Xande de Pilares, bamba equilibrista, se deixar levar pelos braços e gostos do povo em gravação de show


Aos 50 anos, o cantor e compositor carioca agrega gerações de sambistas no primeiro registro audiovisual ao vivo desde que saiu do grupo Revelação. Capa do álbum ao vivo “Nos braços do povo”, de Xande de Pilares
Guto Costa
Resenha de álbum ao vivo e DVD
Título: Nos braços do povo
Artista: Xande de Pilares
Gravadora: Universal Music
Cotação: * * * 1/2
♪ Nos braços do povo. O coro espontâneo do público no canto do iluminado samba Tá escrito (Xande de Pilares, Carlinhos Madureira e Gilson Bernini, 2009) – antes mesmo de Xande de Pilares pisar no palco em que gravou o primeiro DVD da carreira solo – justifica o título populista do primeiro registro audiovisual de show feito por Alexandre Silva de Assis.
Ao longo dos 31 números da apresentação filmada em 22 de novembro de 2019, em grande casa de shows da zona oeste do Rio de Janeiro (RJ), o cantor, compositor e músico – tocador de cavaquinho, como visto no medley em que o artista carioca entra na roda da Bahia para emendar o tema tradicional Marinheiro só com o samba Cada macaco no seu galho (Riachão, 1972) – se deixa levar pelos braços (e gostos) do povo que o legitima desde os anos 1990, validando trajetória iniciada em 1986 nos pagodes do bairro carioca Engenho da Rainha.
Perto dos 51 anos, a serem festejados em 25 de dezembro deste ano de 2020, Xande de Pilares foi o último fruto dos quintais em que, no alvorecer da década de 1980, brotou o grupo Fundo de Quintal. Despontou duas gerações depois, mas soube fazer o link ao abrir parceria com Arlindo Cruz, bamba da turma original avalizada por Beth Carvalho (1946 – 2019) a partir de 1978.
Foi sintomático, aliás, que a gravação do Samba de Arerê (Xande de Pilares, Arlindo Cruz e Mauro Júnior, 1999) por Beth Carvalho, no álbum Pagode de mesa – Ao vivo (1999), tenha gerado o primeiro grande sucesso da cantora na década de 1990 após anos de ausência no topo das paradas. Samba de Arerê foi o cartão de visitas de Xande de Pilares no mundo do samba e, não por acaso, encerra o primeiro DVD solo do artista.
No álbum ao vivo Nos braços do povo, cujo primeiro dos dois volumes já está disponível em edição digital com 17 dos 31 números do show, Xande de Pilares condensa quase 35 anos de trajetória, se equilibrando na corda bamba entre o samba mais alinhado com o pagode carioca dos anos 1980 e o pagode romântico que brotou sobretudo no asfalto de São Paulo a partir dos anos 1990.
A influência da geração carioca do Cacique de Ramos no samba de Xande é exemplificada pelo medley em que o anfitrião recebe o compadre Marcelinho Moreira para agregar O dia se zangou (Mauro Diniz e Ratinho, 1985) e o partido alto Chora viola (Carlito Cavalcanti e Nilton Santa Branca, 1978), sucessos de Jovelina Pérola Negra (1944 – 1998) e Martinho da Vila, respectivamente.
Só que o fato de a direção musical do álbum Nos braços do povo ter sido confiada a Wilson Prateado às vezes tende a balança para esse pagode de cepa menos nobre. Brisa (Alex Sereno, Rhuan André e Claudemir), um dos sambas inéditos do farto roteiro do show, sopra nessa direção, para citar um exemplo.
Em contrapartida, o também inédito samba Minha opinião (Xande de Pilares) pede passagem nas rodas mais tradicionais com um “lererê” que pode empolgar futuras rodas. No meio do caminho, Xande repõe o sambalanço pop de Seu Jorge na roda quando recebe Pretinho da Serrinha para perfilar A doida (2011), sucesso da lavra de Jorge e Pretinho com Leandro Fab.
Xande de Pilares na gravação do show apresentado em novembro na cidade do Rio de Janeiro (RJ)
Guto Costa / Divulgação
A propósito, o time de convidados carregados por Xande para o álbum Nos braços do povo traduz a dualidade do artista nessa questão de razão menos musical e mais mercadológica. Há a adesão aliciante de Jorge Aragão no canto de Moleque atrevido (Jorge Aragão, Flávio Cardoso e Paulinho Resende, 1998), samba fincado nos terreiros e lançado no toque do grupo Exaltasamba. E há Mumuzinho e Tiee, pagodeiros conectados com gerações mais jovens e reunidos em X da questão.
Entre uma geração e outra, há Diogo Nogueira, cantor que também se equilibra nessa corda bamba para se manter com a agenda cheia. Com Diogo, Xande professa a fé em Deus é mais (Xande de Pilares, Leandro Fab e Ronaldo Barcellos, 2009), samba da lavra do anfitrião lançado há 11 anos na voz do convidado da gravação.
Acima de todos, no universo particular de Xande de Pilares, entra em cena Maura Helena, mãe do artista, para dividir a interpretação do samba intitulado justamente Mãe (Xande de Pilares, Gilson Bernini e Helinho do Salgueiro, 2017). A emoção real do encontro – reprodução ao vivo do dueto originalmente registrado em estúdio por Xande para o álbum anterior Esse menino sou eu (2017) – redime o sentimentalismo entranhado na letra-clichê em que mãe e filho se exaltam mutuamente.
Além de requentar Pão que alimenta (Edson Cortes, Wantuir Cardeal e Binho Sá, 2005) para lembrar compositor (o falecido Edson) ligado ao início da trajetória de Xande no mundo do samba, o cantor rebobina Ah! Como eu amei (Jota Velloso e Ney Velloso, 1981) – sucesso de Benito Di Paula – no tom do pagode romântico, tal como fizera no irregular e já mencionado segundo álbum da carreira solo, Esse menino sou eu (2017), sucessor de Perseverança (2014), disco do qual Xande regrava a música-título, de autoria de Zé Roberto.
Enfim, o álbum ao vivo / DVD Nos braços do povo sintetiza o (relevante) legado de Xande de Pilares no samba entre trocas de figurinos, regravações de composições de lavra alheia (Sempre tem céu azul, composição de Matheus Von Kruger apresentada em show pelo Bangalafumenga em 2011), músicas inéditas – como as medianas Carreira solo (André Renato e Rhuan André) e Tente me perdoar – e sucessos da época do Revelação antes da explosão do grupo, casos de Virou religião (Arlindo Cruz, Mauro Júnior e Xande de Pilares, 2001) e Poder de sedução (Xande de Pilares e Helinho do Salgueiro, 2001).
Nesse clima de comunhão com o público, Xande de Pilares dá o recado com sambas à moda tradicional que ainda mandam nos terreiros – à revelia das imposições mercadológicas – e com pagodes geneticamente modificados, mas que às vezes ganham o povo no canto vivaz de Alexandre Silva de Assis, o bamba equilibrista.