Thomas Vinterberg, diretor de ‘Druk’, fala sobre perda pessoal que inspirou filme indicado ao Oscar


Filha do cineasta morreu em acidente de carro dias antes do começo das gravações. Vinterberg concorre a Melhor Direção e Filme Internacional com filme dinamarquês. O diretor dinamarquês Thomas Vinterberg, de ‘Druk – Mais uma rodada’
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Por uma linha tênue entre a comédia e as sombras, “Druk – Mais Uma Rodada” narra o pacto de quatro professores dinamarqueses cansados do mundo que passam os dias embriagados em um “experimento” pouco científico.
O diretor Thomas Vinterberg escreveu o roteiro, originalmente uma peça de teatro, ao perceber que muitas grandes façanhas da história mundial foram feitas por pessoas que estavam frequentemente intoxicadas com álcool, a mesma substância que pode destruir suas vidas e famílias.
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Mas quatro dias antes do início das filmagens, a filha de Vinterberg morreu em um acidente de trânsito.
Como o cineasta conseguiu terminar o filme excepcionalmente divertido, terno e trágico, que rendeu uma indicação ao Oscar de melhor diretor?
“O filme sempre foi destinado a ser uma afirmação da vida e cheio de amor, e até certo ponto… cru “, disse Vinterberg à AFP em entrevista via Zoom.
“Mas a tragédia que aconteceu em minha vida deixou todos indefesos e abertos”, destacou.
A cerimônia do Oscar 2021 acontece neste domingo (25) e terá transmissão ao vivo no G1.
Cena do filme ‘Druk’
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Os professores são interpretados por quatro amigos e colaboradores de Vinterberg, incluindo Mads Mikkelsen, e todos passaram as filmagens fazendo “tudo que podiam para me fazer rir nestas circunstâncias”, conta o diretor.
“Havia tanto amor no set e acredito que é possível ver na tela”, disse Vinterberg, cujo longa-metragem é considerado o favorito para vencer o Oscar de melhor filme internacional no próximo domingo.
Embora o filme aborde claramente a questão do álcool, também é “sobre viver inspirado, sobre esquecer de si mesmo, sobre ser curioso e estar no momento e tudo o que acontece com a bebida”.
Estes elementos de afirmação da vida foram inspirados em sua falecida filha Ida, que interpretaria a filha de Mikkelsen, e cujos amigos da vida real interpretam os colegas de turma em uma competição de bebida entre adolescentes ao redor de um lago.
“Há um grupo alarmante de pessoas e países que se conectaram com esta coisa de beber”, brinca Vinterberg.
“Sim, eles bebem de maneira diferente na Califórnia. Eles colocam a garrafa em um saco (de papel), enquanto na Dinamarca os adolescentes correm pelas ruas com as garrafas à vista”, disse.
“Mas parece que o filme se conecta em um nível diferente e espero que tenhamos conseguido elevar este filme… a um filme sobre algo mais”.
Assista ao trailer de ‘Druk – Mais uma rodada’
“Meu próprio jardim”
O humor nem sempre esteve associado ao diretor, que foi um dos fundadores do movimento cinematográfico ascético de vanguarda Dogma 95 com Lars Von Trier, e dirigiu produções que abordam temas como o abuso infantil, incluindo “Festa de Família” e “A Caça”.
Mas Vinterberg, de 51 anos, costuma desafiar as categorizações.
O famoso “manifesto” do Dogma 95, que determinava rígidos limites naturalistas aos diretores, era sempre metade sério, metade irônico.
E apesar de ter feito uma incursão em Hollywood, com “Longe deste Insensato Mundo” de 2015, protagonizado por Carey Mulligan, também indicada ao Oscar em 2021 com “Bela Vingança”, seus filmes mais aclamados são dinamarqueses e locais.
“Parece que quando eu cavo meu próprio jardim é quando as pessoas realmente se interessam, também no exterior”, disse.
Os temas universais de “Another Round” (título em inglês) podem explicar em parte como Vinterberg conseguiu uma vaga entre os indicados a melhor diretor por um filme que não é falado em inglês (“Minari”, do também indicado Lee Isaac Chung, é falado em coreano e inglês).
“Os prazeres do álcool, mas também o lado destrutivo da bebida, existem há milhares de anos, em quase todas as culturas”, recorda Vinterberg.
O diretor serviu bebidas alcoólicas ao elenco durante os ensaios e todos assistiram vídeos russos do YouTube para observar episódios de embriaguez extrema.
O ator Mads Mikkelsen e o diretor Thomas Vinterberg nas filmagens de ‘Druk’
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“Nós precisávamos ver estes personagens naquele momento”, lembra. “Não era como se eles estivessem muito bêbados, de verdade, mas havia álcool”.
No set, no entanto, todos estavam sóbrios, explica Vinterberg. “Eles tinham que atuar, basicamente, o que penso que fizeram bem”.
Por mais que a produção de “Druk” seja uma história de contrastes (tragédia e camaradagem, humor e filosofia) os destinos dos professores divergem quando a tentação do álcool se apodera deles em diversos níveis.
Mas o próprio filme “não queria moralizar” ou “fazer uma propaganda do álcool”, disse Vinterberg.
“De forma muito importante, eu não queria ter uma mensagem”, conclui o cineasta.
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