USP amplia em 25% a presença de alunos pretos, pardos e índios

Felipe conquistou uma vaga na USP por meio da PPI

Felipe conquistou uma vaga na USP por meio da PPI
Arquivo Pessoal

Felipe Leonardo Monteiro Gonçalves da Costa conquistou uma vaga na disputada faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo.

Jovem negro, morador da divisa de São Paulo com Diadema, no Grande ABC, teve de trabalhar para conseguir ajudar a família e bancar três dos quatro anos de cursinho.

“Moro com a minha mãe e duas irmãs, não foi fácil passar no vestibular, foram anos só estudando e trabalhando para conseguir a vaga”, conta. No ano passado, quando a irmã conseguiu um emprego, o jovem pode se dedicar um semestre aos estudos do cursinho, onde conquistou uma bolsa no Anglo.

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Desde 2018, a USP adota a reserva de vagas para alunos de escolas públicas e autodeclarados PPI (Pretos, Pardos e Indígenas). Na inscrição do vestibular, tanto para a Fuvest quanto para o Sisu (Sistema de Seleção Unificada), ao escolher uma carreira e um curso, o vestibulando tem três opções: Ampla Concorrência (AC), Ação Afirmativa Escola Pública (EP) e Ação Afirmativa Preto, Pardo e Indígena (PPI).
Felipe passou em segundo lugar no sistema de vagas PPI (Pretos Pardos e Índios).

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“Ninguém da minha família teve acesso a uma universidade e não tinham ideia do que era entrar em Medicina na USP, minha mãe só entendeu quando me acompanhou na matrícula, ao ver o campus, ela chorou de emoção”.

Felipe com a mãe e as irmãs: emoção

Felipe com a mãe e as irmãs: emoção
Arquivo Pessoal

O jovem estudante de Medicina é um dos 2.734 novos alunos da USP que se autodeclaram pertencentes a esse grupo étnico (pretos, pardos e índios), o que representa 25,7% do número total de vagas – 10. 779 calouros foram recebidos este ano na Universidade. No ano passado, esse índice foi de 18,5%.

“Sem dúvida a USP ainda é uma universidade branca, mas percebemos uma diversidade maior, minha turma é pioneira nessa nova fase e percebemos o impacto disso na faculdade”, avalia Felipe.

Este é o segundo ano em que a USP adota a reserva de vagas. A reserva vem sendo feita de forma escalonada: no ingresso de 2018, foram reservadas 37% das vagas de cada Unidade de Ensino e Pesquisa; em 2019, a porcentagem é de 40% de vagas reservadas de cada curso de graduação; para 2020, a reserva das vagas em cada curso e turno deverá ser de 45%; e no ingresso de 2021 e nos anos subsequentes, a reserva de vagas deverá atingir os 50% por curso e turno.

Os números apontam uma mudança no perfil da USP, que busca ser mais inclusiva e aposta na diversidade. Segundo o reitor, Vahan Agopyan, esse resultado mostra que “a Universidade está se tornando cada vez mais representativa da sociedade brasileira. Um terço dos candidatos optou por concorrer em outras categorias para além da reserva de vagas, o que demonstra que nossas políticas de inclusão estão sendo efetivas para estimular esses estudantes a fazerem parte da nossa Universidade”.

Para o reitor, “a inclusão social e étnica é um importante instrumento para oferecer oportunidade de ascensão social a estudantes que não provêm dos segmentos mais abastados da sociedade. Com esses dados, fica claro que, hoje, a USP é uma universidade acessível para todos”.

Glaucia Verena, fonoaudióloga mestre e fundadora do Núcleo Ayé FMUSP, ainda falta um longo caminho a ser percorrido pela USP. “Diversidade é um termo amplo, podemos dizer que houve um aumento de estudantes negros em nível de graduação e pós-graduação. Entretanto, numericamente baixo comparado aos estudantes brancos. Nesse recorte da diversidade houve um crescimento dos coletivos negros, LGBTs, no entanto, a pauta indígena ainda continua distante”.

Outro dado que chama a atenção é que 41,8% dos novos alunos cursaram todo o ensino médio em escolas públicas. O desafio é que, até 2021, a porcentagem de alunos ingressantes vindos de escolas públicas chegue a 50%.

Ponto Crítico

Para Felipe, um ponto que a USP precisa melhorar na PPI é a fiscalização. “Percebemos casos de fraude nesse sistema de reserva de vagas”. O estudante se autodeclara preto, pardo ou índio, mas não há fiscalização por parte da Universidade. É preciso que uma denúncia na Polícia Civil para que seja feita a verificação. “Essas pessoas tiram uma vaga de quem realmente precisa”.

Estudantes e coletivos como o Núcleo Ayé estão se mobilizando para levar algumas soluções para melhorar a fiscalização da USP. “Nós estamos dialogando e trocando experiências a respeito do processo de cotas com outras universidades, afim de apresentar um modelo transparente”, diz Glaucia. “Existem experiências das universidades federais e mais recentemente da Unesp (Universidade do EStado de São Paulo) e uma primeira proposta é a lista pública dos ingressantes por PPI”.