Rosinha de Valença, grande artista que faria 80 anos, tem obra que desafiou o império masculino do violão brasileiro


Rosinha de Valença na capa de álbum de 1973
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♪ MEMÓRIA – Canhoto (1889 – 1928), Garoto (1915 – 1955), Baden Powell (1937 – 2000), Turíbio Santos, Hélio Delmiro, Toninho Horta, Raphael Rabello (1962 – 1995), Yamandu Costa, João Camarero… Na história da música brasileira, os homens sempre dominaram as listas de grandes violonistas nacionais, alguns com justo reconhecimento no exterior.
Contudo, uma mulher desafiou o império masculino do violão brasileiro. Maria Rosa Canellas (30 de julho de 1941 – 10 de junho de 2004) – nascida em Valença (RJ), cidade do interior fluminense da qual pegou o nome artístico, em família de músicos – também se fez grande no toque do instrumento.
Rosinha de Valença poderia estar festejando 80 anos de vida nesta sexta-feira, 30 de julho de 2021, se não tivesse saído de cena há 17 anos, após passar duas décadas em coma em decorrência de lesão cerebral provocada por parada cardíaca sofrida em 1992.
Como violonista, Rosinha de Valença logo se impôs nos anos 1960 pela maestria com que fazia solos melódicos e improvisos vivazes. Como compositora, o reconhecimento aconteceu de forma menos imediata, mas artista deixou para a posteridade um cancioneiro autoral enraizado nas tradições do Brasil rural.
A composição Cheiro de mato (1976) exemplifica a alma interiorana da artista. Interior, aliás, é o nome de uma das músicas mais belas da lavra de Rosinha de Valença. Interior foi gravada em 1978 por Maria Bethânia, cantora que teve os caminhos profissionais cruzados com os de Rosinha de Valença a partir de 1967 e que reverenciou Valença postumamente no tributo fonográfico Namorando a Rosa (2004).
Na época em que começou a trabalhar com Bethânia, a violonista já tinha alguns álbuns na discografia – editados com os selos de gravadoras prestigiadas como a Elenco e a Forma – e já chamava a atenção pelo toque singular do violão. Era discípula da bossa nova, mas pôs outras bossas no violão.
Por isso, apesar de ido para os Estados Unidos ainda nos anos 1960, levada pelo pianista fluminense Sergio Mendes, a violonista logo voltou ao Brasil, país onde se aclimatou definitivamente a partir da década de 1970, tocando em discos e shows de artistas como Martinho da Vila, de quem se tornou parceira em músicas como Semba dos ancestrais (1985), Pro amor de Amsterdam (1987) e Benzedeiras guardiãs (1992).
A maestria da violonista está perpetuada em álbuns de intérprete como Apresentando Rosinha de Valença (1964), Um violão em primeiro plano (1971) e Rosinha de Valença (1973), disco de sotaque nordestino.
Já a obra da compositora pode ser apreciada no álbum Cheiro de mato (1976), cujo repertório autoral destacou Usina de prata e a já mencionada música-título.
Rosinha de Valença está eternizada na história da música brasileira pela habilidade incomum no toque do violão e também por ter desafiado o império masculino erguido ao longo da evolução do instrumento no Brasil.