Semente e Simone Mazzer não tiram o sorriso do caminho para passar em disco a dor de Nelson Cavaquinho


A cantora e o grupo abordam a obra do compositor no clima alegre de roda de samba. Capa do álbum ‘Grupo Semente & Simone Mazzer cantam e tocam Nelson Cavaquinho’
Arte de João Callado
Resenha de álbum
Título: Grupo Semente e Simone Mazzer cantam e tocam Nelson Cavaquinho
Artistas: Grupo Semente e Simone Mazzer
Gravadora: Biscoito Fino
Cotação: * * *
♪ Artista incensada pela veia dramática do canto, amplificada pela potência vocal dessa intérprete paranaense conhecida inicialmente pelo trabalho de atriz na Armazém Companhia de Teatro, Simone Mazzer despontou em escala nacional como cantora nos anos 2010.
Dois álbuns impactantes, Férias em videotape (2015) e Simone Mazzer & Cotonete (2017), confirmaram o poder e a versatilidade do canto da intérprete. Terceiro álbum da artista, Grupo Semente e Simone Mazzer cantam e tocam Nelson Cavaquinho reverte as expectativas geradas pelo dois discos antecessores.
O pulso teatral da cantora soa enfraquecido neste encontro com o grupo carioca celebrado nas rodas de samba do bairro carioca da Lapa desde 1998. De título autoexplicativo, o álbum – gravado em estúdio e lançado em CD e em edição digital nesta sexta-feira, 31 de janeiro, através da gravadora Biscoito Fino – alinha, em 14 faixas, 17 músicas do roteiro do show de 2018 em que Mazzer e o grupo abordam a obra do compositor carioca Nelson Cavaquinho (29 de outubro de 1911 – 18 de fevereiro de 1986).
Bamba singular, Cavaquinho está imortalizado pela habilidade de descer ao inferno astral com samba melancólico e mergulhado em universo poético povoado pela sombra da morte que espreita nobres vagabundos calejados por abandonos, dores e humilhações.
Com capa que expõe arte de João Callado, integrante do grupo, o álbum Grupo Semente e Simone Mazzer cantam e tocam Nelson Cavaquinho soa como trilha sedutora das rodas de samba comandadas por Bernardo Dantas (violão de sete cordas), Bruno Barreto (voz e percussão), Callado (cavaquinho), Marcos Esguleba (percussão) e Maninho (percussão).
Até porque, nos registros de sambas como O dono das calçadas (Nelson Cavaquinho e Guilherme de Brito, 1980) e Folhas secas (Nelson Cavaquinho e Guilherme de Brito, 1973), a voz de Mazzer está integrada ao canto gregário do grupo, harmonizada com o tom de Bruno Barreto, vocalista do Semente.
Sobressalente em todo o disco, sobretudo no registro instrumental de Notícia (Nelson Cavaquinho, Alcides Caminha e Nourival Bahia, 1955), a azeitada cozinha do grupo sublinha o fato de o disco ser veículo mais para a exposição das notáveis habilidades rítmicas do Semente do que para a propagação da potência do canto de Mazzer.
Não dá para identificar o habitual arrebatamento do canto da intérprete na abordagem do samba Duas horas da manhã (Nelson Cavaquinho e Ari Monteiro, 1972), por exemplo, em gravação introduzida pelo bafo quente do saxofone de Eduardo Neves. A cantora também dilui a melancolia resignada de Eu e as flores (Nelson Cavaquinho e Jair Costa, 1968), samba unido no disco ao sucesso A flor e o espinho (Nelson Cavaquinho, Guilherme de Brito e Alcides Caminha, 1957).
Até mesmo a teatralidade de Luz negra (Nelson Cavaquinho e Amâncio Cardoso, 1961) – samba recentemente gravado por Maria Bethânia em disco em louvor à Mangueira – se dissipa no registro de Mazzer.
Grupo Semente e Simone Mazzer gravam o samba ‘Vou partir’ em tom carnavalesco
Divulgação
A questão é que, no disco, a cantora parece voluntariamente subjugada ao tom e ao universo musical do Semente. É como se Mazzer fosse a solista convidada do grupo e não coprotagonista do álbum. Mal nenhum há nisso se ficar entendido que o disco é mais do Semente do que de Mazzer.
Feita tal ressalva, cabe ressaltar a solidez dos arranjos criados por Bernardo Santos e João Callado dentro do terreno em que está fincado o Semente. Em repertório dominado por standards de Cavaquinho como Palhaço (Nelson Cavaquinho, Oswaldo Martins e Washington Fernandes, 1951), samba solado pelo vocalista Bruno Barreto, também merece menção honrosa a propagação da pérola rara Enquanto a cidade dorme (1975), parceria de Nelson com outro Cavaquinho, o Jair Araújo de Costa (1922 – 2006).
Jair do Cavaquinho – como era conhecido esse bamba portelense – também é parceiro de Nelson em Vou partir (1965), samba que arremata o álbum em empolgante medley de pique carnavalesco com Sempre Mangueira (Nelson Cavaquinho e Geraldo Queiroz, 1972).
Enfim, em qualquer roda de samba, Simone Mazzer e Grupo Semente garantirão a alegria dos presentes com as (boas) gravações convencionais de sambas como Minha festa (Nelson Cavaquinho e Guilherme de Brito, 1973) e Nome sagrado (Nelson Cavaquinho, José Ribeiro e José Alcides, 1974).
Sob tal prisma, o disco é bom. Só que a cantora e o grupo quase nunca tiram o sorriso do caminho para passar no disco a dor que alimentava o cancioneiro de Nelson Cavaquinho, bamba da morbeza pouco romântica.