum militante que, pelo sabor do gesto, merece atenção.