‘Roque Santeiro’ estreia no Globoplay; relembre a novela clássica


Sátira à exploração política e comercial da fé popular, novela marcou época apresentando cidade fictícia como microcosmo do Brasil e triângulo amoroso entre José Wilker, Regina Duarte e Lima Duarte. A clássica novela “Roque Santeiro” estreia nesta segunda-feira (21) no Globoplay. Exibida entre 1985 e 1986, a obra marcou época apresentando uma cidade fictícia como um microcosmo do Brasil.
Para quem sente saudade do triângulo amoroso formado por Roque Santeiro (José Wilker), a Viúva Porcina (Regina Duarte) e Sinhozinho Malta (Lima Duarte), o G1 relembra alguns dos principais momentos da novela, além de curiosidades, com dados do Memória Globo (leia mais ao fim da reportagem).
Sátira à exploração política e comercial da fé popular, a história se passa em Asa Branca, onde os moradores vivem em função dos supostos milagres de Roque, um coroinha e artesão de santos de barro que teria morrido como mártir ao defender a cidade do bandido Navalhada (Oswaldo Loureiro).
O falso santo, porém, reaparece em carne e osso 17 anos depois, ameaçando o poder e a riqueza das autoridades locais.
“A história de ‘Roque Santeiro’ é tão antiga quanto o ser humano. Ela foi contada na Bíblia, é a história do filho pródigo, da pessoa que volta e, ao voltar, revoluciona, ou restabelece, ou desestabelece aquilo que está instalado”, afirmou Wilker (1944-2014) em depoimento ao Memória Globo.
José Wilker em ‘Roque Santeiro’
Geraldo Modesto/Globo
“Tudo isso é contado com muito humor. Essa é uma das grandes vitórias do Dias Gomes e do Aguinaldo [Silva], que escreveu junto com ele, de contar essa história com humor, porque ela tinha tudo para ser contada com sisudez. Muitas vezes essas histórias políticas são contadas com certo ranço de suposta ou pretensa seriedade, e isso tira o encanto delas, isso afasta um pouco o telespectador, mas quando isso é contado com a devida ironia, com o devido senso de humor, é bastante atraente.”
A volta de Roque Santeiro e o reconhecimento de que tudo não passou de uma farsa significaria o fim do mito, prejudicando os interesses de todos os beneficiários da mentira e também colocando em risco a sustentação da cidade.
Entre os que se sentem ameaçados com a volta de Roque estão o conservador padre Hipólito (Paulo Gracindo), o prefeito Florindo Abelha (Ary Fontoura), o comerciante Zé das Medalhas (Armando Bógus) – principal explorador da imagem do santo – e o temido fazendeiro Sinhozinho Malta, amante da pretensa viúva do santo, a fogosa Porcina.
Incentivada por Sinhozinho, Porcina – que sequer conhecia Roque – espalhou a mentira de que havia se casado com o santeiro e acabou se transformando em patrimônio da cidade. Quando conhece Roque, apaixona-se de fato por ele, formando com Sinhozinho e o santo o principal triângulo amoroso da trama.
“Quando veio a abertura gradual do Geisel, do Brasil, ‘Agora podemos fazer a novela’. E com essa abertura, com essa lufada de vento saudável que perpassou o Brasil, veio a novela ‘Roque Santeiro’. E o povo percebeu: ‘Agora podemos falar, respirar, pesquisar a nós mesmos, saber o que somos, como pensamos, de que jeito agimos, como vamos nos relacionar com a história, o que será desse país daqui pra frente'”, disse Lima Duarte.
“‘Roque Santeiro’ foi um deslanchador dessa revolução, na televisão pelo menos, nesse universo recôndito e maravilhoso das telenovelas, da nossa liberdade, do nosso suspirar e respirar, do nosso encontro conosco mesmo. Esse foi o grande sucesso.”
A censura
O ator se refere à censura sofrida por uma versão anterior da obra, protagonizada por Betty Faria (Porcina), Lima Duarte (Sinhozinho Malta) e Francisco Cuoco (Roque Santeiro). Em 1975, “Roque Santeiro” foi proibida pela ditadura militar.
Haviam sido gravados 30 capítulos da novela quando a Censura Federal percebeu que se tratava de uma adaptação do texto teatral, vetado anteriormente, “O Berço do Heró”i, escrito por Dias Gomes, em 1963.
No dia da proibição, o locutor Cid Moreira leu no “Jornal Nacional” um editorial assinado pelo presidente da Globo, Roberto Marinho, anunciando o veto.
Curiosidades
“Roque Santeiro” foi a primeira novela de Dias Gomes exibida às 20h. Até então, o autor escrevia novelas para as 22h. Aguinaldo Silva passou a escrever a partir do capítulo 41, com a incumbência de dar continuidade à trama. Para isso, contou com a colaboração de três profissionais: os escritores Marcílio Morais e Joaquim de Assis, e a pesquisadora Lilian Garcia. Segundo Aguinaldo, quase no final da trama, no capítulo 163, Dias Gomes declarou que gostaria de finalizar a novela e acabou escrevendo os capítulos finais;
José Wilker conta que a Globo tinha um projeto de desenvolver um seriado a partir de “Roque Santeiro” – como aconteceu com “O Bem-Amado”. Dessa forma, segundo o ator, o final da novela já estava decidido: Porcina só poderia ficar com Sinhozinho Malta. Mas Regina Duarte lembra que foram gravados dois finais;
A novela contou com participações especiais de peso: Lilian Lemmertz, Dennis Carvalho, Marcos Paulo, Paulo César Pereio, Tarcísio Meira, Cláudio Gaya e Jorge Fernando. Os dois últimos interpretaram dois costureiros da capital que foram a Asa Branca fazer o vestido de noiva da Viúva Porcina;
A atriz Elizangela estava escalada, na versão censurada em 1975, para interpretar a personagem Tânia, vivida por Lídia Brondi na versão de 1985. Em depoimento ao Memória Globo, ela contou que, quando soube que “Roque Santeiro” finalmente seria levada ao ar, foi pessoalmente conversar com o diretor Paulo Ubiratan para pedir um papel na novela. Ganhou a Marilda, mulher de Roberto Mathias (Fábio Jr.);
“Roque Santeiro” foi a primeira novela dos atores Maurício Mattar, Claudia Raia e Patrícia Pillar;
Regina Duarte não foi o primeiro nome pensado pela direção para viver a estridente Viúva Porcina. Segundo o ator Lima Duarte, Sônia Braga, Vera Fischer, Marília Pêra e Fernanda Montenegro chegaram a ser sondadas para o papel. A escolha final, porém, mostrou-se a mais acertada: o entrosamento do casal Sinhozinho e Porcina foi perfeito. Diferentemente da versão censurada, em que contracenava com Betty Faria, Lima Duarte emprestou um tom mais cômico a seu personagem;
Claudia Raia conta que, escalada para fazer um papel pequeno na trama – a dançarina e prostituta Ninon –, acabou ganhando notoriedade e sucesso com suas cenas na novela, tornando-se símbolo sexual;
Yoná Magalhães viveu uma experiência inusitada por conta da novela. No papel de Matilde, ela vestiu pela primeira vez uma malha na TV. Estava tão em forma que, aos 51 anos, foi chamada para posar para a revista Playboy;
O ator e diretor Marcos Paulo estava escalado para interpretar o personagem Gerson, o diretor de cinema, na primeira versão da novela, que foi censurada. Dez anos depois, além de fazer uma participação especial na segunda versão, ele ainda foi um dos diretores da produção;
A trilha sonora de “Roque Santeiro” obteve enorme sucesso e levou a gravadora Som Livre a abrir um precedente: pela primeira vez, deixou de produzir a trilha internacional de uma novela para lançar um segundo volume da trilha nacional. O primeiro volume vendeu mais de meio milhão de cópias em apenas três meses.