Silva se desvia da obviedade dos ‘greatest hits’ ao resumir dez anos de disco em dez faixas


Álbum ‘De lá até aqui’ reitera a fluência pop da obra recente do artista em regravações feitas em molde acústico e minimalista. Capa do álbum ‘De lá até aqui’, de Silva
Arte de Flora de Carvalho
Resenha de álbum
Título: De lá até aqui
Artista: Silva
Edição: Farol Music
Cotação: * * * 1/2
♪ Faz hoje exatos dez anos que, em 4 de outubro de 2011, Lúcio Silva de Souza – então um jovem cantor, compositor e músico capixaba de vinte e poucos anos – jogou na rede o primeiro EP. No título desse EP, Silva, havia apenas o sobrenome que virou nome artístico. O nome com o qual Silva cresceu no mercado da música e apareceu progressivamente para o público brasileiro.
De queridinho imediato dos incensadores da cena indie nativa, Silva virou a chave e flertou com o mainstream, gravando com estrelas blockbusters como Anitta, pondo literalmente o bloco na rua e conquistando plateias maiores em raro caso de bem-sucedido crossover na indústria do pop nacional.
Lançado na sexta-feira, 1º de outubro, o álbum De lá até aqui sintetiza dez anos de carreira fonográfica e um pouco mais de estrada – o artista já fazia shows antes de debutar em disco com o EP Silva em 2011 – em dez faixas.
Ao resumir essa vitoriosa década fonográfica, Silva se desvia da obviedade dos greatest hits, enquadrando em moldura acústica – urdida pelo toque do violão ou do piano – músicas menos batidas do repertório. Uma delas é Cansei (2011), música composta em Dublin em 2009 e assinada pelo artista com o irmão Lucas Silva, parceiro habitual na criação do repertório autoral que abastece a discografia de Silva.
Cansei apareceu há dez anos no seminal EP de 2011, ressurgiu um ano depois no álbum Claridão (2012) e, dez anos depois da gravação original, volta à discografia do artista com apelo pop até então encoberto por arranjos cheios de camadas. A trama simples de violões (de aço) do arranjo atual tem a energia que por vezes parece faltar ao canto desplugado de Silva.
Os tons pastéis do canto de Silva ditam a cor da única canção inédita do álbum, Pra te dizer que tô feliz assim, outra parceria dos irmãos. A canção versa sobre a caminhada do artista de lá, de 2011, até este ano de 2021.
Silva grava sucesso do grupo Ara Ketu até então inédito na discografia do artista
André P. / Divulgação
“Meu caminho não é reto pra lá / Ninguém me falou onde é que ia dar / Eu saí com a certeza de errar / Cheguei para não voltar”, avisa Silva, com a determinação que o fez investir há dois anos em show povoado por hits da axé music.
Bloco do Silva estreou em 2019 e virou (questionável) álbum ao vivo nesse mesmo ano. Só que Amantes (Marcelo e Paulo Sérgio Valle, 2000) – canção romântica apresentada pela banda baiana Ara Ketu na cadência do samba em gravação feita há 21 anos para o álbum Vida (2000) – ficou fora do disco ao vivo derivado do Bloco e agora entra na discografia de Silva em registro de estúdio feito para o álbum De lá até aqui no molde minimalista dessa revisão acústica.
A faixa faz sentido pelo fato de a música Amantes estar entranhada na memória afetiva do artista, assim como os outros hits do cancioneiro afro-pop-baiano rotulado como axé music. Tanto que Silva chegou a gravar com Ivete Sangalo um samba-reggae romântico, Pra vida inteira (2019), composto por Lucas Silva (mas creditado aos dois irmãos) especialmente para o dueto de Silva com a estrela baiana.
Pra vida inteira reitera a fluência pop da obra mais recente dos irmãos e também se justifica no disco De lá até aqui por ter sido música lançada em single avulso, dissociado de álbum.
Totalmente dispensável é a lembrança de Não é fácil (Marisa Monte, Carlinhos Brown e Arnaldo Antunes, 2000) – herança do show de 2015, do álbum de estúdio de 2016 e do redundante disco ao vivo de 2017 em que Silva abordou o repertório de Marisa Monte em movimento que sedimentou a guinada pop esboçada pelo cantor com o terceiro álbum, Júpiter (2015), de cujo repertório o cantor recicla Sou desse jeito (Lúcio Silva e Lucas Silva, 2015) em gravação inicialmente a capella até a entrada de violino de toque menos lírico do que o habitual.
Já No seu lençol (Lúcio Silva e Lucas Silva, 2020) se distancia da praia do reggae e do rocksteady em que se banhou no álbum Cinco (2020), mas permanece em águas plácidas, com ecos de MPB cheia de bossa, em ambiência similar em que Silva aclimata Duas da tarde (Lúcio Silva e Lucas Silva, 2018), composição do álbum intitulado justamente Brasileiro (2018).
Já a canção Ainda (Lúcio Silva, 2014) representa nessa revisão o segundo álbum do artista, Vista pro mar (2014), e também o piano, instrumento que inspirou a criação da composição.
A propósito, é no toque do piano elétrico que Silva cai no suingue do pagode Um pôr-do-sol na praia (Lúcio Silva e Lucas Silva, 2019), gravado originalmente com Ludmilla. O samba pop fecha o disco revisionista em que Silva sintetiza dez anos de carreira, olhando para trás, mas com foco mais nítido, aparentemente seguro de que jamais voltará ao começo.