Sobreviventes da chacina da Candelária ficaram abrigados em favela na Zona Norte do Rio


Quatro barracos acolheram 42 jovens que viviam na região. Crime completa 25 anos e policiais militares responsáveis pelo crime estão fora da cadeia. Segundo a ativista Cristina Leonardo, nem dez sobreviventes do massacre estão vivos. Candelária ainda mantém homenagens às vítimas da Chacina ocorrida em 23 de julho de 1993
Marcos Serra Lima/G1
Não tardou para que sobreviventes da chacina da Candelária voltassem a viver nas ruas. Poucas semanas após a brutalidade da execução de oito jovens por policiais militares, em julho de 1993, testemunhas estavam de novo sem teto – e assim permaneceriam não fosse um telefonema em que foi oferecido abrigo para dezenas delas. Nesta segunda-feira (23), o crime completa 25 anos, e o G1 mostra como foram os meses seguintes ao crime.
Assista a reportagens do Jornal Nacional seguinte à tragédia
“Um pessoal que eu conhecia no Morro da Cachoeirinha [no Complexo do Lins, na Zona Norte] me falou: ‘Doutora Yvonne, tem aqui quatro barracos à sua disposição para trazer as crianças’. Isso ninguém sabe, porque eu nunca falei”, revela a a artista plástica e voluntária Yvonne Bezerra de Mello, que trabalhava com os meninos da Candelária.
“Aí levei as crianças para lá. Eles ficaram um mês e meio. Eu organizava, dava comida, aquela coisa toda. Era uma maneira de mantê-los juntos. Eu levei 42 crianças para aquelas casas”, revelou Yvonne.
Uma dessas crianças era Thiago Veríssimo, à época com 6 anos. Ele inspirou Yvonne a criar o que anos mais tarde seria o Projeto Uerê, escola-modelo para crianças com bloqueios de aprendizagem devido à violência.
“O Thiaguinho tinha uma mãe que morava na rua, ali no no Mangue. Aí eu fui ver aquela favelinha. Falei: ‘Sabe de uma coisa? Vou fazer uma escola aqui no meio da rua’. E assim eu fiz”, disse. Nascia embaixo de um viaduto o Projeto Coqueirinho, batizado com o nome da favela.
“Montamos uma sala de aula com tapumes. Levei essas crianças todas para lá. Nesse viaduto eu fiquei quatro anos”, relembrou.
Quatro anos depois, o Coqueirinho foi para a Maré, onde, no ano seguinte, seria rebatizado de Uerê. O local hoje atende 400 crianças.
No detalhe, as silhuetas vermelhas que representam as vítimas do massacre: oito jovens, sendo seis menores de idade, foram mortos por policiais militares
Marcos Serra Lima/G1
Fichas para o orelhão
O esforço em educar as crianças da Candelária vinha da atenção que Yvonne dedicava ao grupo – e que lhe deu uma intuição horas antes do crime. Não conseguiu evitá-lo, mas lhe ajudou a amparar os sobreviventes momentos após a chacina.
No dia 23 de julho de 1993, após um protesto próximo à Igreja da Candelária que terminou com um morador de rua preso e um carro da PM apedrejado, Yvonne entregou aos meninos de rua da região três fichas de telefone.
“Eu tinha uma intuição. Falei: ‘Se acontecer alguma coisa hoje, vocês me ligam”. Eram por volta de 20h. Pouco antes da meia-noite, a primeira ligação anunciava um dos crimes mais marcantes da história do Rio.
“Tia, vem correndo que eles tão matando a gente!”.
Yvonne relata que foi a primeira a chegar ao local e a ver os corpos.
Paulo Roberto de Oliveira, 11 anos;
Anderson de Oliveira Pereira, 13 anos;
Marcelo Cândido de Jesus, 14 anos;
Valdevino Miguel de Almeida, 14 anos;
“Gambazinho”, 17 anos;
Leandro Santos da Conceição, 17 anos.
Paulo José da Silva, 18 anos;
Marcos Antônio Alves da Silva, 19 anos.
Com o clima de horror e luto instalado na região, ela afirmou que a prioridade era cuidar dos vivos.
“Peguei aquelas crianças, botei todas à minha volta. E cantei, enfim, uma série de coisas que eu fiz para acalmar as crianças, e aí começaram a chegar as pessoas. Eu fiquei sentada naquela posição até as seis da manhã”, contou ela.
Assassinos tinham um alvo
Os sobreviventes contaram que os algozes chegaram à praça em frente à Igreja da Candelária chamando um nome. Seria Marco Antônio Alves da Silva, o Come-Gato, um dos líderes do grupo.
Sem resposta, já que muitos estavam dormindo, dispararam suas pistolas sobre o grupo, que naquele momento tinha cerca de 40 jovens.
Come-Gato foi expulso de casa pelo pai, inconformado ao descobrir que o filho era gay. O jovem acabaria recebendo outros rapazes sem teto da Favela do Rato Molhado.
Os assassinos eram:
Marcos Aurélio de Alcântara
Marcus Vinícius Emmanuel Borges
Nelson Oliveira dos Santos Cunha
Maurício da Conceição, o Sexta-Feira Treze
Destinos pós-chacina
Para quase todos os sobreviventes da chacina, a vida não foi fácil nos anos seguintes: muitos continuaram nas ruas e morreram doentes ou vítimas da violência urbana. Até meados dos anos 2000, eram catalogados 71 sobreviventes da chacina.
“Podemos dizer que apenas 10% dos sobreviventes podem estar vivos”, afirmou a ativista Cristina Leonardo.
Cristina também é um nome importante na história da chacina. Como ela e o grupo de voluntários que coordenava costumavam ajudar na obtenção de documentos pelos menores, ela preencheu fichas com os nomes e histórias de cada um que habitava aquela área. Um vídeo também foi gravado na antevéspera da chacina. Após o crime, estes documentos foram entregues à polícia. Ela também foi testemunha no processo judicial.
O caso mais famoso envolvendo um sobrevivente da Chacina é o de Sandro Barbosa do Nascimento, que sete anos após o massacre sequestrou um ônibus da linha 174 (Central-Gávea) no dia 12 de junho de 2000. O sequestro terminou de maneira trágica: a vítima Geísa Firmino Gonçalves, usada por ele como escudo no momento que ele se entregaria à polícia, morreu após ser atingida pelo tiro de um policial militar que tentou atingir Sandro. Este, por sua vez, foi asfixiado por policiais na viatura da PM após ser preso e também morreu.
Polícia tenta negociar rendição de Sandro Barbosa, em 12 de junho de 2000; Geísa, usada como escudo humano, foi morta com um tiro da PM e Sandro foi asfixiado em viatura
Reprodução/Globonews/Arquivo
Conhecida como Beth Gorda, Elizabeth Cristina de Oliveira Maia morreu em setembro de 2000. Ela estava em Botafogo, na Zona Sul, quando três homens saíram de dentro de um carro e atiraram contra ela. Beth, que morreu com três tiros na cabeça, havia sido namorada de Sandro do Nascimento e também era uma sobrevivente. Era considerada uma líder e que ajudava os outros menores que conviviam com ela na época da chacina.
Thiago Veríssimo, o Thiaguinho, morreu atingido por uma bala perdida na Maré em 2013.
Gina tinha 8 anos no dia 23 de julho de 1993. Ela morreu na casa de parentes na Zona Oeste do Rio em 2014, após passar alguns anos em um manicômio judiciário.
A irmã de Wagner Santos, uma das principais testemunhas sobreviventes da Chacina, contou ao G1 em 2015 que, na época, o irmão tinha pesadelos com a chacina, além de problemas de visão e audição. No dia do crime, Wagner levou quatro tiros. Meses após o crime, sofreu outro atentado a tiros e, por isso, foi morar na Suíça.
Na infância do Estatuto
O crime da Candelária ocorreu três anos após a criação do Estatuto da Criança e Adolescente, em 1990. “Ver o acontecimento de uma chacina desse tamanho no centro de uma das principais cidades do país mandou uma mensagem ao Brasil de que tínhamos e continuamos tendo um longo trabalho pela frente”, afirmou a diretora-executiva da Anistia Internacional, Jurema Werneck.
Ela ressaltou que a chacina foi causada por policiais fora de serviço e que a letalidade das ações de agentes públicos que deveriam proteger a população continua a ser um problema.
“E agora, em 2018, o assassinato de crianças e adolescentes cresce. E não apenas cresce, está aumentando o número de crianças e adolescentes assassinados, mas a idade das crianças e dos adolescentes está baixando. O problema está aprofundando em vez de resolver, apesar de termos instrumentos, inclusive o Estatuto da Criança e Adolescente, que é adequado, para impedir que este tipo de violação dos direitos humanos aconteça”, destacou Werneck.
Sequestro e indiferença
Após 25 anos, moradores de rua continuam vivendo na região próxima ao local do massacre
Marcos Serra Lima/G1
Yvonne, após as mortes dos oito na chacina, resolveu fazer uma vigília diária na Candelária até a data em que houvesse o julgamento, que só ocorreria dois anos depois. Um dia, saindo de um carro, viu que dois veículos se aproximaram dela: era um sequestro. Os criminosos, encapuzados, a levaram para Acari, na Zona Norte do Rio.
“Lá era fuzil na minha cabeça, dizendo que eu não podia testemunhar. Eu estava pronta para morrer. Mas, de repente, eles não me mataram, enfim. E eu fiquei ali pensando: o que fez com que aqueles policiais não me matassem? Até hoje não sei”, reflete Yvonne.
O caso não foi denunciado por vontade da própria Yvonne. “Eu precisava estar focada no julgamento, e foi o que fiz. Se eu fizesse algum alarde daquilo, podia sair perdendo”.
Se após a chacina autoridades apareceram para lamentar os mortos, quando eram vivos não houve ajuda, diz a ativista. “Eu realmente fiz a minha parte de tentar resolver a situação deles. Mas eu não tive eco. Só depois da morte deles aí apareceu todo mundo como defensores da pátria. Posso dizer com certeza que ninguém ajudou”, garante.
Investigação e prisões
O Coronel Valmir Alves Brum, que foi um dos chefes da investigação interna da Polícia Militar sobre o caso, explicou que, além dos três PMs condenados pela Justiça, outros três também foram processados em 1995. Eles, no entanto, tiveram a absolvição pedida pelo Ministério Público.
Um grupo foi executado na Candelária e outros dois jovens foram executados no Aterro do Flamengo. Algumas armas que foram utilizadas na Candelária foram utilizadas no Aterro, de acordo com o exame de balística.
Segundo o oficial, de seis a oito pessoas participaram do crime, liderado por Emmanuel, que era do Comando de Policiamento de Trânsito (Cptrans) na região da Candelária. O carro que ele utilizava foi alvo de pedras horas antes das mortes.
Ao levar quem apedrejou seu carro para a 1ª DP (Centro), não gostou do tratamento dado ao caso pela Polícia Civil e prometeu vingança. Juntou Alcântara, do 6º BPM, e Cunha, que havia acabado de dar baixa no Batalhão de Choque, além de outros PMS, para ir à forra na Candelária.
“Algumas colaborações na época quando eu comandei o Batalhão de Choque foram importantes. No setor prisional de lá, alguns presos, indignados com a situação que ocorreu, relataram a participação de outros elementos e não aqueles que estariam presos”, contou ele.
Nelson de Oliveira dos Santos Cunha foi o primeiro a ser condenado, a 261 anos de prisão em 1996; Marcos Aurélio Dias Alcântara, a 204 anos em 1998. Emmanuel foi sentenciado em 2003 a 300 anos de reclusão em regime fechado. Todos eles, no entanto, saíram antes de completarem 20 anos de pena.
Outro policial, Arlindo Afonso Lisboa Junior, foi condenado a dois anos de prisão por ter com ele uma das pistolas usadas no crime, um revólver Rossi, calibre 38, quando foi preso em 1994 por roubo de carro.
Emanuel foi o último a sair da cadeia, em 2012, graças a um indulto.
Decreto assinado em 2010 permite que o benefício do indulto seja concedido a condenados por crimes considerados não hediondos que tenham cumprido 15 anos ininterruptos de pena com bom comportamento. O caso de Marcus Vinícius se encaixa nos requisitos, já que o homicídio qualificado do qual é acusado só passou a ser considerado hediondo em 1994, um ano após a chacina.
Após o indulto, o Ministério Público estadual, então, recorreu ao Superior Tribunal de Justiça (STJ). Após um ano, os ministros do órgão suspenderam o benefício, e um pedido de prisão preventiva foi feito pela Vara de Execuções Penais. Porém, nunca foi cumprido, e Emmanuel está foragido desde então.
No início dos anos 90, região chegou a ter mais 70 crianças de rua morando próximo à igreja
Marcos Serra Lima/G1

Linha do tempo de acontecimentos da Chacina da Candelária
Fernanda Garrafiel/Editoria de Arte G1