Voz enérgica de Paulinho, marca da longevidade do grupo Roupa Nova, ecoa no coração do Brasil


Morte do cantor carioca joga luz sobre trajetória que começou nos anos 1960 em bandas adolescentes como Red Yellows e Half and Half. ♪ OBITUÁRIO – A morte de Paulo César dos Santos (6 de setembro de 1952 – 14 de dezembro de 2020) – o cantor, compositor e músico carioca conhecido como Paulinho – na noite desta segunda-feira, 14, é duplamente triste.
Primeiro, por interromper a vida de um ser humano aos 68 anos, em plena atividade, por complicações decorrentes de infecção pelo covid-19.
Segundo, porque é o primeiro desfalque na formação imutável do Roupa Nova, grupo carioca do qual Paulinho era percussionista e um dos dois vocalistas principais – em função sempre dividida irmãmente com Sérgio Herval Holanda de Lima, o cantor e baterista conhecido como Serginho.
Caso raro de longevidade no universo pop do Brasil e mesmo do mundo, o Roupa Nova foi formado em 1980 e completou 40 anos em 2020 com a mesma formação. São seis integrantes que sempre se harmonizaram no palco, mesmo que Paulinho e Serginho se destacassem naturalmente no grupo pelo fato de serem os vocalistas.
Serginho tem a voz mais doce. Paulinho tinha o canto mais enérgico e potente, perpetuado em gravações de músicas como Whisky a go go (Michael Sullivan e Paulo Massadas, 1984), Linda demais (Kiko e Tavinho Paes, 1985) e Volta pra mim (Cleberson Horsth e Ricardo Feghali, 1987).
Paulinho, vocalista e percussionista do grupo Roupa Nova, morre aos 68 anos no Rio de Janeiro
Reprodução / Facebook Roupa Nova
Garoto criado no bairro carioca do Catumbi que amou os Beatles quando ouviu um LP da banda inglesa em 1964, aos 12 anos, Paulinho já cantava desde (muito) antes do Roupa Nova. Por se perceber dono de voz especial, Paulinho logo tratou de procurar uma banda em que pudesse cantar antes mesmo de atingir a vida adulta.
Na adolescência, foi crooner de grupos juvenis do subúrbio carioca como a banda Red Yellows e o conjunto Half and Half, no qual ingressou em 1967, aos 15 anos. Neste conjunto de baile, Paulinho atuou pela primeira vez como artista profissional.
Dois anos depois, em 1969, entraria no grupo The Pancho Villas e já teria a companhia do guitarrista Kiko e do tecladista Ricardo Feghali Com o fim desse grupo, Paulinho ingressou em 1976 no grupo de baile Os Famks, embrião do Roupa Nova.
Foi em 1980 que o executivo Mariozinho Rocha – então na gravadora Philips – propôs a troca do nome do grupo. Os Famks deram origem ao Roupa Nova, nome da inédita música de Milton Nascimento e Fernando Brant (1946 – 2015) que, gravada pelo sexteto naquele ano , deu início a uma das carreiras mais bem-sucedidas do pop nacional.
Ao formarem o Roupa Nova, Paulinho e os demais integrantes do grupo se beneficiaram dos ventos que começavam a arejar a música do Brasil com um pop mais jovial, sem a densidade da MPB. O Roupa Nova surgiu nesse contexto, favorecido pela aparição então recentes de bandas como 14 Bis e A Cor do Som, e logo se destacou.
Paulinho e os companheiros de grupo logo se tornaram requisitados músicos de estúdio, gravando em discos de estrelas da MPB como, por exemplo, Gal Costa, cantora que em 1983 regravou a canção Baby (Caetano Veloso, 1968) com o toque do Roupa Nova.
Como vocalista do grupo, Paulinho viveu o auge artístico e comercial nos anos 1980, com álbuns como Roupa Nova (1985), Herança (1987) e Luz (1988). A banda amargou período de menor visibilidade – sempre com a agenda lotada, diga-se – a partir de meados da década de 1990, mas recuperou o fôlego com o disco e show Roupacústico (2004), em que rebobinou o repertório no formato desplugado que movimentava cifras milionárias no mercado de música na época.
Como compositor, Paulinho pouco se destacou no grupo – ofício no qual Cleberson Horsth, Nando, Kiko e Ricardo Feghali sempre se mostraram mais inspirados. Ainda assim, o artista deixa composições como Assim como eu (parceria com Cleberson e com o xará Paulinho Tapajós, de 1983), Só você e eu (parceria com Serginho, de 1988) e Vozes do coração (outra parceria com Serginho, gravada pela apresentadora Angélica em disco de 2001).
Contudo, Paulinho se eterniza mesmo é como cantor. Paulo César dos Santos, voz marcante do Roupa Nova, sai de cena na noite desta segunda-feira, 14 de dezembro de 2020, como um dos cantores mais populares do Brasil, mesmo sem jamais ter esboçado uma carreira solo e mesmo sem ter recebido em vida o devido reconhecimento da nata da MPB e dos críticos, quase todos cegos diante do sucesso perene do Roupa Nova.
Felizmente, o público sempre aplaudiu Paulinho em vida. E por isso a voz do cantor ecoa forte no coração do Brasil.