Turismo em Minas Gerais tenta reagir às perdas bilionárias provocadas pela pandemia


Setor prevê investimentos no mercado publicitário e foco no turismo regional; empresários sofrem com baixa demanda. Distrito de Lavras Novas, em Ouro Preto; ao fundo, a Igreja de Nossa Senhora dos Prazeres
Alex Araújo/G1
Passados quase 12 meses do início da pandemia da Covid-19 no Brasil, alguns setores da economia ainda tentam se reerguer. É o caso do turismo, em Minas Gerais, que acumulou perdas significativas em 2020 e recebeu um aporte de R$ 500 mil do governo federal em dezembro do ano passado. A proposta é que a verba seja utilizada como estímulo para a retomada das atividades do setor entre fevereiro e abril deste ano.
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Um relatório da Confederação Nacional de Comércio, Bens, Serviços e Turismo (CNC), divulgado no dia 13 de janeiro, aponta o prejuízo de R$ 21,65 bilhões na cadeia do turismo mineiro, a terceira maior perda de receita do país. O estado só fica atrás de São Paulo (R$ 94,12 bi) e Rio de Janeiro (R$ 39,7 bi). O cenário é refletido até mesmo pela movimentação em aeroportos mineiros, que foi 57,7% menor em 2020 do que em 2019.
O tamanho da crise acaba refletindo nos postos de trabalho. De acordo com a Secretaria de Estado de Cultura e Turismo (Secult), o saldo de empregos formais no setor ficou negativo em 2020. O resultado preliminar do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), que ainda não considera o mês de dezembro, traz o fechamento de 37.250 vagas, anteriormente ocupadas. Isso para um setor que ainda luta pela formalização de muitos postos de trabalho, o que pode resultar em um cenário ainda pior.
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Retomada
Os números levaram à elaboração de um plano de investimentos. Segundo a Secult, a ideia é que as campanhas publicitárias “Minas para Minas” e “Minas para o Brasil” sejam lançadas ainda no início do ano, com veiculação em cadeias de rádio, televisão e internet. É aí que entra a quantia recebida do Ministério da Cultura.
Para o professor Rodrigo Burkowski, do programa de mestrado em Turismo e Patrimônio da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP), a retomada do setor se dará de acordo com o tipo de viagem que será incentivada.
“Estudos apontam que as pessoas tendem a viajar de carro, até 250km. Seria uma viagem de final de semana, como sair de BH na sexta e voltar no domingo à noite ou segunda de manhã”, avaliou.
Outra possibilidade, segundo o Burkowski, é a exploração das unidades de conservação. O professor conta que existem parques e reservas em todo o estado, com capacidade ociosa de visitação até mesmo no período anterior à pandemia. “Têm potencial muito grande para a retomada das atividades”, afirmou.
Protocolos de biossegurança
O governo aposta nos protocolos de segurança previstos no programa Minas Consciente para garantir a experiência do turista. A Secult informou sobre a aplicação de 2.315 selos em estabelecimentos que se comprometeram a cumprir com todas as regras de prevenção e combate à Covid-19. Essa pode ser uma saída, mas o professor da UFOP faz um alerta.
“O selo é autodeclaratório. O estabelecimento afirma que vai cumprir os protocolos de segurança, mas não tem canal para registrar denúncia, nem fiscalização, em caso de irregularidade”, ponderou.
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Arquivo Pessoal
Ana Carolina Medina é proprietária da Pousada Vila de Gaia, no distrito de Lavras Novas, em Ouro Preto, na Região Central do Estado. Ela contou que aderiu aos protocolos desde o início da pandemia. Adaptou o esquema de funcionários, investiu em mecanismos de limpeza mais rígidos e mudou o padrão da cozinha. Tudo para atender às exigências dos protocolos de segurança. Ainda assim, não se viu livre das dificuldades impostas pela pandemia.
“Fiz um investimento alto para a minha pousada, para me adequar, para ter segurança para trabalhar. Aí vem o governo, não ajuda em nada e simplesmente fala que não vamos poder funcionar mais? Acho que é isso o que está acontecendo com bares e restaurantes. Investem, se preparam e aí fecham tudo de novo”, desabafou.
A proprietária não está muito otimista com relação aos próximos meses de trabalho. Com o fim dos benefícios repassados pelo governo e com a baixa demanda no período de janeiro, que sempre foi considerado alta temporada em Lavras Novas, as contas ficaram difíceis de fechar.
“Estou totalmente sem rumo. Não sei o que fazer, porque o governo cortou os incentivos. Desde dezembro, a gente não pode reduzir carga horária de funcionário e tem que cumprir a estabilidade definida pelos meses de redução já realizados. Não tenho uma expectativa para os próximos meses”, afirmou.
Tanto Ana Carolina como Ricardo Burkowski veem na vacinação a possibilidade de melhores resultados para o setor.
“Acho que vacinação é um dos pontos. Mas não vale vacina sem critério, também. Não vai ser vacinado todo mundo de uma vez. A gente ainda vai viver essa realidade de cuidados por um bom tempo”, avaliou a empresária.
Já o professor foi um pouco mais otimista:
“A gente pode chegar aos ganhos de dezembro de 2019 se conseguirmos cumprir metas de vacinação. Eu creio que, se conseguirmos vacinar a população até agosto deste ano, poderemos ter uma recuperação importante”, avaliou.
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