Toquinho reverte expectativas na arte de fazer música com Paulo César Pinheiro


Artista lança álbum com oscilante repertório inédito, gravado com adesões das cantoras Maria Rita e Camilla Faustino. Capa do álbum ‘A arte de viver’, de Toquinho
Elifas Andreato
Resenha de álbum
Título: A arte de viver
Artista: Toquinho
Edição: Deck
Cotação: * * *
♪ Há um resto de esperança que ilumina a estrofe final de Tudo de novo, grande samba que encerra A arte de viver, primeiro álbum de músicas inéditas de Toquinho desde Quem viver verá (2011).
“Mas a paixão não se rendeu / Coração não se entregou / Que a união de quem sofreu / Faz a força contra a dor / E a aliança do plebeu é a queda o imperador”, canta o paulistano Antonio Pecci Filho, aos 76 anos, revertendo a má expectativa da letra nos versos finais deste samba gravado com a adesão vocal de Paulo César Pinheiro, parceiro de Toquinho em Tudo de novo e nas outras dez músicas inéditas ouvidas no disco ao longo de 29 minutos.
Lançado pela gravadora Deck na sexta-feira, 6 de novembro, em edição digital e também no formato de CD, o álbum A arte de viver amplia o repertório autoral desse cantor, compositor e violonista paulistano revelado nos anos 1960 e projetado na década de 1970 em dupla com Vinicius de Moraes (1913 – 1980).
Contudo, ao reeditar a parceria com Paulo César Pinheiro, obra que há 15 anos já rendeu o álbum Mosaico (2005), Toquinho oscila na criação do repertório letrado pelo compositor e poeta carioca. Na contramão de quase todos os álbuns, que geralmente começam bem e vão perdendo pique na medida em que as faixas avançam, A arte de viver roça a banalidade no início, quando Toquinho apresenta sambas com nível abaixo dos históricos do melodista e do poeta letrista.
Maria Rita e Toquinho em estúdio na gravação do samba ‘Papo final’
Otávio Souza / Divulgação
Papo final (derradeira DR feita por Toquinho com Maria Rita), Mão de Orfeu – homenagem da dupla de compositores (com a adesão de Eduardo Gudin) ao violonista Baden Powell (1937 – 2000), parceiro de Pinheiro – e mesmo o samba-título A arte de viver (salvo pela estrofe “O mundo é um brinquedo / Pra quem merecer / Quem brinca com medo / Do seu desenredo / Não sente prazer”) fazem supor disco bastante irregular.
Mas eis que algumas joias de médio quilate reluzem ao longo do álbum. Encrustada entre esses sambas iniciais, a valsa Amor pequeno brilha com o toque luminoso do bandolim de Hamilton de Holanda.
A canção Roda da sorte – composição também assinada por Edu Sangirardi e cantada por Toquinho com Camilla Faustino – exibe coesão ainda maior entre música, letra, interpretação e arranjo, conduzido pelo violão de Toquinho, instrumento sobressalente no disco produzido por Rafael Ramos.
No giro oscilante da safra autoral, o samba Fato novo – tentativa dos compositores de soarem atuais com crônica política sobre os crimes cometidos por autoridades municipais, estaduais e federais – põe a roda para baixo.
Curiosamente, é quando dirige o olhar para o passado que o poeta geralmente resulta mais inspirado. Medieval é trova melodiosa que reaviva o canto dos menestréis da Idade Média.
Toquinho lança o álbum ‘A arte de viver’, com 11 músicas inéditas feitas com Paulo César Pinheiro
Marcos Hermes
Em Ousadia, composição também creditada a Anna Setton, Paulo César Pinheiro perfila cabrocha da Mangueira em letra que remete ao universo poético dos antigos sambas com toque de maxixe. Com rimas em “inha”, a modinha Rainha e rei evoca o universo imperial desse gênero já ancestral. A intervenção vocal de Camilla Faustino – na segunda (boa) participação da cantora no disco – valoriza a faixa.
Samba em tons menores, arranjado com sopros orquestrados por Marlon Sette, Quero ficar com você completa o repertório do álbum A arte de viver, corroborando a sensação de oscilação da atual safra autoral de Toquinho e Paulo César Pinheiro.
Se o coração do ouvinte não se entregar já nos momentos iniciais do disco, haverá encantos pelo caminho até o desenlace grandioso com Tudo de novo. É que Toquinho reverte expectativas na arte de fazer música com Paulo César Pinheiro.