Sem sono? Conheça o pop de ninar, que embala luta contra insônia na pandemia


Ariana Grande, Katy Perry e Post Malone entram na onda de músicas sonolentas para o mercado bilionário de apps de meditação e relaxamento, que cresceram em meio à ansiedade da quarentena. Entenda a onda do Pop de Ninar
Essa música dá um sono… O que era crítica virou um filão. A pandemia gerou ansiedade e, com ela, veio a insônia. Os apps de celular que ajudam a meditar e dormir viraram um mercado bilionário, e agora contratam astros pop para criar versões alongadas de hits e novas faixas sonolentas.
Entenda a nova onda do pop de ninar no vídeo acima e no texto abaixo.
Produtores como Moby e Julianna Barwick já criavam faixas longas, arrastadas, para fãs meditarem e relaxarem.
Eles foram recrutados pelo app Calm, o maior do mercado, para criar faixas exclusivas.
Deu certo, e o Calm assinou com Ariana Grande, Katy Perry, Post Malone, Shawn Mendes e outros ídolos para fazer versões de seus hits para dormir.
Há remixes que esticam antigos hits de 3 minutos para mais de uma hora e faixas novas.
O app concorrente Headspace contratou John Legend como diretor musical. Ele chamou artistas como a banda canadense Arcade Fire para fazer faixas soníferas.
Outro app neste mercado aquecido é o alemão Endel, que criou com a cantora Grimes um projeto de sons para o cochilo comandadas por um algoritmo.
No Brasil, a indústria não acordou para esse mercado, mas há canais caseiros no YouTube que chegam a até um bilhão de views.
O que a ciência do sono diz? Há pesquisas que confirmam e outras que questionam a eficácia da música. O jeito é testar…
Um estudo da Associação Brasileira do Sono, feito com 6.350 brasileiros e divulgado nesta sexta-feira (16), indicou que a média de tempo de sono caiu de 7,2 horas para 6,2 horas diárias. A insatisfação quanto à duração e à qualidade do sono subiu de 44,5% para 72,7% dos entrevistados.
Corona-insônia: o fenômeno que está impedindo as pessoas de dormir na pandemia
Só a Calm, maior empresa do mercado de apps de relaxamento no mundo, é avaliada em mais de US$ 2 bilhões. Junto de outros apps como Headspace e Meditopia, são mais de 65 mil downloads, com uma média de 50 mil novos usuários por dia no mundo.
John Legend em vídeo do app Headspace, que o contratou como diretor musical
Divulgação
Graaande hit…
Esse mercado bilionário e crescente dos apps se cruzou com uma indústria musical em ritmo de espera na quarentena – e fãs ansiosos em casa. Os artistas estavam mais abertos a fontes de renda diferentes, e todo mundo sai ganhando com a parceria.
A Calm lançou remixes longos e calminhos de Ariana Grande (“Breathin’”), Kacey Musgraves (“Golden Hour”), Katy Perry (“Double Rainbow”)” Luis Fonsi (“Sola”), Post Malone (“Circles”) e Shawn Mendes (“Wonder”), todos ainda exclusivos para assinantes do app.
Músicas no app Calm incluem remixes esticados e sonolentos de Ariana Grande, Katy Perry e outros, e faixas inéditas de artistas como Keith Urban, sempre para relaxar e adormecer
Reprodução
O Calm também lança faixas inéditas de músicos como o cantor Keith Urban e a banda Sigur Rós (que não precisou mudar muito seu som para esta finalidade). O repertório do app ainda tem “histórias para dormir” narrada por famosos como LeBron James, Matthew McConaughey, Laura Dern e Lucy Liu.
Ninada do futuro
A empresa alemã Endel criou um app com sons comandados por um algoritmo que considera fatores como horário, o local, a temperatura, o uso do aparelho e até seus batimentos cardíacos para escolher a frequência perfeita para te derrubar.
O app da Endel tem músicas criadas pela Grimes. Além de colocar para ninar seu filho com o empresário Elon Musk, o bebê chamado X Æ A-Xii, ela agora também embala o sono dos usuários do Endel.
“Nós coletamos os samples dela, alimentamos o algoritmo e criamos essa versão personalizada”, explica Oleg Stavitsky, fundador da Endel. Para ele, essas “paisagens sonoras”, feitas para dormir, não competem com a música pop comum, para ouvir acordado, mas abrem novas possibilidades.
“Você ainda tem um gostinho do seu artista preferido nessa paisagem sonora. Isso para mim é fascinante. Acreditamos que esse seja um novo formato.”
Segundo Oleg, o Brasil está entre os cinco países que mais usa o Endel. O app tem três funções: meditação, foco e sono. A mais usada pelos brasileiros é a de dormir. O empresário é fã de Gilberto Gil e sonha em incluir músicas brasileiras entre os sons calmos do aplicativo.
Brasil: canais na sombra
A indústria brasileira não acordou para esse filão. A nova onda de licenciamento de hits e novas canções de repouso não chegou ao mercado daqui. Mas onde tem insônia, tem música. Canais do YouTube com produções caseiras têm audiência gigante.
O maior canal brasileiro do ramo, criado em 2007 só com músicas para relaxar, tem 1,3 bilhão de visualizações e 5,6 milhões de assinantes. O canal tem o nome do seu dono, Cássio Toledo. Ele não se apresenta como músico, não é ativo em outras redes e não respondeu aos contatos do G1.
No sombrio setor de canais de YouTube de músicas para dormir, é comum o roubo de vídeos: canais simplesmente baixam o conteúdo de outros e republicam. O criador tem que ficar alerta e pedir para o site derrubar os vídeos surrupiados. Há muitos canais sem nome e autoria claros.
O segundo maior canal brasileiro, no entanto, não tem mistério: o criador é um músico experiente, o multi-instrumentista gaúcho Daniel Nodari. Ele também dava aula de ioga e fazia vídeos relaxanteis havia mais de cinco anos quando a pandemia começou. Daniel viu sua audiência disparar.
O canal dele já soma mais de 230 milhões de views e tem quase 1 milhão de assinantes. Ele não revela números, mas diz que dá para se sustentar com a renda dos vídeos no YouTube. E qual a fórmula das músicas para dormir? O músico dá dicas:
Sons graves e médios são melhores que agudos. Muita gente associa barulhinhos finos ao sono, mas Daniel aprendeu que essa frequência pode despertar pessoas prestes a apagar.
Evitar acordes dissonantes (com combinações de notas que podem soar desarmoniosas e dar sensação de tensão) e o “excesso de informação” musical.
A música pode até começar com alguma força, mas vai ficando muito simples. É como se ela fosse se dissolvendo até virar uma nota só – a mesma fórmula dos remixes da Calm.
Daniel Nodari já embalou mais de 230 milhões de sonos e sessões de meditação com suas músicas no YouTube
Divulgação
E funciona?
Danilo Sguillar, diretor da Associação Brasileira de Medicina do Sono, aponta muitos estudos que mostram o potencial de a música fazer adormecer. Mas também há pesquisas que indicam que o tiro de sonífero musical pode sair pela culatra.
Um estudo publicado em 2019 na revista “Nature” mostrou que a música aumenta a fase de ondas lentas, período mais restaurador do sono. Mas uma pesquisa divulgada em 2000 pela “Physiology & Behavior” indicou que pessoas em privação de sono podem demorar mais a dormir com música.
Então o que o dr. Danilo diria pra um fã que quer saber: esse tal pop de ninar funciona mesmo? “O que a gente costuma fazer é devolver a pergunta ao paciente. ‘Para você te acalma, relaxa?’ Porque é muito individual”, ele diz. A música pode, sim, ajudar a recuperar o sono de muita gente.
Mas para outras, o som pode, pelo contrário, excitar mais o sistema nervoso central. É o caso de músicos profissionais e pessoas com o ouvido musical sensível. A dica bate com o relato de Daniel: ele não consegue nem cochilar ouvindo as faixas que cria – começa logo a pensar em trabalho.