Zélia Duncan exprime coerência ao cantar Alzira E em disco que revela o violonista Pedro Franco


Capa do álbum ‘Minha voz fica – Zélia Duncan e Pedro Franco tocam Alzira E’
Arte de Pedro Colombo
Resenha de álbum
Título: Minha voz fica – Zélia Duncan e Pedro Franco tocam Alzira E
Artistas: Zélia Duncan e Pedro Franco
Gravadora: Joia Moderna
Cotação: * * * 1/2
♪ O álbum em que Zélia Duncan aborda a obra da compositora Alzira E, com o toque firme do violonista Pedro Franco, resulta sem cacife para alcançar o caráter antológico das incursões da artista fluminense pelos cancioneiros dos compositores paulistanos Luiz Tatit – em Totatiando (2011) inovador espetáculo de arquitetura teatral, eternizado em DVD em 2013 – e Itamar Assumpção (1949 – 2003).
Ao dar voz pop a Itamar no álbum Tudo esclarecido (2012), Zélia Duncan abriu janela que permitiu a fruição da obra do artista sem a maldição que sempre rondou o cancioneiro vanguardista do compositor.
No mercado fonográfico a partir de 5 de fevereiro, por ora somente em edição digital da gravadora Joia Moderna, o álbum Minha voz fica – Zélia Duncan e Pedro Franco tocam Alzira E pode ser entendido como a terceira parte de trilogia paulistana da cantora.
Até porque, embora Alzira Espíndola tenha nascido em Mato Grosso do Sul, a compositora sempre esteve mais identificada com a sonoridade de São Paulo (SP) – cidade onde reside há décadas – do que com o universo musical pantaneiro da irmã Tetê Espíndola (eventualmente visitado por Alzira).
Só que, ao cantar Alzira E, Zélia Duncan transita por caminhos já percorridos, sem iluminar recantos escuros, como fez com a obra de Itamar. Ainda assim, é luminoso o ponto de partida do disco com Cheguei (Alzira E e Tiganá Santana, 2017), canção de beleza melódica abafada pelo estrondo roqueiro do afiado álbum, CORTE (2017), que juntou Alzira E com músicos do Bixiga 70.
Na sequência, Beijos longos (Alzira E, arrudA e Jerry Espíndola, 2011) – faixa previamente apresentada como single em 29 de janeiro – mantém o álbum em tempo de delicadeza reiterado em canções posteriores como Se parece com você (Alzira E e arrudA, 2011), outro instante de beleza do disco, inclusive pelo toque suave do bandolim de Pedro.
Já a gravação de O que me levanta a saia (Alzira E e Alice Ruiz, 2021) – uma das quatro músicas inéditas apresentadas ao longo das 12 faixas do disco produzido por Ana Costa e (bem) mixado por Leonardo Moreira – aponta a manutenção da temperatura do álbum Minha voz fica, problema já recorrente em Invento + (2017), álbum em que Zélia Duncan abordou a obra de Milton Nascimento com o toque do violoncelo de Jaques Morelenbaum.
Por mais que o pulso da composição Mesmo que mal eu diga (Alzira E e Itamar Assumpção, 2011) seja intrinsecamente roqueiro, há certa linearidade nos registros de canções como Ouvindo Lou Reed (Alzira E e arrudA, 2007) e Tecnocólera (Alzira E e arrudA, 2007), músicas lançadas pela homenageada compositora no álbum Alzira E (2007), de cujo repertório Zélia também pesca Vai que (Alzira E e arrudA, 2007), em cuja gravação Pedro Franco acrescentou o toque do baixo.
Pedro Franco e Zélia Duncan abordam 12 músicas da compositora Alzira E em disco produzido por Ana Costa
Pedro Colombo / Divulgação
Músico gaúcho de 29 anos, Pedro Franco é a grande revelação do álbum Minha voz fica, quarto e último título do projeto Joia ao vivo, desenvolvido para a gravadora Joia Moderna com curadoria do DJ Zé Pedro e Marcio Debellian.
Seguro ao violão, instrumento que conduz disco também gravado com toques eventuais de baixo, bandolim, guitarra e violino (tudo a cargo do jovem virtuoso músico), Pedro Franco “deitou, rolou e se inspirou” nos riffs do cancioneiro de Alzira E – como celebra Zélia Duncan no texto que escreveu para apresentar o disco.
Sim, riffs. A obra de Alzira E tem pegada. Há toda uma fricção entre músicas e letras embebidas em poesia. Não à toa, Itamar Assumpção virou parceiro da compositora.
Desta parceria, reunida por Alzira no álbum O que vim fazer aqui (2014), Zélia também regrava O que é que eu fiz de mal (2014), mostrando pleno domínio da sintaxe do cancioneiro de Itamar.
Do lote de inéditas, A solidão (2021) – parceria de Alzira com Lucina – se mostra menor no conjunto das obras das autoras. Já Sonhei – música assinada por Alzira com o poeta arrudA e incrementada no disco com o toque de bandolim – remete belamente ao universo pop folk que norteou a discografia de Zélia Duncan nos anos 1990 e em álbuns posteriores como o afetuoso Tudo é um (2019).
Com clima de fim de festa, a canção Fica arremata bem o disco, apresentando a primeira parceria de Alzira E com Zélia Duncan.
Ouvida há 40 anos, mas projetada nacionalmente a partir de 1994, a voz grave de Zélia Duncan – cantora que gravou Alzira E pela primeira vez no show eternizado no DVD Pré-pós-tudo-bossa-band (2007), apresentando a então inédita Chega disso (Alzira E e arrudA, 2007) – realmente há de ficar e ressoar em outros tempos porque, mesmo sem caráter antológico, o álbum Minha voz fica exprime coerência com a ideologia da artista, ativista na vida e na música.