Romulo Fróes faz 50 anos e acerta no ‘erro’ de fazer dois discos distintos com repertório igual


Artista lança ‘Aquele nenhum’ e ‘Ó nóis’, álbuns diferenciados pelas sonoridades opostas, mas unidos pelas mesmas canções autorais. ♪ “Vai dar errado”, profetiza Jards Macalé na abertura de Ó nóis, um dos dois álbuns lançados por Romulo Fróes neste domingo, 20 de junho, dia do 50º aniversário deste vanguardista cantor e compositor paulistano nascido em 20 de junho de 1971.
Ó nóis chega ao mundo digital pela gravadora YB Music na companhia de disco gêmeo, Aquele nenhum, álbum com o qual se une pelo fato de ambos apresentarem o mesmo repertório autoral com sonoridades distintas.
A sentença de Macalé – que deve ser entendida como a propensão de Fróes de acertar ao apostar no que pode ser considerado um erro pela visão empresarial dos gestores do mercado da música – já foi ouvida há 15 anos quando o artista ofereceu a Macalé um exemplar do então recém-lançado segundo álbum solo de Fróes, Cão (2006).
Capa do álbum ‘Aquele nenhum’, de Romulo Fróes
Arte de Thiago Lacaz
“Vai dar errado”, avisou Macalé na época, intimamente orgulhoso do erro do colega. Como a vida deu voltas, Romulo Fróes acabou sendo um dos arquitetos do aclamado último álbum de Macalé, Besta fera (2019), e também virou parceiro do compositor carioca, ele também dono de trajetória orgulhosamente errática.
Sobra do repertório de Besta fera, Baby infeliz (Jards Macalé, Guilherme Held, Romulo Fróes e Nuno Ramos) ganha registros simultâneos nos dois álbuns de Fróes com letra que alude a títulos emblemáticos do cancioneiro de Macalé, como Anjo exterminado (1972) e Movimento dos barcos (1971), parcerias do compositor com o poeta Waly Salomão (1943 – 2003).
No álbum Ó nóis, a música Baby infeliz é ouvida entre dissonâncias e ruídos que pavimentam este disco cheio de barulhos feios. No álbum Aquele nenhum, Baby infeliz aparece em registro mais certinho de voz e violão.
O mesmo acontece com composições como Aquele nenhum (Romulo Fróes), Braço magro (Romulo Fróes e Alice Coutinho), Minha música (Romulo Fróes e Nuno Ramos), Me olha e manda (Romulo Fróes e Alice Coutinho) e Num cara só (Romulo Fróes e Clima). E o resultado é interessante.
Ambos os discos foram produzidos por Frederico Pacheco com o próprio Romulo Fróes. Outro traço (literal) em comum entre os álbuns Aquele nenhum e Ó nóis é a arte gráfica criada por Thiago Lacaz.
Capa do álbum ‘Ó nóis’, de Romulo Fróes
Arte de Thiago Lacaz
Contudo, há sutis diferenças no repertório. Ó nóis inclui interpretação a capella do samba Aos pés da cruz (Zé da Zilda e Marino Pinto, 1942) em registro nu que poderia figurar em Aquele nenhum – se não tivesse sido acoplado à gravação ruidosa de Elza aqui (Romulo Fróes e Nuno Ramos, 2019), música lançada há dois anos em single.
Há ainda em Ó nóis outra faixa exclusiva que se afina com o tom de Aquele nenhum. É o solo vocal de Jards Macalé em Se queres saber, bolero do compositor alagoano Peter Pan (1911 – 1983), lançado em 1947 pela cantora Emilinha Borba (1923 – 2005).
Na sequência do disco Ó nóis, após Se queres saber, o samba torto O que começa acaba (Romulo Fróes e Clima) retoma a sinfonia dissonante desse álbum que reverbera experimentações sonoras já feitas pelo artista em álbuns como No chão, sem o chão (2009) e Barulho feio (2014).
Romulo Fróes apresenta parceria com Jards Macalé, solista do bolero ‘Se queres saber’ no álbum ‘Ó nóis’
Luan Cardoso / Divulgação
Dialeticamente, o álbum Aquele nenhum abre com o samba-título do disco-irmão – Ó nóis, parceria de Romulo Fróes com Clima – em gravação em que o toque do violão do artista ecoa bossas sempre novas que também estão embutidas no passo torto da abordagem nua e crua da já mencionada composição Me olha e me manda.
Entre silêncios e barulhos, Romulo Fróes acerta mais uma vez ao insistir no erro com os álbuns Aquele nenhum e Ó nóis, cumprindo a profecia de Macalé. Como reflete o cantor em versos de Num cara só, “Nada deu ruim / Tudo ensina / Tudo tem seu bem”.