‘Sou vitorioso’, um dos funks mais tocados do ano, conta a história real de Lele JP


Letra autobiográfica descreve pobreza, fuga do crime e superação da vida difícil em favela de SP. ‘Funk consciente’ é cantado por MC evangélico de 18 anos; ouça história em podcast. Na nova geração do funk consciente de São Paulo, a música que foi mais longe em 2020 até agora é “Sou vitorioso”. A letra conta boa parte da história real da vida de Alessandro Venâncio Silva, de 18 anos, o Lele JP.
Ouça acima, no podcast G1 Ouviu, a história de Lele JP e da nova leva de MCs que cantam sobre a realidade das favelas de SP.
A parceria com o veterano Neguinho do Kaxeta saiu no final de 2019 e chegou ao 6º lugar nas paradas semanais do YouTube no Brasil.
Várias vidas aos 18 anos
A série “Sintonia”, do diretor de funk Kondzilla, mostra a relação de três jovens da periferia de SP com o funk, as drogas e a igreja evangélica. Lele viveu na pele, ao mesmo tempo, os mesmos dramas dos três personagens.
Lele JP no clipe de ‘Sou vitorioso’
Divulgação
“A gente revolucionou a parada”, ele diz sobre esse novo funk consciente. “Deus colocou os moleques para mudar isso daí.”
Lele passou a infância frequentando a Igreja Evangélica Vales das Bênçãos, do Jardim Peri, Zona Norte. Aos 12 anos, se apaixonou pelo funk e começou a cantar com amigos.
A tal revolução não foi fácil na vida dele. “Fui pai dos 15 para os 16 anos. Não podia depender da minha mãe e do meu pai, porque eles já carregavam uma responsabilidade imensa. Já cuidavam dos meus sobrinhos, de mim, dos meus sete irmãos”, ele conta
O pai adolescente se viu sem saída. “Para um moleque de comunidade, não tem muita opção”, diz Lele. Ele conta que foi procurar trabalho “na boca”. “Fiquei sem chão e minha filha ia nascer. Eu tive que me envolver na ‘vida loca’. Meu maior medo era me prender naquilo.”
Saída pelo funk
A saída para o caminho que ele não queria foi pelo funk, conta Lele. “Um empresário viu um vídeo meu, gostou, e me trouxe para perto”, ele conta.
O hit “Sou vitorioso” conta os três capítulos: a dificuldade (“A marmita era 15 / Não tinha um real no bolso”), a escolha errada (“Os menor sem opção / Solução é ir pra boca”) e a superação (“O jogo virou / Deus abençoou / Todos têm o livre arbítrio / Eu escolhi ser cantor”).
“Muitas pessoas hoje estão com um ponto de interrogação: o que eu vou fazer? Essa música é um testemunho de que Deus é a solução. E serve como inspiração”, diz Lele.
A filha dele, Ana Clara, já tem 2 anos. Na semana passada nasceu o segundo filho, Ravi.
“Comunidade não é um lugar muito visto. Poucos sabem o que se passa ali. O que precisa é projeto social. Oportunidade para a molecada”, conclui o cantor de “Sou vitorioso”.
MC Lele JP com a filha, Ana Clara
Reprodução / Instagram do cantor
No coração da comunidade
“Sou vitorioso” foi abraçada na cena do funk e é um fenômeno na periferia. Mas não chegou à classe média como outros hits de funk. Ela é muito ouvida no YouTube, plataforma gratuita, mas não se destaca no Spotify, por exemplo, serviço de streaming pago.
“Muitas pessoas estão se identificando pois passaram por isso. E muitas pessoas no momento estão com um ponto de interrogação. O que eu vou fazer? Essa música é um testemunho de vida. Creio que ela está tendo essa proporção por isso”, diz Lele.
Lele saiu do JP, o Jardim Peri, e agora mora sozinho em Pirituba. “Tudo isso é novidade. Nem sempre tenho minha mãe e meu pai para ficar aconselhando. Então estou batendo cabeça e aprendendo.”
‘Forrest Gump’ consciente
A letra autobiográfica de “Sou vitorioso” também exalta o parceiro da própria faixa: “O Lele era mente / Se espelhava no Kaxeta / No funk linha de frente”.
Neguinho do Kaxeta, 34 anos, é uma espécie de versão funkeira de Forrest Gump – o personagem de Tom Hanks que virou uma testemunha ambulante da história dos EUA.
Kaxeta viveu a primeira fase do funk consciente de SP, na Baixada Santista, no início dos anos 2000. Fez sucesso na onda seguinte, da ostentação, com versos sobre luxo. E também seguiu na fase anterior, das letras sexuais. Agora, volta ao consciente como referência para os novinhos.
“O funk consciente está na raiz da periferia, e acho que as pessoas estavam sentindo falta disso”, opina. “Essa molecada vai ficar, porque tá fazendo um funk que a periferia gosta. Mas eu sempre passo para eles que para ter a moto, tem que trabalhar”, diz o professor consciente.
Lele JP e Neguinho do Kaxeta em gravação de DVD
Reprodução / Instagram / Lele JP