Trio Sambas do Absurdo sobe ladeira no passo elegante e sinuoso do primeiro single do segundo álbum


Capa do single ‘Ladeira’, do trio Sambas do Absurdo
Arte de Manuela Eichner
Resenha de single
Título: Ladeira
Artista: Sambas do Absurdo (Gui Amabis, Juçara Marçal e Rodrigo Campos)
Composição: Rodrigo Campos (música) e Romulo Fróes (letra)
Edição: YB Music
Cotação: * * * * *
♪ “Firma pé que agora é / Ladeira / Ladeira / Muda a rua / Muda o chão / Não muda a cidade / Muda o tempo e a solidão / Não muda a saudade”, rima Romulo Fróes nos versos de Ladeira. Romulo é o autor da letra deste samba de melodia criada por Rodrigo Campos, bamba da efervescente cena musical paulistana do século XXI.
Voz sobressalente dessa geração, a cantora Juçara Marçal é a intérprete de Ladeira que acerta o passo elegante e sinuoso deste samba que anuncia o segundo álbum do Sambas do Absurdo.
Com capa que expõe arte de Manuela Eichner, o single Ladeira aporta nos aplicativos musicais na sexta-feira, 7 de maio, dando continuidade à discografia do trio Sambas do Absurdo, quatro anos após o primeiro álbum, lançado em abril de 2017.
Sambas do Absurdo é projeto paralelo de Gui Amabis (produção musical e samplers), Juçara Marçal (voz) e Rodrigo Campos (cavaquinho e violão de aço).
Pequena obra-prima, também gravada com o toque do baixo elétrico de Régis Damasceno, Ladeira sinaliza que vem por aí um segundo álbum menos hermético, menos conceitual, com dose menor de estranhezas e dissonantes, mas, ainda assim, (muito) acima da trivialidade reinante no mercado.
A questão existencialista – mote do repertório deste trio criado para atravessar o samba com o intuito de expor o absurdo da vida – está presente em Ladeira, mas de forma mais tangível.
Em tese, o samba Ladeira contorna a cidade de São Paulo (SP), retratando as ladeiras da Pompéia como a nova montanha de Sísifo, onde o eu-lírico do samba se movimenta com resignação e se depara com outra geografia, sem deixar de carregar as contradições da condição humana.
Na prática, o single Ladeira carrega o ouvinte no passo – menos torto do que os habitualmente dados pelos artistas que formam o núcleo criativo do grupo – de um grande samba que mostra que muda a música brasileira e muda também a maneira de dar forma a essa música, mas não muda a inventividade dos verdadeiros bambas.