Rita, Letícia, Virgínia… conheça nova geração feroz de ‘mulheres-hit’ e relembre musas históricas


Marina, Carolina, Kátia Flávia, Mila, Raimunda, Anna Júlia, Jenifer… G1 analisa sucessos com nomes de mulheres e mostra como elas já sofreram e hoje dão facada, chute e pedrada. Mulheres-hit
Wagner Magalhães / G1
Elas dão facada, pedrada, voadora no peito e enfiam o canivete no pneu. Uma nova leva de músicas com nomes de mulheres chegou à música brasileira com sucesso e violência. “Rita”, “Letícia”, “Virgínia”, “Renatinha”, “Larissa” são destemidas e não superaram as dores de suas precursoras.
O podcast G1 Ouviu analisa a onda de “mulheres-hit” impiedosas e relembra exemplos de grupos anteriores. Quase todas são escritas por homens. Portanto, refletem o olhar masculino sobre as mulheres de suas épocas, com opressão, subversão, fascínio e medo. Ouça abaixo e leia mais a seguir.
As implacáveis
As implacáveis
Arte G1 / Wagner Magalhães
Em 2017, só duas músicas brasileiras com nomes de mulheres passaram pelo top 200 do Spotify. Em 2018 e 2019, foram quatro por ano, mas quase toda a audiência veio da liberal “Jenifer”, que fazia “umas paradas” para Gabriel Diniz.
A explosão (de hits e golpes) das mulheres-hit veio em 2020. Foram sete músicas, com audiência somada de 171 milhões de plays no Spotify, quase o triplo da audiência do ano anterior e o dobro do recorde mais recente, de 2018.
Em 2021, só até janeiro, oito delas já desfilaram no ranking: “Letícia” (Zé Vaqueiro), “Rita”, (Tierry), “Oh Juliana” (Niack), “Larissa” (Pedro Sampaio), “Marília Mendonça” (Bin), “Virgínia” (Zé Felipe), “Bruninha” (Kevinho) e “Renatinha” (Barões da Pisadinha e Xand Avião).
“Tá de shortinho curto, descendo até o chão, e cada rebolada é um chute no coração”, cantam Barões e Xand sobre Renatinha. Ainda no ritmo da pisadinha, a “Letícia” troca Zé Vaqueiro por um mototaxista. Mas tem quem faça pior que dar pé no peito e fugir de moto.
“Chegou dando pedrada no retrovisor, meteu o canivete no pneu do carro… Bate em mim, meu Uno Mille não tem nada a ver com isso / Bate em mim, calma, Virgínia eu não tô te traindo”, canta Zé Felipe em “Virgínia” (nome da sua noiva na vida real).
Um dos autores de “Virgínia” é o pernambucano Lucas Medeiros. Ele também escreveu “Bruninha”, de Kevinho e Tierry, que não bate e só provoca com sua “boca gostosinha”. Essa violência sem bater, só “na sentada”, também é praticada por “Larissa”, feita por Pedro Sampaio e inspirada em Anitta.
“Para mim e para a maioria dos compositores, artistas, pessoal do mercado, a música que puxou essa onda toda foi a ‘Rita’ do Tierry. Ela foi muito viral, estourou, aí o pessoal seguiu a tendência”, diz Lucas.
“Ô, Rita, volta desgramada, volta Rita que eu perdoo a facada”, canta Tierry no hit que puxou a fila.
Saiba mais sobre o hitmaker baiano do arrocha Tierry
“Tudo que é verdadeiro vai ressoar. Isso é o que mais acontece. A maioria dos chamados de polícia hoje no Brasil é para briga de casais. Infelizmente. Sabe lá o que a Rita passou para ter esse posicionamento”, analisa Tierry.
Tayrone, outro cantor baiando de arrocha estourado, canta: “Edilene, desce desse pole-dance, Edilene / Edilene eu nunca mais vou te trair…”.
Além da raiva feminina, o homem das músicas está sempre acuado: pede desculpas e tenta voltar ao que era antes. Parecem saber que estão errados. É como se as letras refletissem o contexto atual de mulheres que denunciam e não deixam barato os abusos masculinos – um “arrocha pós-MeToo”.
Mas os tempos no Brasil já foram outros. Há incontáveis representantes, e nem todas seguem um padrão. Mas é possível identificar alguns grupos com características semelhantes com exemplos de mulheres-hit do passado.
As sofridas

Arte G1 / Wagner Magalhães
Sempre houve mulheres fora da curva, mas, até os anos 60, a maioria delas sofria demais – e não tinha muita voz. “Ai! Que saudades da Amélia”, de 1942, de Ataulfo Alves e Mário Lago, nomeou a mulher submissa, que não faz “exigência” e nem tem “a menor vaidade”.
No clássico e belo samba-canção “Marina” (1947), de Dorival Caymmi, a moça toma uma bronca histórica porque resolveu maquiar o rosto. “E quando eu me zango, Marina, não sei perdoar”, ele diz.
“Iracema” (1956) de Adoniran Barbosa, morre atropelada e ainda leva uma lição masculina no além: “Eu sempre dizia, cuidado ao ‘travessar essas ruas, eu falava, mas você não me escutava não”. Já “Emilia” (Wilson Batista e Haroldo Lobo) ganha elogios – por fazer um bom café. Cada época com suas odes.
Nos anos 60, havia um sinal de mudança no ar, mas os homens não captavam. Chico Buarque tentava entender a tristeza de “Carolina”. Mulheres sumiam e eles não entendiam bem o porquê. É o caso de “Cadê Tereza?”, de Jorge Ben, e da Rita, que antes de esfaquear Tierry, levou o sorriso de Chico.
As transgressoras

Arte G1 / Wagner Magalhães
A liberdade feminina só ia ser escancarada mesmo em hits dos anos 70. Em 1973, Chico Buarque foi muito além da “Rita” e criou a “Bárbara”, que vivia uma “paixão vadia, maravilhosa e transbordante” com outra mulher.
A década foi tão progressista que teve um exemplo raro até hoje: assinatura feminina também na composição. “Elvira Pagã”, de Rita Lee, citava a vedete que despontou no Rio nos anos 30.
Fernando Brant e Milton Nascimento criaram para um espetáculo do Grupo Corpo “Maria, Maria”, com “a estranha mania de ter fé na vida”. Após cancelar a maquiagem, Caymmi exaltava a resolvida e livre “Gabriela” na modinha da novela na voz de Gal Costa, baseada na personagem de Jorge Amado.
Há exemplos até nos gêneros mais populares, onde surgiam figuras femininas fortes, como a cigana maravilhosa e delirante “Sandra Rosa Madalena” cantada por Sidney Magal.
As aventureiras

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Os anos 80 aprofundaram a liberdade com o pé no chão. São nomes de mulheres que viraram sinônimo de luta e ousadia nos anos de reabertura do Brasil. O exemplo principal é “Bete Balanço”, do Barão Vermelho. Cazuza e Frejat a criaram para o filme de 1984 estrelado por Débora Bloch.
Três anos depois nasceu “Kátia Flávia”, de Fausto Fawcett, que anteciparia movimentos do pop e do funk brasileiros andando toda nua, provocando a polícia e usando calcinhas bélicas com armamentos bordados – antes de qualquer “bumbum granada”.
Essas mulheres ficaram marcadas na geração do rock brasileiro dos anos 80, que continuaram a exaltá-las depois, como a sonhadora e lutadora “Janaína”, do Biquíni Cavadão, de 1998. Fora do rock esse espírito também era forte, como na desembolada “Tieta” cantada por Luiz Caldas.
As violentadas

Arte G1 / Wagner Magalhães
Mas o mundo não anda só para a frente. No final dos anos 80 e início dos 90, apareceu uma inacreditável geração violentada. São personagens que sofreram na pele com o conservadorismo.
Não tem exemplo maior que “Sílvia”, do Camisa de Vênus. Os versos impublicáveis confundem vibrador com falta de amor, exaltam a agressão física do “homem que sabe o que quer” e têm ofensas berradas com gosto.
Ao menos nessa turma há uma personagem, a “Camila” do Nenhum de Nós, que sofre na letra, mas é fruto de uma abordagem sensível da banda que denunciava – e não exaltava – a violência.
Mas a misoginia seguiu no rock dos anos 90, vide a humilhada “Pequena Raimunda”, dos Raimundos.
E do sertanejo veio a decapitada e violentada Maria Chiquinha, nascida nos anos 60, mas sucesso na voz dos pequenos Sandy e Junior em 1991. Após um diálogo ciumento, ele cantava: “Então eu vou te cortar a cabeça, Maria Chiquinha ”. E o pior: “Que c’ocê vai fazer com o resto, Genaro, meu bem? / O resto? Pode deixar que eu aproveito”.
As iluminadas

Arte G1 / Wagner Magalhães
Felizmente, nos anos 90 despontou também uma onda de mulheres alto astral. Elas foram puxadas pelo auge do axé baiano. Eram cheias de brasilidade, suíngue e positividade. Uma voz feminina predominou: Ivete Sangalo. Tinha a generosa “Rosa”, dela com o Olodum.
Mas inesquecível mesmo foi a viajante “Eva”. Ela nasceu na Itália, escrita por Umberto Tozzi em 1982, ganhou uma versão brasileira de sucesso com a banda Rádio Táxi, e explodiu com ainda mais impacto na voz de Ivete e sua ex-banda homônima da canção.
A febre do axé ainda rendeu a incansável “Milla”, de Netinho. Fora do trio elétrico, outra musa “good vibes”, já nos anos 2000, foi “Carolina”, do Seu Jorge: inteligente, sensual, um “docinho de pavê”.
As ingratas

Arte G1 / Wagner Magalhães
A última turma antes da atual onda casca-grossa é a das ingratas – pelo menos no olhar dos compositores. São mulheres que causaram muito chororô só por não quererem ficar com os caras.
O marco é o movimento emo, que basicamente era um monte de marmanjo reclamando de mulher. Aí surgiu a “Regina”, que nunca soube responder o que o Badauí do CPM 22 tinha feito para ela. Os Los Hermanos não eram emo, mas faziam na época um pop-punk-choroso com “Anna Júlia”.
Esse perfil da mulher ingrata não ficou só no rock. Ele transbordou para o funk pop do Latino e sua “Renata”. Outra ingrata, essa no forró, foi “Paulinha”, xará da sua intérprete, vocalista do Calcinha Preta.
Na época, os homens de diversos passavam a imagem de que sofriam muito na mão das mulheres. Mas a coisa ia piorar com Rita e sua faca…