Síria: Por que massacres com armas convencionais são tolerados?

Crianças na Síria estão longe das escolas

Crianças na Síria estão longe das escolas
Reuters/Ali Hashisho/16-04-18

Enquanto levava meu filho para a escola, me veio a surpresa.

— Pai, o que é arma química?

Fiquei meio receoso em falar sobre assunto tão degradante com uma criança, mas, diante da insistência, tive de responder:

— É quando uma bomba tem algum gás venenoso que mata muitas pessoas ao mesmo tempo.

O farol fechou. Observava a paisagem dinâmica da avenida que contorna parte do Parque Ibirapuera: pessoas esperando no ponto, outras de bicicleta e as que iniciavam o dia com uma gostosa caminhada.

O sol se esperguiçava no horizonte de prédios. Alguns raios já roçavam a copa de árvores quase centenárias, realçando a beleza bucólica na paisagem urbana.

Pensava no Monumento às Bandeiras, escultura que mostra como a vida precisa de labuta para desencalharmos os barcos e navergarmos por nossos sonhos.

Sonhos cortados por buzinadas apressadas para penetrar na Avenida Brasil. E acalentados pela brisa da manhã, se desvendando entre o céu e o asfalto.

Fúria e ternura, é disso que se compõe a vida. E uma cidade turbulenta como São Paulo também é repleta de espaço para a contemplação.

Diferentemente de Damasco, Aleppo, Ghouta e outras belas cidades imersas na tensão e nas ruínas que tanto instigaram a imaginação de meu filho. Sei disso porque ele completou, após me perguntar quantas pessoas morreram nessa guerra síria.

— 511 mil? E não foram todas com armas químicas? Então por que só reclamam quando a Síria solta armas químicas?! Não é justo! As outras armas também matam. Deveriam reclamar de todas. E acabar com essa guerra de uma vez.

Contornamos o monumento e entramos na República do Líbano, aliás, vizinho da Síria, o tema daquele assunto. O trânsito estava bom e o pensamento dele fluía, como o próprio sol que ganhava força naquele momento.

Falamos pouco no resto do caminho. Eu fiquei pensando naquelas palavras. Pensei em como muitas dessas pessoas morreram após massacres em escolas, hospitais e casas, sem que as potências ocidentais agissem.

Deixei o garoto na escola, superando a fila de carros, a pressa e a preocupação em tirar a mala do carro. Acompanhei-o com os olhos, enquanto ele percorria a calçada e, com seus passinhos dóceis, atravessava a pequena via rumo à rampa, até finalmente entrar. E se misturar ao normal alarido da infância.

No horário certo. Um alívio, dentro das particularidades de minha vida. Dentro do que estava ao meu alcance, além de algum tipo de doação. Consciente de como muitos sírios, pais de suas crianças, sonhavam um dia poder fazer igual. Sem a ameaça das armas químicas ou convencionais.

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No que dependesse de mim, ficou apenas torcida, intensa é verdade, por algum fato novo. Caso, por exemplo, o presidente Trump caísse, se confirmadas manobras para esconder relacionamentos antigos.

Ou se Putin renunciasse em meio a acusações da oposição. Do caos, enfim, poderia se fazer a luz. E a solução definitiva para a guerra estava clara. Eleger presidente um menininho de nove anos.

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