Um ano após suspensão de aulas presenciais, estudantes e famílias ainda enfrentam incertezas com reabertura das escolas na pandemia


2,4% dos alunos das redes municipais não tiveram nenhuma atividade escolar em 2020 e quase 6 em cada dez cidades ainda não definiram protocolo de biossegurança para a reabertura das escolas, segundo pesquisa. Funcionário higieniza carteiras de escola na Zona Sul de São Paulo: há 1 ano, pandemia fechava escolas no Brasil.
DANIEL TEIXEIRA/ESTADÃO CONTEÚDO
Em Paraisópolis, Zona Sul de São Paulo, a pequena Jhullia Rodrigues, 6 anos, está se alfabetizando com a ajuda dos pais em casa, que tentam suprir as falhas da aprendizagem remota pesquisando atividades extras na internet para a menina. Jhullia completou a educação infantil e entrou no 1º ano do ensino fundamental neste ano, em plena pandemia.
Em Teresina (PI), Ruan Sousa, 10 anos, passou do 4º para o 5º ano em meio à pandemia. Mesmo estudando na rede pública municipal, ele pode contar com a ajuda de uma professora particular contratada pela família para um “reforço” escolar. Passou de ano, mas quer voltar à escola e rever amigos.
Sofia de Souza, 8 anos, conseguiu rever os amigos. Depois de muitas aulas virtuais em uma escola particular em São Bernardo do Campo, ela pode voltar à sala de aula neste 2021. Mas, a escola não era a mesma. Com medo da pandemia, nem todos compareceram. No primeiro dia, foram Sofia e mais 2 alunos. No segundo, só ela e a professora. Agora, a instituição está fechada novamente, com aulas a distância.
O Brasil completa nesta semana um ano desde que as aulas presenciais foram suspensas e as escolas, fechadas, para conter a pandemia do coronavírus. O que parecia ser algo temporário se estendeu por um ano letivo inteiro – e os recordes de casos e mortes trazem incertezas sobre como será em 2021.
“O Brasil tem a maior média de semanas de escolas fechadas do mundo e está sofrendo as consequências de maior impacto da pandemia”, afirma Ítalo Dutra, chefe de Educação do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) no Brasil.
Ao todo, o Brasil tem 47,2 milhões de estudantes matriculados na educação básica – que vai desde a creche até o ensino médio. A maior parte (81,4%) estuda na rede pública. Entre eles, quase a metade (48,4%) está em escolas municipais.
Sem uma articulação nacional que ajudasse a concentrar esforços e propagar boas experiências, cada rede foi encontrando uma solução. Ainda assim, a escola não chegou a todos.
Uma pesquisa divulgada nesta quarta-feira (10) apontou que 2,4% dos alunos das redes municipais não tiveram nenhuma atividade escolar em 2020. Se a volta às aulas presenciais garantiria o direito à educação para estes estudantes mais vulneráveis, reabrir escolas ainda é um desafio: quase seis em cada dez cidades ainda não definiram protocolo de biossegurança para as suas redes.
“A gente precisa estar preparado e discutir, planejar, estar pronto para, no dia em que for possível, retomar as atividades presenciais”, afirma Dutra.
Para a doutora em Educação e professora da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) Telma Vinha, faltou colocar a educação como prioridade para reabrir escolas.
“Colocar como escolas prioridade é dar razão efetiva para que isso aconteça. Mas isso não quer dizer: abra as escolas com 30% [de ocupação]. Quando dizem que há protocolo de segurança e para o aluno [voltar] é optativo, esquecem de pensar que para o professor e funcionário, não é optativo. Vários usam transporte público. Se os alunos são adolescentes, vários também usam. Não é como decidir abrir bar, que ninguém é obrigado a ir. Abrir escola é algo que mexe com a sociedade, tem deslocamento. Mais do que protocolo de segurança, é preciso dar condição de segurança”, avalia Telma Vinha.
Para ela, países que já reabriram as salas de aula, como os da Europa, não podem servir de parâmetro para as escolas do Brasil. Vinha afirma que “não dá para comparar escolas europeias com escolas brasileiras”, por exemplo, porque “lá, as salas são amplas, tem ventilação. Aqui, falta sabonete. A gestão de pandemia na Europa é diferente da gestão da pandemia no Brasil”, elenca.
Até as 20h desta quinta (11), o Brasil bateu 273.124 mortes e 11.284.269 casos confirmados de coronavírus. Vinte e dois estados e o DF apresentam alta nos números.
Entre eles, está o estado de São Paulo. O governo estadual anunciou medidas mais restritivas para conter a pandemia, como a antecipação do recesso escolar de abril e outubro para o período de 15 a 28 de março e o fechamento das escolas para o ensino presencial. Mas as unidades ficarão abertas apenas para merenda dos alunos que precisarem e para a retirada de chips a partir de segunda-feira (15).
As particulares poderão receber alunos até o limite de 35% da capacidade total das salas. As redes municipais podem decidir se vão aderir ou não. A capital decidiu suspender as aulas presenciais nas escolas municipais, estaduais e particulares de quarta (17) a 1° de abril.
Alfabetizar na pandemia
Em meio aos desafios, educadores, alunos e famílias seguem superando desafios. Entre eles, está o da alfabetização a distância. Na casa da família Rodrigues, em Paraisópolis, o foco está na pequena Jhullia, de 6 anos. As aulas virtuais da educação infantil, que ocorriam em alguns dias da semana, foram complementadas por atividades extras que os pais davam para a pequena.
“A gente não tinha noção da dimensão de como seria alfabetizar uma criança em casa. Buscamos atividades na internet, pesquisamos no YouTube como alfabetizar, e fomos ajudando ela. Tanto com as aulas remotas, quanto com a dedicação em casa, eu e minha esposa fizemos de tudo para alfabetizá-la. Ela já está lendo – não com tanta fluidez –, mas é motivo de orgulho para nós”, afirma Jefferson Rodrigues, pai da Jhullia.
Em 2020, o G1 contou a história de Jhullia ao narrar o empenho de pais pela educação dos filhos durante a pandemia, uma realidade que nem sempre se reflete em outras famílias. “O ensino remoto é muito pouco eficaz com crianças do ensino fundamental e, principalmente, na educação infantil. Perde-se a interação social, laços e vínculos”, diz Vinha.
Jhullia Rodrigues, 6 anos, começou o 1º ano do ensino fundamental em 2021, depois de ter concluído a educação infantil em aulas remotas.
Arquivo Pessoal
Na etapa seguinte ao estudo de Jhullia, a família esbarrou em mais uma dificuldade: conseguir uma bolsa de estudo em uma escola particular que, na avaliação dos pais, atenderia melhor à criança.
Mas, as escolas que costumam fazer seleção para isso passaram a dizer que não tinham mais patrocínio e que as bolsas foram cortadas. Jhullia entrou no 1º ano em uma escola municipal.
“Onde a gente liga, ouve que parceiros deixaram de contribuir, que não tem padrinho. Estamos bem apreensivos. A gente bate, bate, bate, e as portas não se abrem. A pandemia veio de uma forma muito dolorosa, fechando portas e fechando caminhos. Não conseguimos, mas não perdemos as esperanças”, afirma Jefferson.
Com a esposa Jacqueline prestes da ganhar mais uma bebê – a Jade –, a família agora se desdobra em cuidados para receber mais uma criança em meio à crise sanitária. “O alarme da pandemia está maior. Vai fazer com que a gente não deixe ela ir para escola, e a gente não sabe até onde isso vai”, conta Jefferson. “É muito difícil, porque ela quer muito estar na escola, quer muito estar com amigos, mas existe sim essa preocupação”, reflete.
Reabertura das escolas, e novo fechamento
Pablo Souza e a filha Sofia, de 8 anos: reabertura da escola e novo lockdown.
Arquivo Pessoal
Sofia Silva de Souza precisou trocar de escola em 2020 quando o pai, Pablo Souza, perdeu o emprego um pouco antes da pandemia atingir o país. Foi transferida para outra escola particular, mais em conta, e conheceu os professores e colegas pelos “quadradinhos” da tela do computador, durante as aulas virtuais.
Em 2020, o G1 contou a história de Sofia ao narrar o dilema de famílias que enfrentavam o aperto nas contas e ainda batalhavam por manter a educação de qualidade dos filhos.
Pablo ficou sete meses sem trabalho. Agora, divide o “home office” com a esposa, que é advogada, e a filha. “O apartamento é pequeno, minha mulher tem que se concentrar na defesa. Mas toda hora a Sofia chama, interrompe, e ela perde o foco. Mesmo depois de um ano, a gente não se acostumou”, afirma Pablo Souza.
Para ele, o ensino remoto já causa impacto na aprendizagem da filha, que tem dificuldade nas operações de subtração. “E não não era para ter [essa dificuldade]. Tenho certeza que saberia fazer as contas se estivesse em aula presencial”, aposta.
Quando anunciaram que a escola iria reabrir, Sofia se animou. A família comprou uniforme e esperou o dia do retorno. “Ela está cansada. Quando voltou, ficou super feliz. Mas chegou em casa, e disse: ‘pai, foi legal, mas só teve 3 alunos'”, conta. “Teve um dia que levei ela para escola e estava só ela e a professora. Mas mesmo assim, ela preferia ir para escola do que ficar em casa.”
Escolaridade incompleta, e filhos estudando em casa
Ruan Sousa, 10 anos, e a mãe, Maria Rejane Sousa: aulas particulares para complementar o estudo remoto.
Arquivo Pessoal
No Piauí, Maria Rejane Sousa, mãe de Ruan Sousa, 10 anos, passou por diversos percalços ao longo da pandemia, mas mantém o filho matriculado e estudando na rede pública de Teresina. Ela, que estudou até a sétima série, fez de tudo para orientar o filho no ensino remoto.
Em 2020, o G1 contou a história de Ruan, que estava indo bem nas aulas remotas devido à “blitz” dos adultos, que não o deixavam se distrair, como acontecia na escola.
Para Rejane, ficou claro que o menino precisava de apoio constante nos estudos. Ela pode passar mais tempo com Ruan para ajudar no período de sete meses em que esteve sem trabalhar (e sem salário) porque o restaurante onde cozinhava fechou, e não demitiu. Quando reabriu, Rejane precisava de uma solução para deixar o menino.
Mesmo em dificuldade, contratou uma professora particular para o filho. A conta (R$ 250 para três crianças – Ruan e mais dois primos) é dividida com a irmã, que manteve a família com o auxílio emergencial quando o dinheiro ficou curto.
Foi assim que Ruan passou do 4º para o 5º ano em meio à pandemia. A dedicação da mãe supriu lacunas do poder público. Em 2021, Ruan deverá concluir os anos iniciais do ensino fundamental. Rejane diz estar preparada para repetir o esquema de 2020.
“Espero que este ano seja melhor, porque ano passado foi muito puxado. Mas neste começo de março as coisas estão ficando bem complicadas. No PI, todo dia passa no jornal que não tem mais leito e hospital. Vamos fazer lockdown e ficar um bom tempo com estabelecimentos fechados. Provavelmente, o mês inteiro. Aí, se fecha, a empresa alega que não tem como pagar. Vou manter a professora do Ruan enquanto puder, e vamos viver com fé, um dia após o outro”, afirma.
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