Zélia Duncan esfrega a vida na cena solidária do show ‘Pelespírito’


Zélia Duncan no show ‘Pelespírito’, baseado no álbum com parcerias da artista com Juliano Holanda
Reprodução / Vídeo
Resenha de show a partir de transmissão ao vivo pela internet
Título: Pelespírito
Artista: Zélia Duncan
Local: Teatro Prudential (Rio de Janeiro, RJ)
Data: 19 de junho de 2021
Cotação: * * * *
♪ “Quanto mais morte, mais a gente esfrega a vida na ruas”, avisou Zélia Duncan no palco do Teatro Prudential, na noite de 19 de junho, na estreia do inédito show Pelespírito, transmitido ao vivo da cidade do Rio de Janeiro (RJ).
Emocionada, a fala da artista fluminense aludiu ao fato de que, ao longo do sábado, as ruas de várias cidades do Brasil tinham sido ocupadas por multidões indignadas com a política de negação do presidente Jair Bolsonaro diante da pandemia do covid-19, doença responsável pelas 500 mil mortes ocorridas no país – marca trágica atingida no fim de semana em que Zélia pôs o show Pelespírito em cena.
Sem dar nome ao boi, Zélia também fez do show um protesto, um grito de “fora Bolsonaro”, reiterando que está na causa, como explicita em verso da canção Pelespírito, música-título do álbum e do show em que apresentou 15 composições da parceria firmada com o artista pernambucano Juliano Holanda.
Na cena solidária do show Pelespírito, belamente iluminada e emoldurada pelas 15 caixas com plantas vivas que compuseram o delicado cenário criado pela designer Flávia Pedras Soares, a cantora deu voz às 15 músicas do disco entre sucessos de trajetória profissional que contabiliza 40 anos em 2021.
Misturado em meio aos sucessos de Zélia (muitos redimensionados na teia sensível do roteiro), o repertório do álbum Pelespírito cresceu no show, como atestaram as interpretações de músicas como Eu moro lá e Passam, diluindo certa irregularidade perceptível no disco.
Com figurino elegante, Zélia Duncan se apresentou sempre sentada, cantando e tocando violão, ladeada por Webster Santos e pelo próprio parceiro Juliano Holanda, ambos também aos violões. Esse afinado trio de violões de aço e nylon evidenciou e potencializou a essência folk do cancioneiro do álbum Pelespírito e, de modo geral, da discografia da artista.
Entre indagações expostas já nos títulos de algumas canções compostas com Juliano Holanda (O que se perdeu? e Onde é que isso vai dar?, destaque do jorro autoral do álbum recém-lançado em 21 de maio), Zélia rebobinou a música mais conhecida da parceria com Mart’nália, Benditas (2004), e declarou o amor pela namorada Flávia Pedras Soares através das canções Nossas coisinhas (Juliano Holanda e Zélia Duncan, 2021) e Tudo sobre você (John Ulhoa e Zélia Duncan, 2009), sutilmente alocadas lado a lado no roteiro.
Momento agregador da apresentação virtual, a propagação da união fraterna em Eu e vocês – música de Zélia com Juliano Holanda apresentada na voz de Elba Ramalho como faixa-título do álbum lançado pela cantora em novembro de 2020 – reiterou o caráter humanista do show.
Em cena, esse humanismo foi traduzido tanto pela delicadeza com que Zélia cantou Catedral (Cathedral song, Tanita Tikaran, 1988, em versão em português de Christiaan Oyens, 1994) – em instante de beleza antecedido no roteiro pela citação de trecho de canção inédita que versava sobre lua no deserto – como pela acentuação do verso “Na medida do impossível” na interpretação de E lá vou eu (1975), música de Rita Lee que Zélia incorporou ao próprio repertório, com propriedade, a partir da gravação no álbum autoral de 1994 que deu visibilidade nacional à carreira iniciada pela artista em Brasília (DF) em 1981.
Por se tratar de show comemorativo dos 40 anos de trajetória profissional da cantora, a inclusão no roteiro de canção menor na obra da compositora – Primeiro susto, parceria com Lucina gravada por Zélia no álbum Intimidade (1996) – se justificou pelo fato de a letra reavivar sensações da cantora na primeira apresentação, feita com “medo do público e do silêncio”, como Zélia relatou na emocionada fala inicial do show.
Entre músicas menores (Nas horas cruas) e maiores (Viramos pó? – cujo grande poder de sedução, já evidenciado no disco Pelespírito, foi confirmado no show), Zélia se mostrou sempre na causa.
Após Isso não vai ficar assim (1983), música de Itamar Assumpção (1949 – 2003) que a cantora iluminou em álbum de 2012 dedicado à obra do compositor paulista, dando dica seguida no ano seguinte por Ney Matogrosso no show Atento aos sinais (2013), Zélia leu texto de acidez turbinada pelos ruídos da ambientação noise desse momento militante do show. Dirigido a quem Zélia não ousou dizer o nome, o texto corrosivo foi a deixa para a lembrança do samba Antes do mundo acabar (2015), parceria com Zeca Baleiro.
A sutil alteração em versos de Alma (Pepeu Gomes e Arnaldo Antunes, 2001) – “Já passou o meu temor do seu medo / Sem motivo…” virou “Não passou o meu temor do seu medo / Com motivo… ” – corroborou o tom político desse show em que Zélia também pôs cacos entre os versos de Pagu (Rita Lee e Zélia Duncan, 2000) para consertar as incorreções políticas de letra escrita há 21 anos, em tempos de menor vigilância.
Pagu encerrou bloco feminista em que Zélia alinhou Você rainha (2021) – canção da safra com Juliano Holanda apresentada no álbum Pelespírito – e Saias e cor (Ana Costa e Zélia Duncan, 2021), música defendida por Isabella Taviani.
No arremate do show, com a canção Vai melhorar (2021), a cantora bafejou o mesmo sopro de esperança que exalou ao fim do disco Pelespírito. O fecho soou coerente com o tom engajado de apresentação em que Zélia Duncan esfregou a vida na cena solidária do show Pelespírito.
Zélia Duncan com Webster Santos (à esquerda) e Juliano Holanda no show ‘Pelespírito’
Reprodução / Vídeo
♪ Eis as 27 músicas do roteiro seguido em 19 de junho de 2021 por Zélia Duncan com os músicos Webster Santos (à esquerda) e Juliano Holanda na estreia do show Pelespírito no Teatro Prudential, na cidade do Rio de Janeiro (RJ):
1. Pelespírito (Juliano Holanda e Zélia Duncan, 2021)
2. Onde é que isso vai dar? (Juliano Holanda e Zélia Duncan, 2021)
3. Tudo por nada (Juliano Holanda e Zélia Duncan, 2021)
4. O que se perdeu? (Juliano Holanda e Zélia Duncan, 2021)
5. Benditas (Mart’nália e Zélia Duncan, 2004)
6. Nossas coisinhas (Juliano Holanda e Zélia Duncan, 2021)
7.Tudo sobre você (John Ulhoa e Zélia Duncan, 2009)
8. Eu e vocês (Juliano Holanda e Zélia Duncan, 2020)
9. Canção inédita /
10. Catedral (Cathedral song, Tanita Tikaran, 1988, em versão em português de Christiaan Oyens, 1994)
11. E lá vou eu (Rita Lee, 1975)
12. Vou gritar seu nome (Juliano Holanda e Zélia Duncan, 2021)
13. Primeiro susto (Lucina e Zélia Duncan, 1996)
14. Sua cara (Juliano Holanda e Zélia Duncan, 2021)
15. Viramos pó? (Juliano Holanda e Zélia Duncan, 2021)
16. Nas horas cruas (Juliano Holanda e Zélia Duncan, 2021)
17. Isso não vai ficar assim (Itamar Assumpção, 1983)
18. Antes do mundo acabar (Zeca Baleiro e Zélia Duncan, 2015)
19. Eu moro lá (Juliano Holanda e Zélia Duncan, 2021)
20. Passam (Juliano Holanda e Zélia Duncan, 2021)
21. Você rainha (Juliano Holanda e Zélia Duncan, 2021)
22. Saias e cor (Ana Costa e Zélia Duncan, 2019)
23. Pagu (Rita Lee e Zélia Duncan, 2000)
24. Raio de neon (Juliano Holanda e Zélia Duncan, 2021)
25. Dor elegante (Itamar Assumpção e Paulo Leminski, 1998)
26. Alma (Pepeu Gomes e Arnaldo Antunes, 2001)
27. Vai melhorar (Juliano Holanda e Zélia Duncan, 2021)