Unicamp 2021: conteúdo básico, exigência por reflexão e pandemia devem marcar 1ª fase


Avaliações de cursinhos ouvidos pelo G1 são de um vestibular mais fácil, mas dentro das características exigidas pela universidade de Campinas. Provas estão marcadas para esta quarta (6) e quinta-feira (7). Vista aérea do campus da Unicamp, em Campinas (SP)
Reprodução/EPTV
Se a pandemia da Covid-19 exigiu mudanças de protocolo, logística e formulação das provas, com redução de questões e alteração de horário, a 1ª fase do vestibular da Unicamp, que será realizada nesta quarta (6) e quinta-feira (7), não deve fugir de sua principal característica: exigir a reflexão dos candidatos por meio de assuntos atuais.
Professores, diretores e coordenadores de cursos pré-vestibular ouvidos pelo G1 apostam em uma prova que valorize conteúdos básicos e que assuntos correlatos ao coronavírus estarão no caminho dos 77,6 mil inscritos que buscam as 3.237 vagas que a universidade estadual oferece em 69 cursos de graduação.
Nos dois dias as provas começam às 13h e os portões serão abertos com uma hora de antecedência. A orientação é para que estudantes com suspeita de Covid-19 não saiam de casa para fazer a prova.
A preocupação por manter as características da prova é defendida pelo diretor da comissão organizadora (Comvest), José Alves de Freitas Neto.
“É muito importante que ele leia com atenção os enunciados e compreenda diretamente o que está sendo solicitado na questão. O candidato provavelmente vai encontrar excertos mais breves, textos mais curtos, e isso também facilita a compreensão e a organização das informações. Ele deve encontrar uma prova com temas bastante atuais, com diálogo frequente com os temas do mundo contemporâneo, como tem acontecido nas provas dos anos anteriores”, diz.
Freitas Neto ainda destaca que a redução das obras literárias exigidas, de 12 para sete, “permite talvez que possam ser explorados mais aspectos de uma determinada obra considerando que tem uma lista menor de textos”.
Exigência de conhecimento básico
Coordenadora do ensino médio do Colégio Poliedro de Campinas, Isabel Settin reforça a ideia de que a 1ª fase não deve apresentar surpresas aos candidatos mas, sim, exigir conhecimento básico do ensino médio.
“A Unicamp preza bastante as competências e habilidades, o básico de todas as disciplinas. Não esperamos perguntas muito aprofundadas, aquelas de rodapé, como falamos. A prova deve fazer com que o aluno recorra aos conhecimentos da disciplina, mas que tome decisões para responder, consiga ter uma dimensão mais ampla”, opina.
Professora de biologia, ela acredita que o tema pandemia possa estar presente em algumas questões, mas não em toda a prova. “A Unicamp faz várias questões interdisciplinares, acredito que algum tema, como a pandemia, pode vir em questões assim. O restante serão questões básicas, já que a universidade procura identificar quem tem base para atravessar os primeiros semestres”, pontua.
Em um ano tão atípico, Isabel Settin lembra da importância do candidato em manter a calma. “Aos alunos que se sentirem mais amedrontados, é importante lembrar que ao sentar para fazer a prova ele saiba que o que vai exigir ali são temas que ele viu”, defende.
Pesquisador da Unicamp com frasco contendo o novo coronavírus: pandemia deve estar muito presente na prova
Liana Coll/Unicamp
Pandemia, geopolítica, democracia
O professor Raul Neto, coordenador do curso pré-vestibular Objetivo, destaca que a Unicamp tem por característica a busca por assuntos atuais, exigindo reflexão dos candidatos sobre o mundo. Nesse cenário, questões sobre a pandemia e assuntos correlatos como geopolítica e democracia devem se fazer presentes na prova deste ano.
“Estamos imersos em uma pandemia, então acredito que tanto na primeira quanto na segunda fase devemos ter questões relacionadas, além de questões recorrentes, como política e democracia que também estiveram em evidência na pandemia”, defende.
Para o coordenador, a expectativa é por uma prova mais acessível e democrática, exigindo mais interpretação do que conteúdo dos estudantes.
“Todo mundo passou por dificuldades, e a Comvest está ciente disso. O momento agora é de ter tranquilidade, não se desesperar, e lembrar que todos os candidatos estão na mesma jornada”, diz.
‘Leitura atenta e concentração’
O coordenador pedagógico do Etapa, João Pitoscio Filho, também destaca a importância do candidato fazer uma leitura atenta para interpretar o enunciado. Para ele, as mudanças promovidas pela Unicamp em meio à pandemia devem resultar em uma prova com valorização de conteúdos básicos, apesar da manutenção do nível de dificuldade dos anos anteriores. “Básico é diferente de fácil. O discurso da própria Unicamp é focar nos assuntos que são trabalhados no primeiro e segundo ano do ensino médio”, avalia.
Ao ponderar sobre a tendência da universidade promover diálogos entre os conteúdos programáticos e temas contemporâneos, Pitoscio aposta que a prova pode levar aos estudantes questões formuladas a partir de temas associados à crise sanitária, como ensino a distância, convivência familiar durante o “novo normal” e elos entre o contexto atual e a gripe espanhola, por exemplo. “Podem ser abordadas as diferenças de tratamento dos diversos países para atacar a pandemia e as implicações em termos políticos”, explica.
O coordenador pedagógico diz ainda que, além de diferenças no preparo técnico conforme as diferentes origens dos candidatos, o cansaço pode ser um fator que influencia o resultado. “Quem estiver emocionalmente mais preparado deve se sair melhor”, afirma ao lembrar que parte dos alunos sentiu a falta de estar em sala de aula e convivência com amigos.
Para ele, a recomendação da Unicamp contra “torcida” na entrada dos candidatos é positiva. “A gente prefere que o aluno vá concentrado […] Descanse na véspera e chegue com um pouco de antecedência no dia da prova”, ressaltou ao falar sobre a necessidade de evitar aglomerações para conter a transmissão do novo coronavírus.
‘Mesmas características’
Diretor do curso pré-vestibular da Oficina do Estudante, Daniel Cecílio avalia que apesar das mudanças, como uma exigência menor de obras literárias e menor número de questões, a tendência é de uma prova um pouco mais fácil, mas sem que o vestibular perca suas características.
“A Unicamp vai continuar a selecionar alunos com capacidade de se organizar com clareza, de interpretar dados e fatos. Ela busca o aluno pensante, não apenas o que decorou matéria, alguém com capacidade de contextualização, que levanta a cabeça e olha para o mundo”, define.
Cecílio também descarta uma volta de provas temáticas, como a universidade realizou anos atrás, mas crê no uso de questões relacionadas com a pandemia.
“Na biologia tem grandes chances que caiam questões relacionadas a vírus, na matemática pode ter alguma coisa sobre curva de crescimento exponencial e até em história pode ter algo sobre outras pandemia. Não é mais o perfil ter uma prova temática, mas a pandemia e seus temas associados devem ser abordados”, opina.
Uma dica do coordenador para quem vai enfrentar o vestibular com as mudanças exigidas por questões sanitárias é que o candidato faça uma espécie de simulado e se acostume com o fato de que terá de fazer a prova de máscara.
“Orientamos os alunos a simular da melhor maneira. Assim que a Unicamp definiu os ajustes, mudamos nosso simulado de 90 para 72 questões, de cinco para quatro horas, e pedimos que todos fizessem dentro do tempo estabelecido, colocando máscara, separando a garrafa d’água”, conta Cecílio.
Uma das entradas do campus da Unicamp em Campinas
Antoninho Perri / Unicamp
Mais salas, segurança…
A 1ª fase o vestibular 2021 da Unicamp será aplicada em 3.381 salas distribuídas entre 62 escolas. O total representa aumento de 125% no comparativo com as 1.502 usadas na edição anterior, quando os candidatos foram distribuídos em 58 unidades de ensino. O objetivo é evitar aglomeração e o espaçamento entre cada participante será de pelo menos 1,5 metro, dentro e fora das salas.
Nesta edição atuam 3 mil profissionais, que devem trocar as máscaras faciais a cada duas horas. A Comvest também prevê uso de termômetros em municípios onde houver obrigatoriedade.
“Não haverá a aferição compulsória. Em exames onde houve aferição na entrada do prédio houve aglomeração e nosso intuito é evitar”, avalia o diretor. Segundo a comissão, o equipamento pode ser usado caso necessário, se eventualmente algum candidato apresentar condição de saúde suspeita.
Freitas Neto ressalta que será mantido o uso da tecnologia capaz de identificar sinais de celular e radiofrequência para evitar “colas eletrônicas” durante o processo seletivo. A Comvest destaca ainda que o candidato pode ser desclassificado caso desrespeite ou tenha algum comportamento inadequado em relação às orientações sanitárias e de segurança do processo seletivo.
“Houve um aumento no custeio da prova, como aluguéis, alimentação e remuneração das equipes. Mas ainda não temos o custo final, pois esse cálculo engloba as duas fases e período de correção”, explica o diretor da Comvest, sem indicar também estimativa.
Conteúdos
Em virtude da pandemia, a Unicamp dividiu a logística em dois dias para reduzir o risco de transmissão da doença. Além disso, foi definida redução na quantidade de questões testes – de 90 para 72, com tempo máximo de quatro horas, ao invés das cinco estipuladas em anos anteriores. Para cada dia de aplicação haverá um exame único para os estudantes, conforme a seguinte distribuição:
Ciências exatas/tecnológicas e ciências humanas/artes – quarta-feira (6)
São 34.024 candidatos em 1.460 salas
Ciências biológicas/saúde – quinta-feira (7)
São 43.631 candidatos em 1.921 salas
As questões serão as as seguintes:
12 de língua portuguesa e literatura;
12 de matemática;
8 de cada disciplina: biologia, física, geografia/sociologia, história/filosofia, inglês e química.
A lista de livros obrigatórios também foi alterada e passou de 12 para sete, com objetivo de garantir que os candidatos pudessem acessar todos os títulos em meio à crise sanitária para estudar.
Lista de obras literárias
Sonetos escolhidos, de Camões;
Sobrevivendo no Inferno, do grupo Racionais Mc’s;
O Espelho, de Machado de Assis;
O Marinheiro, de Fernando Pessoa;
A Falência, de Júlia Lopes de Almeida;
O Ateneu, de Raul Pompeia;
Sermões, de Antonio Vieira.
Foram excluídas desta edição as seguintes obras literárias: A teus pés; O seminário dos ratos; História do cerco de Lisboa; Quarto de despejo; A cabra vadia.
Logística
As provas ocorrem em 37 cidades, entre elas, 32 de São Paulo e cinco capitais de outros estados.
Logística
São Paulo
Araçatuba, Barueri, Bauru, Botucatu, Bragança Paulista, Campinas, Fernandópolis, Franca, Guarulhos, Indaiatuba, Jundiaí, Limeira, Lorena, Marília, Mogi das Cruzes, Mogi Guaçu, Osasco, Piracicaba, Presidente Prudente, Ribeirão Preto, Santa Bárbara D’Oeste, Santo André, Santos, São Bernardo do Campo, São Carlos, São João da Boa Vista, São José do Rio Preto, São José dos Campos, São Paulo, Sorocaba, Sumaré e Valinhos.
Outros estados
Belo Horizonte (MG), Brasília (DF), Curitiba (PR), Fortaleza (CE) e Salvador (BA).
Cursos mais disputados
Neste ano, os dez cursos mais procurados pelos candidatos são: medicina, arquitetura e urbanismo; ciências biológicas; comunicação social-midialogia; ciência da computação; engenharia da computação; farmácia; história; ciências econômicas e enfermagem.
O total de vagas nesta edição inclui as 639 oportunidades que estavam previstas inicialmente no edital Enem-Unicamp, que deixou de ser oferecido para ingresso no próximo ano por causa do “calendário incompatível” com o cronograma definido pelo Ministério da Educação (MEC).
Calendário Vestibular Unicamp 2021
1ª fase: 6 e 7 de janeiro
Divulgação dos aprovados na 1ª fase: 29 de janeiro
2ª fase: 7 e 8 de fevereiro
Provas de habilidades específicas (exceto música): 11 e 12 de fevereiro
Divulgação da primeira chamada: 10 de março
Comissão de averiguação virtual dos convocados cotas étnico-raciais da primeira chamada/Solicitação e divulgação do resultado de recurso dos convocados em primeira chamada de cotas étnico-raciais: 11 de março
Matrícula presencial da primeira chamada, nas unidades de ensino: 15 de março
Início das aulas: 15 de março
Confira calendário completo
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