Roberta Sá honra alquimia do ‘bruxo de Juazeiro’ em show com bossa que abarca Anitta e Erasmo Carlos


Cantora cai elegante no samba em live feita no Rio de Janeiro, com o violonista Rafael dos Anjos, para celebrar os 90 anos de João Gilberto e lançar disco inédito de 2004. Resenha de live-show
Título: Sambas & bossas
Artista: Roberta Sá
Local: Teatro Claro Rio (Rio de Janeiro, RJ)
Data: 5 de junho, das 21h às 22h
Cotação: * * * * 1/2
♪ Tivesse pertencido à geração e à turma de Nara Leão (1942 – 1989), Roberta Sá talvez tivesse sido musa da bossa nova. O canto sustentado com leveza e sem vibrato sempre credenciou a garota potiguar de Natal (RN) – desde os nove anos transformada em girl from Rio por ter vindo morar na cidade natal da bossa – a dar voz com propriedade ao repertório do cantor e violonista João Gilberto (1931 – 2019), mentor da revolução musical de 1958.
Neta dessa revolução, Roberta recorreu à herança deixada ao mundo por João quando entrou timidamente em cena como cantora, em 2002, para iniciar carreira que decolou três anos depois quando, em 2005, a artista lançou o primeiro álbum, Braseiro.
Gravado em 2004 e lançado em março do ano seguinte, Braseiro foi aberto com o samba que abriu o penúltimo álbum de estúdio do papa da bossa nova, João (1991), disco lançado há 30 anos que se tornou referencial na formação musical de Roberta.
Samba apresentado em 1946 pelo grupo vocal Anjos do Inferno, Eu sambo mesmo (Janet Almeida) expôs sutilmente na abertura do álbum Braseiro a conexão entre Roberta Sá e João Gilberto. E, por isso mesmo, o samba figurou entre as 19 músicas do roteiro do inédito show Sambas & bossas, apresentado pela cantora na noite de sábado, 5 de junho, em live transmitida diretamente do palco do Teatro Claro Rio, no bairro carioca de Copacabana.
Fiel à estética minimalista de João, Roberta cantou somente com o violão de Rafael dos Anjos, cujo toque cheio de bossa ficou especialmente evidenciado nos adornos da abordagem de Chega de saudade (Antonio Carlos Jobim e Vinicius de Moraes, 1958), samba com o qual João fez a revolução há 63 anos em single histórico.
O mote da live de Roberta Sá foram os 90 anos de nascimento de João Gilberto – a serem festejados na próxima quinta-feira, 10 de junho – e a edição comercial do álbum Sambas & bossas, feito por Roberta em 2004 sob encomenda de empresa após a gravação do disco Braseiro.
Até então disponível na internet de forma extraoficial e em CD como bootleg, o álbum Sambas & bossas ganhou edição digital na sexta-feira, 4 de junho, e edição em LP já posta em pré-venda pela Bolachão Discos com entrega prevista para novembro.
Na live, em que cantou sentada o tempo todo, Roberta Sá incluiu nove das 11 músicas do álbum Sambas & bossas em roteiro que surpreendeu no início e no fim do show.
Roberta Sá com o violonista Rafael dos Anjos na live-show ‘Sambas & bossas’
Reprodução / Vídeo
“A bossa nova é foda”, sentenciou Roberta Sá já na inesperada abertura do show, de elegância realçada pelo figurino da cantora e pelo belo desenho de luz que preencheu o palco do Teatro Claro Rio. Atualizada na interpretação de Roberta com citações nominais de Juliette Freire, Nelson Sargento (1924 – 2021) e Paulo Gustavo (1978 – 2021) na letra, A bossa nova é foda é a música apresentada por Caetano Veloso na abertura do último disco de inéditas do artista, Abraçaço (2012).
Ao longo da live, Roberta Sá encarou a equação minimalista da música de João Gilberto e celebrou a alquimia do bruxo de Juazeiro – como Caetano se refere a João no verso inicial de A bossa nova é foda. Só que, reiterando que tem personalidade, a cantora pôs os próprios ingredientes no caldeirão cozinhado no fogo brando da bossa.
Ter desaguado com naturalidade em Girl from Rio (Anitta, Gale, Raye, Tor Erik Hermansen e Mikkel Storleer Eriksen, 2021) – o sucesso planetário de Anitta – ao fim do samba Garota de Ipanema (Antonio Carlos Jobim e Vinicius de Moraes, 1962) atestou que Roberta recusa o saudosismo puro e simples ao conduzir o próprio barquinho. Tanto que, no meio das bossas, apresentou samba inédito, Mudando de canal, composto com outro João, o Cavalcanti, para sintonizar a esperança de dias melhores.
Do repertório doe João eterno, o Gilberto, Roberta soube mostrar o frescor de maravilhas sempre contemporâneas como Coisa mais linda (Carlos Lyra e Vinicius de Moraes, 1961). E, como a bossa nova também é um estado de espírito, como sentenciou Ronaldo Bôscoli (1928 – 1994), pareceu que canções como Casa pré-fabricada (Marcelo Camelo, 2001) e Belo e estranho dia de amanhã (Lula Queiroga, 2007) – “a bossa pernambucana”, como caracterizou Roberta em alusão à origem do compositor da música – surgiram por volta de 1960.
Com a suavidade da voz realçada pela emissão límpida e pela afinação extraordinária, Roberta Sá quebrou direitinho no samba Falsa baiana (Geraldo Pereira, 1944), caiu brejeira no suingue de Essa moça tá diferente (Chico Buarque, 1970) – com direito a tropeço em palavra (esquerdo) da letra – e se iluminou para anunciar o sol prestes a raiar na poesia de Pressentimento (Elton Medeiros e Hermínio Bello de Carvalho, 1968), samba que irradiou as mesmas boas vibrações propagadas pela cantora no medley com Alegria (Cartola, 1973) e O sol nascerá (Elton Medeiros e Cartola, 1964).
Por mais que A flor e o espinho (Nelson Cavaquinho, Guilherme de Brito e Alcides Caminha, 1957) tenha desabrochado sem toda a mágoa do samba (mas em interpretação mais maturada do que a do disco de 2004), a live de Roberta Sá transcorreu com graciosa sobriedade, perceptível na homenagem final a Erasmo Carlos, artista que festejou 80 anos no dia do show. “Por mais Erasmos no mundo”, pediu a cantora.
Do Tremendão, Roberta mostrou a bossa marota que há no samba-rock Coqueiro verde (Roberto Carlos e Erasmo Carlos, 1970) e, na sequência, deu voz à canção motivacional É preciso saber viver (Roberto Carlos e Erasmo Carlos, 1968). “É preciso saber e deixar viver”, improvisou a cantora, mandando recado político ao fim do número que encerrou a live.
Até quando fez um barulhinho bom, a bossa nova de Roberta Sá honrou os sons e silêncios do bruxo de Juazeiro.
Roberta Sá alinha 19 músicas no roteiro da live ‘Sambas & bossas’
Reprodução / Vídeo
♪ Eis o roteiro seguido por Roberta Sá no show Sambas & bossas, transmitido ao vivo do Teatro Claro Rio na noite de 5 de junho de 2021:
1. A bossa nova é foda (Caetano Veloso, 2012)
2. Garota de Ipanema (Antonio Carlos Jobim e Vinicius de Moraes, 1962) /
3. Girl from Rio (Anitta, Gale, Raye, Tor Erik Hermansen e Mikkel Storleer Eriksen, 2021)
4. Chega de saudade (Antonio Carlos Jobim e Vinicius de Moraes, 1958)
5. Coisa mais linda (Carlos Lyra e Vinicius de Moraes, 1961)
6. Essa moça tá diferente (Chico Buarque, 1970)
7. Samba de um minuto (Rodrigo Maranhão, 2004)
8. A flor e o espinho (Nelson Cavaquinho, Guilherme de Brito e Alcides Caminha, 1957)
9. Pressentimento (Elton Medeiros e Hermínio Bello de Carvalho, 1968)
10. Eu sambo mesmo (Janet Almeida, 1946)
11. Falsa baiana (Geraldo Pereira, 1944)
12. Mudando de canal (Roberta Sá e João Cavalcanti, 2021)
13. Belo e estranho dia de amanhã (Lula Queiroga, 2007)
14. Casa pré-fabricada (Marcelo Camelo, 2001)
15. O lenço e o lençol (Gilberto Gil, 2019)
16. Alegria (Cartola, 1973) /
17. O sol nascerá (Elton Medeiros e Cartola, 1964)
18. Coqueiro verde (Roberto Carlos e Erasmo Carlos, 1970)
19. É preciso saber viver (Roberto Carlos e Erasmo Carlos, 1968)