Samba faz o espetáculo da democracia no Carnaval do Rio


♪ ANÁLISE – “Durante perseguido”, como lembrou Nelson Sargento em verso de Agoniza, mas não morre (1979), o samba quase sempre foi oposição em mais de um século de existência.
Nem poderia ter sido diferente por ter sido gestado, entre a Bahia e o Rio de Janeiro, por um povo negro, pobre, marginalizado pelo poder oficial.
O samba tem, ele próprio, poder. Tanto que, na era do samba-exaltação, iniciada com a explosão de Aquarela do Brasil (Ary Barroso) em 1939, o gênero foi usado por governos para retratar o Brasil com cores ufanistas. A ação de marketing funcionou durante um tempo, mas sem apagar na história e nos terreiros o tom da resistência, predominante na aquarela já secular do samba.
No Carnaval de 2020, esse tom resistente foi realçado nos desfiles de várias escolas de samba do Grupo Especial, concentração da elite da folia carioca. Samba e Carnaval se aliaram na luta por um Brasil mais justo, denunciando as mazelas do dia-a-dia.
Criada pelo carnavalesco da Mangueira, Leandro Vieira, a imagem-síntese desse Carnaval no Rio é a de um Jesus negro, menino, crucificado com o sangue de balas perdidas. Imagem que sangra no cotidiano real carioca, marcado por guerras urbanas em que somente um lado ataca e o outro sofre as consequências da violência e do preconceito social.
A Mangueira tratou o assunto com a devida seriedade. Já a São Clemente usou a irreverência para criticar a propagação criminosa das fake news na era digital.
É o Carnaval e o samba sendo usados como armas pacíficas na defesa das liberdades. É quando brincar o Carnaval vira ato político.
E o samba é o ritmo que embala a brincadeira consciente. Até porque um bom samba – como o da escola Acadêmicos do Grande Rio, agremiação que pregou a tolerância com as crenças religiosas alheias – tem poder para fazer o povo entender o enredo do Brasil em 2020.
Nesse enredo, o samba fez o espetáculo da democracia no Carnaval carioca.