Ruy Quaresma, músico e arranjador da fina flor do samba, morre no Rio aos 69 anos


Vítima de câncer, artista carioca deixa gravadora criada em 2003 e obra autoral construída em parceria com nomes como Martinho da Vila e Nei Lopes. ♪ OBITUÁRIO – Em abril de 2016, ao postar em rede social a foto (ao alto) de Márcia Moreira em que posava com o violonista Marcel Powell no estúdio onde o músico gravara com o Quarteto em Cy, o compositor, violonista, arranjador e produtor musical Ruy Quaresma (8 de fevereiro de 1952 – 6 de julho de 2021) saudou o filho de Baden Powell (1937 – 2000) – “Esse craque eu vi nascer”, gabou-se, em alusão a Marcel – e desejou que o jovem artista viesse a fazer parte do que chamou de “família Fina Flor”.
Quaresma aludia à gravadora Fina Flor, fundada por ele em 2003, como desdobramento da produtora homônima que entrara em cena em dezembro de 2002 no Rio de Janeiro (RJ), cidade natal do artista. De fato, Marcel Powell acabou fazendo parte do elenco da Fina Flor, gravadora por onde lançou em 2018 o álbum Tempo livre.
Ao longo de trajetória musical iniciada aos 12 anos e profissionalizada a partir de fins dos anos 1960, Ruy Quaresma construiu grande família musical. O pianista Gilson Peranzzetta e a produtora Eliana Peranzzetta somente se referiam a Quaresma como “tio Ruy”.
Foi Eliana, a propósito, quem comunicou em rede social a morte de Ruy Quaresma, ocorrida às 23h45m da noite de terça-feira, 6 de julho, em hospital da zona oeste do Rio de Janeiro (RJ) onde o artista estava internado para tratar câncer diagnosticado há cerca de cinco anos.
Antes de sair de cena, Quaresma teve tempo de ver e ouvir o último álbum que editou pela Fina Flor, Quase 50, disco que reúne Áurea Martins e João Senise.
Pela gravadora Fina Flor, o artista editou discos de bambas como Nei Lopes (o aclamado Partido ao cubo, de 2004) e Walter Alfaiate (1930 – 2010), cujos álbuns foram orquestrados com arranjos e produção musical de Quaresma.
Músico e maestro da fina flor do samba, Ruy Quaresma tinha apurado conhecimento técnico (estudou violão clássico, teoria musical e harmonia antes de entrar na roda como instrumentista e arranjador), tendo transitado por vários grupos em caminhada iniciada em 1968 com o Grupo Circuito.
Entre outros feitos, o músico integrou a Orquestra Paulo Moura de 1974 a 1983. De 1975 a 1977, fez parte d’A Fina Flor do Samba, grupo que tocou com Beth Carvalho (1946 – 2019), cantora então em momento de consolidação da carreira no segmento do samba. De 1979 a 1988, tocou na banda de Martinho da Vila.
O currículo foi extenso e variado, mas foi mesmo a partir da abertura da gravadora Fina Flor que Ruy Quaresma parece ter desabrochado aos olhos do público e da mídia como produtor, arranjador e diretor musical.
Como compositor, Quaresma fez músicas com parceiros do quilate de Jorge Aragão (Chamego, de 1981), Martinho da Vila (Sempre a sonhar e Fazendo a cabeça, de 1984 e 1986, respectivamente), Nei Lopes (Baía de Luanda, Barravento, Flor dos tempos, Martírio, Mulher bombeiro, Ô Glória!, Samba da madrugada, Samba de pedra, Samba de Luanda, Samba em Cy e Veleiro branco) e Paulo César Pinheiro (Barreira, de 1990).
Primordialmente associado ao samba, Tio Ruy sai de cena deixando de luto a grande família da música brasileira.