Vida de Nara Leão é recontada com fluência em outra biografia da artista


Livro do jornalista Tom Cardoso é indicado para quem desconhece a trajetória da combatente cantora, morta em 1989, aos 47 anos. Resenha de livro
Título: Ninguém pode com Nara Leão – Uma biografia
Autor: Tom Cardoso
Edição: Planeta
Cotação: * * *
♪ Para conhecedores da vida e obra de Nara Lofego Leão (19 de janeiro de 1942 – 7 de junho de 1989), a foto de Frederico Mendes exposta na capa da mais recente biografia dessa cantora de origem capixaba e vivência carioca – Ninguém pode com Nara Leão, lançada em 25 de janeiro pela editora Planeta – soa familiar e dá ar déjà-vu ao livro escrito pelo jornalista carioca Tom Cardoso.
Trata-se da foto também exposta na capa do 17º álbum da artista para o mercado brasileiro, Romance popular, editado em 1981 com repertório direcionado para músicas de compositores nordestinos.
De certa forma, a capa do livro dá o tom da biografia, cujo titulo Ninguém pode com Nara Leão reproduz sentença proferida pelo cineasta Glauber Rocha (1939 – 1981) em carta endereçada do exílio ao também cineasta Cacá Diegues, então marido de Nara.
Com texto fluente, mérito maior da narrativa, Tom Cardoso reconta história já narrada pelo pioneiro Sérgio Cabral em Nara Leão – Uma biografia (2001), por Cássio Cavalcante em Nara Leão – A musa dos trópicos (2014) e, em tom mais acadêmico, por Daniel Lopes Saraiva em Nara Leão – Trajetória, engajamento e movimentos musicais (2018) – com a ressalva de que os dois últimos livros nunca tiveram na mídia a exposição já alcançada pelo livro de Tom Cardoso antes mesmo do lançamento.
Feitas todas as ressalvas, ouvintes de última hora de Nara Leão têm motivos para se enredar na narrativa de Cardoso. Não somente pela já mencionada fluência do texto, entrave para muitos biógrafos, mas porque o suprassumo da história de Nara Leão está lá nas 224 páginas do livro, editado com caderno de fotos de 16 páginas adicionais.
E, se a história prende, é porque a vida de Nara Leão daria um filme por ter sido coisa de cinema. A propósito, é surpreendente que, até o momento, nunca se tenha produzido documentário ou longa-metragem de ficção sobre a vida dessa mulher tão tímida quanto destemida.
Uma menina encabulada, ofuscada na infância e na adolescência pela autoridade do pai Jairo Leão (morto em 1983, por suicídio) e pela beleza e sedução da irmã mais velha, Danuza Leão, mas que desabrochou e ganhou luz própria quando se lançou como cantora, obtendo relevância inimaginável para quem desconhecia o alcance da voz que soava pequena nos discos, mas que se agigantou pela postura combatente e antenada de Nara.
Sim, Nara foi leoa que descartou rótulos e enfrentou generais e marechais do exército nos opressivos anos 1960 – “armada com uma flor e uma canção”, como poetizou em versos Ferreira Gullar (1930 – 2016), uma das paixões da cantora – enquanto, com olhos de farol, iluminou em discos visionários as obras de compositores então debutantes como um tal de Chico Buarque.
Nara Leão (1942 – 1989) é perfilada no livro ‘Ninguém pode com Nara Leão – Uma biografia’
Reprodução parcial de capa de disco
Tom Cardoso soube romancear a história, sem tirar o foco da informação, ainda que caia no erro de reproduzir uma ou outra lenda recorrente na imprensa musical, como o dilema da vinda de Maria Bethânia para o Rio de Janeiro (RJ) com supostos 17 anos para substituir Nara no teatralizado show Opinião (1964 / 1965). Nascida em junho de 1946, Bethânia tinha 18 anos quando recebeu, em janeiro de 1965, o convite para ocupar o lugar da desertora Nara no engajado espetáculo.
O livro, aliás, deixa claro que o show Opinião se inspirou no segundo álbum da cantora, Opinião de Nara, lançado no segundo semestre de 1964 – e não o contrário, como se pensa.
Em 1964, Nara Leão já estava decidida a tomar posição, inclusive contra o rótulo involuntário de “musa da Bossa Nova”, gerado mais pelo fato de alguns ícones do movimento musical de 1958 terem tido o hábito de se aglutinar no apartamento do pai de Nara, em Copacabana, nos idos de 1957.
Mesmo recusando o rótulo, a cantora cantou o repertório da Bossa Nova em shows, embora somente fosse registrá-lo em discos a partir do álbum duplo de 1971 idealizado em Paris, Dez anos depois, de título alusivo ao fato de Nara ter começado a cantar em 1961.
Por ter opinião, Nara Leão por várias vezes esteve no olho do furacão, brigando com autoridades e com colegas como Elis Regina (1945 – 1982), rival no ringue musical e afetivo, já que ambas se envolveram amorosamente com Ronaldo Bôscoli (1928 – 1994).
A biografia de Tom Cardoso relata a relação por vezes conflituosa da cantora com essa exposição pública contínua. Dilemas existenciais da artista são expostos em algumas páginas do livro, com certa superficialidade, sem tirar o foco da trajetória profissional de Nara – rica o suficiente para manter o interesse pela narrativa.
Antes de se deixar seduzir novamente pela refinada leveza do cancioneiro da bossa, a partir do álbum Abraços e beijinhos e carinhos sem ter fim… (1984), Nara fez discos ousados para os padrões fonográficos do Brasil dos anos 1970.
O mais controvertido foi o álbum …E que tudo mais vá pro inferno (1978), dedicado àquelas canções de Roberto Carlos e Erasmo Carlos que a elite da MPB desprezava. Nara peitou o desprezo da própria turma e fez um dos grandes discos da carreira. Um ano antes, a cantora abrira o filão dos discos de duetos com o álbum Os meus amigos são um barato (1977).
Enfim, até ser tirada de cena aos breves 47 anos, em decorrência de tumor no cérebro, cujo diagnóstico em 1979 foi inexplicavelmente omitido de todos (até da própria Nara) pelo pai protetor Jairo Leão, a artista deixou assinatura forte na música brasileira.
Pelo temperamento combatente, Nara Leão jamais fugiu à luta em trajetória de vida revista nesta biografia déjà-vu para quem já leu qualquer uma das anteriores, mas potencialmente sedutora para quem por ventura ainda desconheça a luminosa história de Nara, a leoa.