Tantinho da Mangueira, a morte de um poeta partideiro e guardião da memória verde e rosa


Tantinho da Mangueira morre aos 72 anos e deixa obra que inclui disco com o repertório do compositor Padeirinho da Mangueira
Ronaldo Mattos / Divulgação
♪ OBITUÁRIO – “Em Mangueira, quando morre um poeta, todos choram”, ressaltou o poeta Guilherme de Brito (1922 – 2006) nos versos de Pranto de poeta (1957), samba da nobre parceria de Brito com Nelson Cavaquinho (1911 – 1986).
Sim, no morro de Mangueira, e também em redutos fora dele, muitos estão chorando desde a noite de domingo de Páscoa porque, aos 72 anos, morreu Devani Ferreira (21 de agosto de 1947 – 12 de abril de 2020), o cantor, compositor e partideiro carioca conhecido como Tantinho da Mangueira.
Mas, como também lembrou o poeta em outros versos do mesmo samba de 1957, o pranto em Mangueira é diferente. É sem lenço. Sim, muitos hão de estar chorando a morte de Tantinho através de um pandeiro e de um tamborim. Porque Tantinho da Mangueira foi bamba desde cedo. Foi grande. E precoce.
De família pobre, desfilou na Mangueira pela primeira vez aos cinco anos, avalizado pela mãe, integrante da ala de baianas da escola. Aos 13, Tantinho já integrou a ala de compositores da escola.
Diplomado informalmente na arte do partido alto, Tantinho teve Padeirinho da Mangueira (1927 – 1987) como um dos principais guias da vida e obra. Tanto que, no segundo e último álbum da curta discografia, Tantinho canta Padeirinho da Mangueira (2009), de título autoexplicativo, o discípulo reverenciou o mestre com o carinho verde-e-rosa.
Em nome do amor pela Mangueira, Tantinho abriu mão, no fim dos anos 1960, de continuar no grupo futuramente intitulado Os Originais do Samba, no qual ingressara a convite de Mussum (1941 – 1994) em formação ainda embrionária do conjunto, somente para não se afastar do morro. Perdeu dinheiro para ganhar o prazer de continuar entre os bambas como Cartola (1908 – 1980).
Guardião da memória verde e rosa, Tantinho conhecia a Mangueira – e os sambas feitos nos terreiros de Mangueira – como poucos. Álbum duplo editado há 14 anos de forma independente, Tantinho, memória em verde e rosa (2006) foi amostra desse talento do artista para preservar o legado dos compositores da comunidade em que viveu.
Tantinho sai de cena reverenciado por bambas e por quem preserva a memória do samba, mas sai de cena pouco conhecido fora desse universo específico. Contudo, seguidores de Maria Bethânia ouviram a voz do artista no álbum Mangueira, a menina dos meus olhos (2019).
A convite da cantora, Tantinho registrou no disco o samba que compôs para o enredo Maria Bethânia – A menina dos olhos de Oyá, com o qual a escola se sagrou campeã no Carnaval de 2016.
O samba de Tantinho perdera a disputa na qual o compositor foi vitorioso somente uma vez, em 1976, quando a Estação Primeira escolheu o samba-enredo dele, Panapanã – O segredo do amor (parceria com Jajá da Mangueira), para desfilar no Carnaval de 1977.
A escola perdeu na avenida, mas Tantinho, que tanto fez pela Mangueira, sai de cena como um campeão, invencível no quesito amor ao samba verde e rosa.